Filosofia e Ciências da Religião é o tema do novo número de Basilíade – Revista de Filosofia

É com grande satisfação que apresentamos aos leitores o v. 2, n. 4, de Basilíade – Revista de Filosofia, correspondente ao período de julho a dezembro de 2020. Este número traz o dossiê organizado pelo professor Dr. Teodoro Hanicz, intitulado Filosofia e Ciências da Religião. São cinco artigos que apresentam discussões pertinentes à relação e ao diálogo entre filosofia e religião, evidenciando assim a postura crítica da filosofia frente à religião e também à Ciência da Religião. Esta, como se sabe, é uma área do saber que se propõe investigar a religião e as mais variadas formas de manifestação religiosa a partir de uma perspectiva científica. Os autores presentes neste dossiê dialogam com filósofos, cientistas, teólogos e psicanalistas, tais como: F. Hinkelammert, Mbembe, Tomás de Aquino, Hegel, Parthasarathy, Vivekananda, Radhakrishnan, Fabro, Kierkegaard, Berger, Burket, Eliade, Freud, Lacan, entre outros.

O professor Claudio Santana Pimentel, no instigante texto, Por uma crítica da dimensão sacrificial do neoliberalismo, procura estabelecer uma ponte entre a Filosofia e a Ciência da Religião, trazendo à tona uma provocante reflexão sobre a dimensão sacrificial do discurso neoliberal em meio à pandemia da Covid-19. Ele parte do pressuposto de que a experiência social e a experiência religiosa atuais são profundamente marcadas pela lógica avassaladora do capitalismo. Ancorado na crítica de Franz Hinkelammert e de Achille Mbembe, mostra como o capitalismo neoliberal coloca os interesses econômicos acima, inclusive, da preservação da vida. Então, nessa perspectiva, são vítimas do neoliberalismo sacrificial principalmente os idosos, os pobres e os negros.

A defesa do pensamento católico e da cultura cristã na sociedade moderna é o objeto do texto: O neotomismo em Curitiba (1930-1950): o Círculo de Estudos Bandeirantes e a crítica da modernidade, de Teodoro Hanicz. O autor analisa um grupo de católicos inconformados com a modernidade e seus efeitos na cultura, no pensamento, na religião e nos costumes. Esse grupo era convicto de que a dinâmica liberal moderna não se harmonizava com o ethos cristão católico. O liberalismo, apoiado na secularização e no laicismo, havia destruído as bases da religião e a tradição católica, implantado assim uma nova ordem e um novo ethos social e cultural. Como resposta e saída, os católicos buscaram no pensamento tomista elementos para dialogar com a modernidade e restaurar os valores cristãos da sociedade curitibana dos anos de 1930 a 1950. O tomismo apresentava-se como uma possibilidade de encontrar respostas para salvaguardar o homem dos erros asfixiantes do mundo moderno e, consequentemente, reencontrar o seu sentido e o seu fim no mundo.

O artigo de Rogério Miranda de Almeida e Guilherme Costa Fernandes, Hegel e a Religião como o segundo momento da marcha do Espírito, desenvolve uma reflexão densa sobre a concepção hegeliana da religião, destacando a religião como o segundo momento da marcha do Espírito Absoluto e tendo como referência principal a obra: Fenomenologia do Espírito. Trata-se de uma rica e sutil análise, através da qual os autores percorrem o caminho da religião mostrando marcha e a determinação do Espírito Absoluto pelos principais momentos e as principais figuras da religião: a religião natural, a religião da arte e, finalmente, a religião revelada.

Em Teoria do Karma, sistema das castas e conceito de reencarnação e seu impacto na sociedade indiana: uma leitura antropo-filosófica, Joachim de Andrade, indiano de raiz, faz um estudo da sociedade indiana a partir de três conceitos distintos da tradição hinduísta: a teoria do Karma, a reencarnação e o sistema de castas. O autor argumenta sobre a importância desses três conceitos básicos para a sociedade indiana, os quais envolvem o indivíduo de tal maneira que, por vezes, parece que ele está eternamente preso, sem encontrar nenhuma saída. São elementos que sustentam todo o universo familiar, religioso e social do mundo hindu. Fazem também transparecer a força e a supremacia da religião na vida do indivíduo e favorecem convivências harmônicas entre a antiguidade e a modernidade. Eles constituem, enfim, um estilo de vida que marca, inclusive, a contemporaneidade. Neste estudo encontramos ainda outro aspecto importantíssimo para a religiosidade indiana. Trata-se do processo de construção da tríade hindu: Brahma, Vishnu e Shiva.

Marcos Vinícius Ramos de Carvalho, no artigo: O “eu” diante do Absoluto: escólio de Cornélio Frabro sobre a noção de liberdade em Soren Kierkegaard, faz uma leitura da noção de liberdade em Kierkegaard a partir da perspectiva de Cornélio Fabro. Este clérigo e pensador católico afirma que o pensamento de Kierkegaard possui um apelo contínuo à transcendência, e isto em todos os níveis da consciência, desde a do homem comum até aquela que está na base da ética e da religião. A liberdade é um dos grandes problemas do homem moderno, e mais ainda do cristianismo, porquanto a modernidade dissolve as bases cristãs de concepção da liberdade. O homem moderno, libertado da dependência do Absoluto, mergulha, no entanto, em um vazio ético e, consequentemente, numa espécie de vácuo metafísico. O texto discute a real tensão do homem imposta pela liberdade entre o que deve escolher e o que não deve, entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso.

Conforme a linha editorial de Basilíade – Revista de Filosofia, após os artigos do dossiê, há também espaço para artigos na chamada modalidade fluxo contínuo. Deste modo, Allan Martins Mohr traz sua contribuição com um estudo intitulado: A morte de Lacan: um dos nomes do não-ser e causa eficiente do parlêtre. O autor examina o conceito de Outro em Lacan através destes temas a) as hipóteses parmenidianas, b) o Outro como real radical, e c) a relação com o instinto de morte. Assim, ele ratifica a tese segundo a qual a morte é causa primeira e eficiente do parlêtre.

A série de artigos aqui apresentados se encerra com uma recensão escrita por Alessandro Cavassin Alves sobre a obra organizada por Evelyn de Almeida Orlando, Peri Mesquida e Valdir Borges, intitulada: Os refugiados da Terra: uma problemática ético-política inspirada nas abordagens freirianas. Curitiba: CRV, 2019.

Agradecemos, portanto, aos autores pelas suas valiosas contribuições ao presente dossiê e desejamos a todos aqueles e a todas aquelas que percorrerão as páginas de Basilíade uma agradável e enriquecedora leitura.

Teodoro Hanicz
Coordenador do Departamento de Filosofia
Organizador do presente dossiê

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