Heráclito: as mudanças ocorrem simultaneamente ao rio que corre

É comum acreditarmos na ideia de que tem que acontecer algo ruim para começarmos a mudar. Em variadas situações percebemos isso se repetindo continuamente e esta pandemia veio para nos aclarar muitas coisas. Há quem se pergunta: “quantas coisas eu tive que mudar somente por conta dessa pandemia?”. E obtém várias respostas em que se orgulha por tamanha mudança. Ou ainda tem o pensamento de que teve que vir algo ruim para começar a mudar o estilo de vida, o corpo, os costumes, os pensamentos. Na realidade, vivemos intensamente a ideia de que “algo tem que acontecer” para a mudança começar e não nos esforçamos para perceber que estamos sempre em constante mudança.

É compreensível que em um mundo em que a agitação e o tempo “não param de correr” precisamos muitas vezes só fazer aquilo em que nos habituamos e, esquecemos de perceber os detalhes e as mudanças da nossa vida. Porém, somos seres em constante mudança, mesmo que não nos demos conta. A pandemia – como exemplo mais recente e que ainda vivemos –  veio para nos indagar de que forma estamos vivendo e o que estamos fazendo com nossas vidas, ou seja, o que estamos mudando, mas, em nenhum momento, ela foi um pontapé inicial de mudança, assim como outros fatores também não foram.

Veremos isso claramente no pensamento de Heráclito. Heráclito nasceu em Éfeso, antiga colônia grega em 540 a.C. e morreu por volta de 470 a.C. Era pré-socrático e como bem sabemos não se tem muitas informações e obras completas dos filósofos pré-socráticos. De Heráclito temos fragmentos e o que os seus discípulos e colegas contaram ao passar do tempo.

Quando falamos em Heráclito, é quase que instantâneo pensar na ideia do rio e toda a sua dinamicidade. Ele dizia que não se pode banhar-se duas vezes no mesmo rio uma vez que as águas já não serão mais as mesmas e tampouco a pessoa será a mesma. Porém, em um estudo mais detalhado e profundas reflexões é possível afirmar que nem mesmo uma só vez pode-se banhar-se no mesmo rio, pois a água que está tocando a ponta do dedo não é a mesma que toca no calcanhar e o homem que ali está banhando-se não está fixado com um único pensamento durante esse único banho.

A ideai do rio é justamente para levar a essa ideia de que tudo está em constante mudança, em todo momento nós e as coisas estamos nos renovando, purificando, mudando e melhorando. Como Heráclito mesmo nos diz: “Este mundo, o mesmo de todos os (seres), nenhum deus, nenhum homem o fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas.”[1], para mostrar que as coisas estão nascendo e morrendo e quem ordena essas medidas que ora acende, ora apaga é o Logos que em Heráclito é traduzido como a razão, a inteligência.

Para Heráclito, tudo flui em um ciclo infinito de transformações. Ele nos diz também: “Para almas é morte tornar-se água, e para água é morte tornar-se terra, e de terra nasce água, e de água alma.”[2] Esse ciclo sem fim, em constante mudança de que um sujeito morre na medida em que nasce e nasce na medida em que morre, vemos também no Evangelho: “Em verdade, em verdade vos digo que, se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica ele só, mas se morrer, dá muito fruto” (Jo 12,24).

A partir desse constante morrer para nascer, em que tudo flui, caracterizando o mundo como um eterno devir, entendemos que as mudanças ocorrem em todo momento. Esse rio em que não podemos em uma única vez nos banhar com a mesma água, faz-nos compreender que as mudanças da vida são ligeiras e necessárias. Esse processo contínuo, desde o nascimento até a morte, recorda-nos a necessidade de nos pôr a serviço e à disposição.

As mudanças não ocorrem somente em situações difíceis, podem até se acentuar, porém somos seres que fluímos, assim como as coisas fluem, a natureza flui. Nesse constante fluir vemos as águas do rio de Heráclito passar e juntamente com elas as nossas ideias, reflexões e pensamentos. Porém, não só vão, pois enquanto umas coisas morrem, outras nascem e então somos preenchidos de conhecimentos e ideias para seguir a jornada.

Gostou destas informações? Compartilhe este post em suas redes sociais!

Autor: Pablo Júnior Ramos Espíndola, estudante do 2o Ano do Curso de Filosofia da FASBAM.

[1] HERÁCLITO. Fragmentos. In: Os Pré-Socráticos. Trad. José Cavalcanti de Souza et. Al. São Paulo, abril 1989 (Coleção Os Pensadores). p. 90.

[2]  Ibidem, p. 91.

2 thoughts on “Heráclito: as mudanças ocorrem simultaneamente ao rio que corre

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Open chat