O devir: entre Heráclito e Nietzsche

A significação em torno do termo devir está longe, na filosofia, de uma univocidade; o que não significa dizer que seja ele vago. Ao contrário, manifesta-se intrigante a recorrência a esse termo durante a história da filosofia. Com efeito, conscientes de tais dificuldades, devemos, portanto, optar por um caminho o mais específico que nos for possível, a fim de que alcancemos certa assimilação do tema. De maneira geral nosso termo em questão é utilizado como sinônimo de “tornar-se” ou, ainda, “vir-a-ser” – em outros momentos também é utilizado para denotar a mudança mesma ou o movimento, propriamente dito –, o que permite que nosso raciocínio já tome certa forma. A nós interessará a utilização da expressão vir-a-ser, a partir da filosofia nietzschiana e seu elogio ao efésio Heráclito.

Quando os jônicos, no esforço de encontrarem o substrato material elementar de todas as coisas, se dispuseram à observação dos astros e de todas as realidades fenomenológicas certamente constataram que tudo estava em um constante movimento, e igualmente em constante transformação. O que levou Heráclito a sistematizar sua filosofia a partir do vir a ser, do movimento e transformação constantes em tudo o que se observa. O fogo, em seu pensamento, adquire característica ilustrativa para representar o logos como o elemento originário, mas também simboliza o vir a ser na medida em que seu movimento dançante e pertinente faz a passagem do uno para o múltiplo e, por isso, expressão do devir.

Nietzsche em sua filosofia, sobretudo em A filosofia na época trágica dos gregos, demonstra ter se apropriado de elementos que Heráclito dispunha em seu pensamento e que adquiriu maior formulação quando na filosofia dionisíaca do filósofo do martelo. No que se refere ao vir-a-ser, Nietzsche observa a regularidade no próprio ritmo das transformações. Tudo o que entendemos por geração e mudança, em ambos os filósofos – evidentemente que em Heráclito isso se refere mais à sua visão cosmológica –, se efetiva a partir da guerra, luta, tensão entre as forças contrárias. Os opostos são os conceitos usuais que consideramos antagônicos, como quente-frio, molhado-seco, dia-noite, e todos quantos pensarmos; a passagem de um para o outro é o que se denomina vir-a-ser; este se dá pela relação conflitante entre as forças, já que para que uma prevaleça, a outra deve deixar de existir.

Dois pontos importantes em tais afirmações se constituem como paradoxo – o que não faz com que as proposições sobre o devir sejam falaciosas, senão as afirma ainda mais. O primeiro se trata da percepção do movimento; aparentemente percebemos um movimento a partir de um ponto estático – em outros termos, sabemos que algo se move porque nos referenciamos em algo que está parado –, com isso nos deparamos com a impossibilidade de identificar o movimento, já que a ele pertenço e se afirmo como Heráclito que “tudo flui”, logo, eu que pertenço a esse tudo também estou em movimento. Um segundo tópico é que uma realidade, ou um ente, não pode se tornar seu contrário se já não houver em seu interior uma mínima partícula de seu oposto; ou seja, o frio só se torna quente porque uma partícula deste permanece naquele; se ambos fossem, pura e simplesmente, quente e frio, jamais uma realidade se transformaria em outra.

A esses dois paradoxos nos é possível intuir da filosofia nietzschiana duas respostas, respectivamente. No primeiro caso, o do movimento e da possibilidade de percebê-lo estando também nele inserido, o filósofo afirma que há uma unidade-múltipla, que em outras palavras significaria dizer que a única coisa que não muda é que todas as coisas mudam, ou que o que não muda é a própria mudança mesma, as regularidades das transformações – observe-se que o próprio jogo de palavras tidas como paradoxais simbolizam, justamente, o próprio devir. No caso seguinte, sobre os elementos dos contrários e a possibilidade de transformação por uma espécie de partícula oposta, Heráclito mesmo diz: “Tudo tem, em todo tempo, o oposto de si” [1]; essa imagem se afirma como no símbolo oriental do yin e yang, onde cada uma das partes possui uma fração de sua oposta, e se entrelaçam num movimento circular – simbologia esta que alude ao logos heraclitiano, ao fogo primordial, à circularidade do jogo do Aion.

Para Nietzsche, já em direção em sua proposta de uma filosofia dionisíaca, a arte expressa na tragédia grega, configura-se num tipo de união fraternal, uma harmonia das pulsões contrárias, que manifestam o uno e o múltiplo. Em seu Livro sobre nada, Manoel de Barros reúne em título homônimo alguns versos que, separados por pontos e espaços, parecem até propositalmente expressar a passagem do vir-a-ser; destes, vale-nos tomar nota dos seguintes: “Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário. Sou muito preparado de conflitos. […] O meu amanhecer vai ser noite” [2].

Em suma, o devir simboliza simplesmente todas as transformações observáveis e as que não o são – se levarmos em conta as próprias transformações que sofremos sem perceber. Tal afirmação não deve, nem de longe, causar medo, mas antes um temor reverencial à constante mudança, à unidade-múltipla, à guerra primordial que constitui todas as coisas, à unidade dos contrários que “nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia” [3].

Autor: Leonardo Pablo Origuela Santos, estudante do segundo ano do curso de Filosofia da FASBAM e seminarista da Ordem de Santo Agostinho.

[1] LUCCHESI, B. Filosofia dionisíaca: vir-a-ser em Nietzsche e Heráclito. Cadernos Nietzsche, 1, 1996. p. 57.

[2] BARROS, M. de. Livro sobre nada. 3. ed. Editora Record: Rio de Janeiro/São Paulo, 1996. Disponível em: <https://cs.ufgd.edu.br/download/Livrosobrenada-manoel-de-barros.pdf>. Acesso em: 26 de fev. 2020.

[3] HERÁCLITO. Pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Coleção os pensadores). p. 88.

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