A oração na vida espiritual e os seus graus

A oração é uma das mais importantes expressões da vida espiritual. Em conjunto com o jejum e caridade, a oração é parte do combate espiritual. A oração consolida a pessoa no bem e a conduz à comunhão com Deus. Grande bem do homem é a oração – a profunda relação de amor com Deus[1]. “A oração, na sua essência, é a relação e a comunhão do homem com Deus, e pela sua ação, ela sustenta o mundo e o une com Deus”[2].

A oração é o colóquio com Deus que é iniciado não por nós, mas por Deus. Ele nos fala continuamente por meio de seu Filho (cf. Hb 1, 4), embora de imediato talvez não tomemos ciência disso. Quando os pais, reclinando-se sobre o berço, “conversam” com o bebê, de início este não entende o sentido das palavras. Com o tempo, o infante começa a compreender e procura imitar os sons que ele ouviu. Assim, a criança aprende a falar. Isso não aconteceria, porém, se os pais não falassem primeiro com a criança.

Assim também nós começamos a falar com Deus respondendo à sua Palavra a nós dirigida. Gradualmente, por meio da prática da oração, Deus nos ensinará que a conversação começa não com as nossas palavras, mas com a nossa audição. Além de saber ouvir, a oração nos ensina algo mais: considerar aquilo que ouvimos do interlocutor como mais importante que aquilo que falamos nós.

Graus de oração

a. A oração corporal

A oração corporal se dá pela pronúncia de palavras, com os gestos e posturas do corpo. A ela pertencem: o sinal da cruz, as inclinações, as genuflexões, a disposição das mãos e a postura ereta. Por meio desses atos, o corpo da pessoa também toma parte na oração. A postura orante da pessoa favorece a concentração do pensamento e a sua elevação a Deus. O corpo deve, de certa forma, representar a oração para a qual a alma se prepara. Por exemplo, quando damos glória a Deus, estamos de pé, e quando confessamos nossos pecados e pedimos perdão, nos pomos de joelhos[3].

b. A oração do entendimento

O grau seguinte de oração é a oração mental, que consiste na concentração da atenção sobre as palavras pronunciadas. O entendimento é a potencialidade superior da alma, pela qual esta contempla o invisível. O entendimento, motivado pela oração, encontra nas palavras da oração um sentido interior e nele concentra a sua atenção. Por meio da atividade do entendimento, isto é, pela atenção interior e pela compreensão, nós nos guardamos dos maus pensamentos e nos voltamos somente a Deus, tomando consciência de sua presença. Na oração mental, Deus nos faz conhecer nossos pensamentos, nossos desejos e nossos sentimentos. A oração mental faculta que a pessoa se despoje da dependência de lembranças e fantasias, ajuda-a a controlar os pensamentos e concentrar a atenção na própria oração.

A atividade do entendimento faz com que as palavras da oração nos falem de maneira cada vez mais profunda. Surge, então, o desejo de prestar atenção a cada palavra, pausando o tempo da oração. Se o entendimento ainda não está preparado para uma contínua atenção interior e se distrai, os Padres espirituais aconselham a retornar na oração até o ponto onde começou a distração e repetir, com maior atenção, as palavras da oração. O sentido interior dessas repetições consiste em criar condições para uma oração mais profunda, isto é, a passagem da oração corporal para a oração do entendimento.

c. A oração do coração

A oração do coração é a oração que abrange o homem inteiro, o seu “eu” interior. A oração do coração cria uma relação duradoura entre o homem e Deus; por isso ela é ininterrupta. Assim, o apóstolo Paulo conclama: “Orai, sem cessar” (1Ts 5, 17). Por essa relação com Deus, o homem se torna digno da graça de Deus, sente o amor de Deus e a alegria espiritual. Na oração do coração, a pessoa reconhece Deus como Pai, conhece a si mesma como seu filho, e a todos os homens como seus irmãos e irmãs, filhos do único e mesmo Pai.

Na oração do coração, a pessoa passa gradualmente da oração como ato separado e isolado à oração como estado interior do contínuo permanecer com Deus. A pessoa já não necessita de muitas palavras para orar. Exemplo desse tipo de oração é a “oração de Jesus”: Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador (de nós, pecadores).

Fruto da oração do coração é a cura da pessoa, a restauração de sua integridade. A oração não afasta a pessoa da vida; pelo contrário, abrange toda a sua vida, trazendo-lhe paz e equilíbrio.

d. A oração contemplativa

O grau mais alto de oração é a oração contemplativa, que não se expressa em palavras, dom do Espírito Santo. Pode receber esse dom somente aquele que purificou totalmente a sua mente e o seu coração com a ajuda de um guia espiritual. Quando a pessoa se encontra com Deus em oração nas profundezas de seu coração, ela “vê”, “face a face” (1Cor 13, 12), sem nenhuma mediação, Aquele em quem acreditou, e permanece em sua presença. O apóstolo Paulo compara esse novo estado da pessoa à “visão” de Deus. A oração contemplativa consiste em que Deus se deixa ver pelo homem, portanto ela consiste na “visão” do Invisível. Naturalmente, não se trata da visão sensível exterior com os olhos do corpo. A contemplação começa no silêncio, que a pessoa atinge pela recusa em utilizar palavras, imagens e conceitos, que são produzidos pelo pensamento.

Na oração contemplativa, o homem sente mais profundamente aquele Protótipo divino, para o qual ele foi criado. O permanecer com Deus conduz à condição em que a pessoa adquire progressivamente o modo divino de ver as coisas. A mente do homem é incapaz de contemplar a Deus, enquanto o tumulto dos pensamentos o perturba. Os santos Padres comparam o tumulto dos pensamentos às ondas do mar: enquanto o mar é agitado pelas ondas, as águas permanecem turvas; pelo contrário, quando o mar está sereno, é possível ver o fundo, na transparência límpida da água.

[1] Cf. João Crisóstomo: Comentário sobre o Livro do Gênesis, Homilia 30, 5.

[2] João Clímaco: Escada espiritual, Logos 28.

[3] V. Orígenes: Sobre a oração, XXXI, 2-4.

Fonte: Cristo nossa Páscoa: Catecismo da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Tradução: Pe. Soter Schiller, OSBM. Curitiba: Serzegraf, 2014, n. 799-809.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.