O que é a espiritualidade do coração na Igreja Oriental?

O coração – núcleo da pessoa humana

 A Sagrada Escritura fala do coração como essência íntima do homem, o verdadeiro núcleo da pessoa: “Como a água dá o reflexo do rosto, assim é o coração do homem para o homem” (Pr 27, 19). Do estado em que se encontra o coração depende o estado espiritual e moral de toda a pessoa humana. Ao coração pertencem não só os sentimentos, mas também o entendimento, a consciência e outras potencialidades espirituais do homem.

O coração é o santuário do homem, no qual ele se põe na presença de Deus. Na Sagrada Escritura lemos sobre os “pensamentos do coração”, onde o coração constitui a própria essência da pessoa e o “lugar” onde a pessoa assume responsabilidades, abre-se ou fecha-se perante a ação de Deus. O coração é também a sede da vontade. Ele toma decisões (v. 1Cor 4, 5; 2Cor 7, 9; 8, 16); dele procedem boas e más intenções (v. Mt 15, 19; Rm 10, 1; Is 57, 17); o amora Deus e ao próximo (v. Mt 22, 37; Mc 12, 30-33; Lc 10, 27).

De acordo com a Sagrada Escritura, pertencem ao coração todos os sentimentos humanos: ele se alegra (v. Jr 15, 16; Sl 27, 9); exulta (v. Lm 5, 15); se entristece (v. Sl 24, 17); sofre (v. Jr 4, 19); odeia (v. Pr 19, 3); tem inveja (v. Tg 3, 14). Somente Deus pode sondar as profundezas do coração humano: “Deus vê não como o homem vê, porque o homem toma em consideração a aparência, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16, 7), porque ele perscruta o coração, sonda a intimidade (cf. Jr 17, 10). Em Deus, o homem conhece a si mesmo e sonda as profundezas de seu coração.

Uma das expressões ativas do coração é a consciência. A palavra “consciência” provém da língua latina e quer significar “ciência, saber com”. Trata-se propriamente não de conhecimento individual ou de verdade subjetiva, mas de “conhecimento com” as Pessoas Divinas e “cooperação” com elas. A Sagrada Escritura fala da capacidade do coração humano de discernir o bem e o mal. O rei Salomão pedia a sabedoria do coração, a fim de poder discernir entre o bem e o mal (v. 1Rs 3, 9). No Evangelho, Cristo diz que o coração pode ser fonte tanto do bem moral como do mal moral (v. Lc 6, 45; Mt 12, 35).

Segundo a tradição dos santos Padres, a consciência é o fator mais importante da existência humana. Como diz o abade Doroteu:  “Quando Deus criou o homem, semeou nele algo de divino, como uma ideia que contém em si, como uma fagulha, a luz e o calor. Essa ideia que ilumina o entendimento e lhe mostra o que é bom e o que é mau, chama-se consciência, e ela é uma faculdade natural […]. Ela é algo de divino, jamais morre e sempre nos recorda o que nos é útil”[1]. São Clemente de Alexandria diz que “a consciência é um admirável sentido interior, que nos possibilita escolher retamente o bem e evitar o mal; nela se fundamenta a retidão de vida”[2]. São João Crisóstomo afirma: “Deus nos deu um juiz vigilante e insone, isto é, a consciência. Não há entre os homens nenhum juiz tão atento como a nossa consciência”[3].

A atenção interior e a vigilância do coração

No coração têm origem e nascem os pensamentos e as decisões do homem e surgem as intenções e as aspirações; o coração é a fonte da vontade e das volições. O cristão é chamado a cultivar a “seara” de seu coração, cuidar que não caia nela alguma “semente inimiga”[4].

Ter atenção com o coração significa antes de tudo afastar os maus pensamentos, manter o coração em alerta. São Macário Magno diz: “Tenhamos atenção conosco, a fim de estarmos atentos a Deus. O coração é, em si, um recipiente pequeno. Mas, ao mesmo tempo, ele é tão espaçoso que nele cabem as ‘serpentes’, os ‘leões’ e as ‘feras’ dos vícios. Lá estão estradas tortuosas e precipícios; mas lá estão também Deus e os anjos; lá estão a vida e o reino; lá estão a luz e os apóstolos; lá estão tesouros de graças, lá existe de tudo”[5].

Quando a atenção interior da mente se volta ao coração, o homem torna-se capaz de conhecer melhor a si mesmo. A mente, voltada ao coração, liberta-se dos maus pensamentos. Os Padres espirituais chamam esse estado de “quietude” (em grego hesykhia) do entendimento. A pessoa que vive essa atenção interior torna-se capaz de “ver” a si mesma na luz da graça divina e descobrir por si mesma um mundo interior, as facetas fortes e fracas do seu caráter, seus dons e talentos. Começa ele, então, a tomar consciência das suas pulsões e tendências ocultas.

[1] Abade Doroteu: Introdução e epístolas. Introdução 3: Sobre a consciência, 1-2.

[2] Clemente de Alexandria: Stromata, 1, 1.

[3] João Crisóstomo: Homilias sobre Lázaro, 4, 4.

[4] Cf. Parábola sobre a sizânia (Mt 13, 24-30).

[5] Macário Magno: Sermões espirituais, 43, 7.

Fonte: Cristo nossa Páscoa: Catecismo da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Tradução: Pe. Soter Schiller, OSBM. Curitiba: Serzegraf, 2014, n. 747-754.

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