O argumento ontológico de Santo Anselmo (1033-1109)

Fr. Bruno Coelho Gonçalves, SAC

 

Ao longo da trajetória do conhecimento humano, visto que o homem é um ser religioso em sua natureza, procurou abordar a problemática de Deus ao compasso de suas discussões, pesquisas, descobertas e experiências. Neste intento, inúmeros estudiosos se debruçaram longos anos, encarando inúmeras confrontações pessoais e coletivas para se chegar a enunciado que seria capaz de demonstrar a existência de Deus não somente pelo dado da fé, mas também pelo viés racional.

Destacam-se nesta empreitada alguns filósofos cristãos medievais, que a partir de suas obras conseguiram abordar pelo laço fideísta a noção, a cognoscibilidade e a existência de Deus, elencando seus atributos, tais como Gregório de Nazianzo (329/330-390) e Dionísio Areopagita.

Há que se destacar, nesta toada, Santo Agostinho de Hipona (354-430), que desenvolveu uma valorosa contribuição para a problemática da demonstração da existência de Deus. Agostinho nunca pusera em contestação a existência de Deus, nem teve sua fé abalada ante o estudo de discordantes filósofos, firmando sempre seu entendimento de que há um Deus, autor e consumador de tudo o que existe no mundo.

A existência de Deus é conhecida de todos os homens, com a possível exceção de alguns poucos que têm a natureza corrompida pela autossuficiência, o qual, mesmo com essa observação, a humanidade é unânime em reconhecer um Deus Criador.[1] O bispo de Hipona mostra-se consciente na demonstração da existência de Deus pelo dado da fé, amparado pela luz da razão, aludindo que: “nada há mais a discutir, no momento, a respeito desse ponto, mas somente guardemos esse ensino com fé inabalável. Deus, pois, existe! Ele é a realidade verdadeira e suma, acima de tudo.”[2] Assim, em Agostinho, não se vê uma antinomia entre fé e razão, como expresso nos seguintes dizeres: “E eu julgo que essa verdade não somente é objeto inabalável de nossa fé, mas que chagamos a ela pela razão, como sendo uma verdade certíssima, ainda que sua visão não nos seja muito profunda pelo conhecimento.”[3]

Diante de tantos estudiosos que se debruçaram por defender uma fiel explicação para a demonstração da existência de Deus, Anselmo de Aosta, motivado por encontrar uma pura explicação racional sobre a existência de Deus, mesmo já tido a experiência da tentativa de demonstrá-la por meio de sua obra Monológio, que escrevera em profunda consonância com os ensinamentos dos Padres da Igreja, tendo como base o método a posteriori, encontra no Proslógio a realização de seu intento, vindo a sua vindoura tese a ser escrita por meio do método a priori, que lhe foi tecido anos mais tarde após sua morte com o nome “argumento ontológico”.

O ponto de partida, a inspiração para Santo Anselmo desencadear o seu argumento, se dá na refutação do pensamento do insipiente que diz não existir Deus, conforme se verifica nas palavras do salmista: “Deus não existe”.[4] 

Anselmo alude que o ser, já enunciado na inteligência já se admite sua existência na realidade. Denota-se, assim, a afirmação de que o ser que não se pode conceber nada maior existe na realidade, ao passo que se o ser que não pode conceber nada maior existe no entendimento e não na realidade, se pode pensar que exista sim na realidade. Eis, pois, um exercício da inteligência. Segundo o pai da escolástica, “‘o ser do qual não é possível pensar nada maior’ não pode existir somente na inteligência. Se, pois, existisse apenas na inteligência, poder-se-ia pensar que há outro ser existente também na realidade; e que seria maior.”[5]

Continuando com a defesa exposta, Anselmo diz que se “‘o ser do qual não é possível pensar nada maior’ existisse somente na inteligência, este mesmo ser, do qual não se pode pensar nada maior, tornar-se-ia o ser do qual é possível, ao contrário, pensar algo maior: o que, certamente, é absurdo.”[6] Então, sem sombra de dúvidas, o ser do qual não se pode pensar nada maior existe na tanto na inteligência quanto na realidade.

A fé, no pensamento anselmiano, é o ponto central do argumento, dado que se parte de um fato, e que este fato tem um condão especial, que é a fé. Eis que toda a dialética abstrata que se desenvolve vai da fé a razão e retorna a seu ponto de partida, concluindo que o que é proposto pela fé é imediatamente inteligível.[7]

Portanto, refletir o argumento ontológico do Bispo de Cantuária, mais precisamente no que consta de sua obra Proslógio, inspira-nos a ter uma firme noção de que a fé é amparada pela contribuição da razão, ao passo que, para Santo Anselmo, não há uma antinomia aparente entre uma e outra, defendendo outrossim a primazia da fé, pois sem esta não se pode chegar ao conhecimento verdadeiro de Deus. Assim, ante a força que o argumento anselmiano tomou ao longo dos séculos, até chegar aos nossos dias, resta-nos a primorosa oportunidade de beber desta rica fonte, a fim de embasarmos com maior solicitude, por meio da razão, aquilo que pela fé já cremos.   

 

REFERÊNCIAS

AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio. Tradução: Nair de Assis Oliveira. vol. 8. 1. ed. São Paulo: Paulus, 1995.

ANSELMO, Santo. Proslógio. In: OS PENSADORES. v. VII. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

BOEHNER, Philotheus. GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. 1ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1970.

GILSON, Etienne. A filosofia na Idade Média. Tradução: Eduardo Brandão. 1.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

SALMOS. In: BÍBLIA do Peregrino. 2 ed. São Paulo: Paulus, 2006. Salmo 14 (13).

 

[1] Cf. BOEHNER, Philotheus. GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. 1ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1970, p. 152.

[2] Cf. AGOSTINHO, de Hipona, Santo. O livre arbítrio. vol. 8. 1. ed. São Paulo: Paulus, 1995, II, 15, 39.

[3] Cf. AGOSTINHO, de Hipona, Santo. O livre arbítrio. vol. 8. 1. ed. São Paulo: Paulus, 1995, II, 15, 39.

[4] SALMOS. In: BÍBLIA do Peregrino. 2 ed. São Paulo: Paulus, 2006. Salmo 14 (13), p.1164.

[5] Cf. ANSELMO, Santo. Proslógio. In: OS PENSADORES. v. VII. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 108.

[6] Cf. Idem.

[7] Cf. GILSON, Etienne. A filosofia na Idade Média. Tradução: Eduardo Brandão. 1.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 297.

 

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