A Solenidade de São Nicolau| Série: Conheça o seu Rito

“Nós vos louvamos, bispo de Cristo, Nicolau, e nós veneramos vossa memória, pois vós rogais por nós a Cristo nosso Deus”

(Hino de Louvor da Solenidade).

Entre as várias solenidades dos santos cuja memória nós comemoramos durante o Ano Litúrgico, são Nicolau merece consideração especial. Desde os tempos antigos nosso santo Padre, são Nicolau, desfrutava de grande veneração e respeito universal entre o nosso povo. Nem uma única casa em terras ucranianas havia sem um ícone de são Nicolau, e seu ícone é quase sempre visto entre os ícones da iconóstase de nossas igrejas. Nosso povo o venera como se ele fosse um santo nativo.

Embora mais de mil e quinhentos anos tenham passado desde a sua morte, por causa de suas obras de caridade e generosidade misericordiosa, ele continua a viver nos corações de milhões de pessoas. A cada ano, em sua solenidade, o seu amor ao próximo continua a viver simbolicamente por todo o mundo, pelo fato de milhares e milhares de crianças receberem presentes pelo seu nome. O segredo deste grande e contínuo culto entre todas as nações cristãs repousa sobre o fato de que ele se tornou um símbolo de amor sacrifical e misericórdia compassiva. Isto é atestado pela história do seu culto, os serviços de nossa Igreja e a fervorosa veneração de seus ícones.

  1. O Culto à sua Pessoa

Nós não conhecemos muito sobre a vida de são Nicolau, e o que nós sabemos é um pouco embelezada com várias lendas. Nós sabemos com certeza que são Nicolau foi um bispo por muitos anos em Mira, uma cidade na província da Lícia, na Ásia Menor; que ele fez parte do I Concílio Ecumênico em 325 em Niceia; e que ele morreu por volta do ano 345. Toda a sua vida foi dedicada para obras de misericórdia, tanto corporal como espiritual. Mesmo durante sua vida ele era chamado de pai dos órfãos, das viúvas, e dos pobres. Após a sua morte, o Senhor o glorificou com o dom de operar milagres, pelo qual ele recebeu o título de “Grande Operador de Milagres”. Os seus célebres milagres foram a principal razão para a rápida disseminação de seu culto.

O culto a são Nicolau começou a crescer quando o imperador Justiniano I (527-565) construiu uma igreja em sua honra em Constantinopla. No Canonário de Jerusalém do século VII, sob o dia 6 de dezembro, está especificado: “comemoração de Nicolau, bispo de uma grande cidade”. Todos os menológios gregos do século IX têm sua festa. O imperador Manuel Comnen (1143-1181) prescreveu por uma legislação civil que a solenidade de são Nicolau seria celebrada no dia 6 de dezembro. A partir de Bizâncio seu culto se espalhou por todo o mundo. A mais antiga biografia de são Nicolau vem do século IX.

No Ocidente, o papa Nicolau (858-867) – o primeiro papa a utilizar este nome – erigiu uma igreja em Roma em honra de são Nicolau por volta do ano 860. O seu culto foi introduzido na Germânia pela princesa Teofânia, esposa do imperador Otão II (973-983). A Igreja Latina também celebra a solenidade de são Nicolau no dia 6 de dezembro. Na França e na Alemanha mais de duas mil igrejas são dedicadas ao seu nome; além de quatrocentas igrejas são encontradas na Inglaterra.

O culto a são Nicolau foi às terras ucranianas juntamente com a fé cristã. Na segunda metade do século XI, uma igreja foi construída em Kyiv em honra de são Nicolau, sobre a caverna de Askold. Em Kyiv há um mosteiro feminino com são Nicolau como patrono fundado pela esposa do príncipe Iziaslav I (m. 1078). A mãe de são Teodósio Pechersky recebeu a tonsura monástica neste mosteiro. Em terras ucranianas, existem inúmeras igrejas em honra a são Nicolau. A igreja de são Nicolau em Lviv, que é datada do século XIII, é uma das mais antigas. A Enciclopédia Ucraniana diz o seguinte sobre a veneração de são Nicolau entre o nosso povo: “com um grande número de tradições orais, Nicolau protege as pessoas dos desastres causados pela natureza; principalmente aqueles que navegam no mar. Consequentemente, os pescadores do Mar Negro, quando saem para pescar, levam o ícone de são Nicolau juntamente com eles. Em tempos antigos, são Nicolau era também um protetor dos perigos das estepes. Canções sobre são Nicolau estão entre os exemplos mais antigos de poesia ucraniana e incluem aquela popular: Ó quem, quem, ama são Nicolau?…”[1].

  1. O Culto às Relíquias de São Nicolau

Um fator muito importante que contribuiu para espalhar o culto a são Nicolau, especialmente na Itália e no Ocidente, assim como entre o nosso povo, foi o translado das relíquias de são Nicolau, de Mira na Lícia, Ásia Menor, para a cidade de Bari no Sul da Itália ao final do século XI.

Na segunda metade do século XI, os maometanos ocuparam a Ásia Menor e a vida de onde as relíquias de são Nicolau estavam preservadas. Os mercadores italianos de Bari consideravam são Nicolau como um grande santo e protetor dos homens do mar. Enquanto negociavam com a Ásia Menor, eles decidiram que roubariam as relíquias de são Nicolau e as levariam para a Itália. As relíquias roubadas do santo chegaram em Bari no dia 9 de maio de 1087. Como um resultado, grandes milagres começaram a se realizar imediatamente. Por esta razão, em 1089 o papa Urbano II instituiu a solenidade do translado das relíquias de são Nicolau e ordenou que fosse celebrada no dia 9 de maio. Três anos depois, uma magnificente igreja foi construída lá e as suas relíquias foram depositadas nela. A cidade de Bari se tornou um lugar grande e famoso para peregrinações.

Não muito tempo após as relíquias terem sido transferidas para Bari, a solenidade do translado das relíquias de são Nicolau foi também estabelecido no dia 9 de maio na Rus’-Ucrânia. Consequentemente, o nosso povo fala do frio e quente Nicolau. A instituição desta solenidade é atribuída ao metropolita de Pereyaslav, Efrém. A ele também é atribuído a descrição do evento do translado das relíquias e a composição do serviço do translado e um acátisto em honra de são Nicolau. A respeito da instituição da solenidade na Ucrânia, nosso historiador M. Chubatyy escreve: “é muito estranho que esta solenidade, instituída pelo papa, fosse uma festa de alegria no Ocidente, mas de tristeza no Oriente, especialmente na Igreja Bizantina, pois por volta dos anos 1090-1091 ela foi introduzida na província metropolitana de Kyiv. Esta festa não existe em qualquer outra parte da Igreja Oriental, apenas no território da antiga Metropolia de Kyiv – e hoje, ela existe não apenas na Ucrânia, mas também em Moscou e Bielorrússia”[2].

  1. O Culto aos Ícones de São Nicolau

Proximamente conectada com o culto a são Nicolau na Rus’-Ucrânia, é a veneração de seus ícones. Em número, eles ocupam o primeiro lugar após os ícones da Mãe de Deus entre o nosso povo. Alguns destes ícones são famosos por seus milagres. Aqui, nós gostaríamos de mencionar um pouco dos ícones milagrosos de são Nicolau desde o tempo dos Príncipes de Kyiv.

Na Catedral de Santa Sofia em Kyiv, existe um ícone de são Nicolau chamado “O Molhado”. Este ícone se tornou famoso por volta de 1090-1100 por causa de um milagre especial. Um homem com a sua esposa e o pequeno filho estavam retornando de um dia de celebração festiva em Vyshorod, e estavam em seu caminho para Kyiv viajando ao longo do Rio Dnipró por barco. De repente, ocorreu uma tempestade e o menino caiu do barco no Dnipró. Muitos dias depois, eles o encontraram vivo e saudável, porém apenas molhado, aos pés do dito ícone de são Nicolau. O ícone recebeu seu nome deste incidente.

Na catedral de são Nicolau, em Novhorod, há uma cópia do ícone acima mencionado. A tradição diz que ele foi encontrado no Lago Ilmen na época do príncipe Mistislav I de Novhorod enviou emissário a Kyiv para levar novamente o ícone de são Nicolau, o Molhado, por causa de uma visão que ele teve em um sonho. Ele queria ter uma cópia deste ícone feita para a catedral que ele construiu em honra a são Nicolau, em 1113. A Crônica Ipatiana (c. 1227) fala de um ícone milagroso de são Nicolau na cidade Zhydychyn, em Volyn, diante do qual nossos príncipes vinham rezar.

Em um tempo a Igreja Católica Romena decretou que em cada igreja deveria ter um ícone de são Nicolau.

O Culto a São Nicolau nos Serviços da Nossa Igreja

Na nossa Igreja, são Nicolau não apenas tem duas solenidades separadas em sua honra, mas cada quinta-feira é também dedicada ao seu nome. Assim como os serviços das duas solenidades, o serviço semanal é uma fiel reflexão do culto a são Nicolau na Igreja Oriental e entre o nosso povo. Neste serviço semanal, a profunda fé, virtudes eminentes, numerosas obras de misericórdia, vários milagres, e efetiva intercessão de são Nicolau diante de Deus são exaltadas. Aqui ele é exaltado como “luzeiro do universo”, “amante compassivo da bondade”, “um zeloso libertador e autêntico protetor”, “o ornamento da Igreja”, “bondade dos bispos”, “louvor dos monges”, “um grande defensor”, “muito misericordioso”, “protetor, defensor e consolador de todos os aflitos”, “o guardião dos órfãos e das viúvas”.

Ele assiste em cada necessidade. Nas estrofes de Louvor nas Matinas do dia 6 de dezembro nós cantamos: “Tendo nos reunido, exaltamos: do doente – o médico; daquele em perigo – o socorrista; dos pecadores – o defensor; do pobre – o tesouro; do sofredor – consolador; dos viajantes – o amigo da viagem; daqueles que navegam – o timoneiro; aquele que em todo lugar calorosamente responde a todos…”. Na quinta ode do cânon no serviço das Matinas do Translado das Relíquias de são Nicolau, nós lemos: “esperança de todos os cristãos, grande defensor dos injustiçados, médicos dos doentes, conforto dos angustiados, intercessor de todos diante de Deus, obtenha paz para nós e nos salve da incursão dos inimigos”.

A intercessão de são Nicolau é poderosa diante de Deus. No serviço das Vésperas da solenidade do translado das relíquias, nós cantamos: “unidos, amantes das solenidades, vamos alegremente celebrar com cantos o santo translado de nosso protetor, pois ele ilumina todas as nações com milagres, sofredores consoles devotos, venham para o libertador dos injustiçados, por sua esmola ele faz Deus devedor e, então, ele recene um cêntuplo como recompensa. Nós todos suplicamos a ele: rogai, hierarca Nicolau ao Salvador de todos, que Ele garanta paz para o mundo e salve nossas almas”. Na oitava ode do cânon das Matinas da solenidade do translado das relíquias, nós lemos: “a vós Deus tem dado grande autoridade e poder, Nicolau, o mar se submete a vós, o ar vos obedece, as nações se sujeitam a vós, vendo os vossos maiores e gloriosos milagres”.

Nosso santo Padre Nicolau nos dá um belo exemplo de um vivo, ativo, e sacrificial amor a Deus e ao próximo. Seu amor ao próximo é universal, todo abrangente, cheio de misericórdia e pronto para assistir em cada necessidade da alma e do corpo.

Sobre a importância da esmola, são João Crisóstomo escreveu: “a esmola é a rainha das virtudes. Ela eleva o homem muito rapidamente às mansões celestes. É a mais efetiva defensora. Grande é a esmola… Ela perfura o ar, sobre além da além, surge sobre os raios do sol e alcança os céus. E até mesmo lá não para, mas ao contrário, ela penetra os céus, círculos ao redor da assembleia dos anjos e todos os poderes celestes e para diante do trono o Rei… Dai o pão e recebereis o paraíso, trocai o pequeno pelo grande, o mortal pelo imortal, a corrupção pela incorrupção”[3].

São Nicolau via Jesus Cristo no seu próximo e este é o motivo que ele rapidamente e generosamente se apressava para ajuda-lo em cada necessidade. O Santo Evangelho diz que no Juízo Final, o Senhor nos julgará por nossas obras de amor e misericórdia. Cristo nos assegura disso quando Ele diz: “em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes”[4].

[1] Enciclopédia Ucraniana. v. 4, p. 1533.

[2] CHUBATYY, M. História do Cristianismo na Rus’-Ucrânia. v. I, p. 416.

[3] SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Sermão sobre o Arrependimento.

[4] Mt 25,40.

Fonte: KATRIY, Yulian Yakiv. Conheça o seu rito: o ano litúrgico da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Roma: PP. Basiliani, 1982.

Pe. Yulian Yakiv Katriy, OSBM
(1912 - 2000) Doutor em Filosofia e autor de diversos livros.

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