A Oração Litúrgica Oriental: O Ciclo Anual

As celebrações do ano litúrgico estão construídas sobre dois ciclos, o imóvel e o móvel. O primeiro deles é vinculado a datas fixas do ano; o segundo com a data móvel da Páscoa. O ano litúrgico está vinculado ao ano astronômico de tal forma que, recordando, atualizando e revivendo nas celebrações os principais eventos da história da salvação, pretende fazer compreender o ano como contínua demonstração da benevolência de Deus[1].

O ano litúrgico tem início no dia 1º de setembro, segundo o calendário gregoriano, e no dia 14 de setembro, segundo o calendário juliano. Os dois tipos de calendários litúrgicos (gregoriano e juliano) surgiram porque, a cada 128 anos, o calendário que era seguido no Ocidente somava um dia inteiro em relação ao ano astronômico. Com a finalidade de restaurar a paridade na contagem dos anos, o Papa Gregório XIII fez, no ano de 1582, uma reforma no calendário, excluindo dessa contagem dez dias. Assim, pois, surgiram os dois calendários, o “antigo” ou juliano, e o “novo”, gregoriano. Mesmo assim, desde a reforma gregoriana a diferença entre os dois calendários cresceu para 13 dias e continuará crescendo à medida que os anos passam. Consequência dos diversos modos de contagem do tempo é a diferença de data na celebração da Páscoa e, em decorrência, das festas do ciclo móvel: às vezes a Páscoa pode cair num mesmo dia nos dois calendários, outras vezes a diferença de data pode chegar até cinco semanas.

O ciclo móvel (o Triódio Quaresmal e o Triódio Pascal)

O centro do ciclo móvel das celebrações do ano litúrgico é a solenidade da Páscoa. A data da Páscoa corresponde ao primeiro domingo após a lua cheia depois do equinócio da primavera[2]. Isso significa que todos os anos a festa da Páscoa “move-se”, caindo em vários dias possíveis: segundo o calendário gregoriano, do dia 22 de março até 25 de abril; segundo o calendário juliano, do dia 4 de abril até 10 de maio. Em correspondência com a mobilidade da data da Páscoa, todos os anos mudam as datas do início da Grande Quaresma e também do Domingo de Ramos, da Ascensão do Senhor e do Pentecostes. Durante todo esse período, a Igreja faz as suas celebrações usando os livros litúrgicos do “Triódio Quaresmal” e “Triódio Pascal”. O Triódio Quaresmal contém as celebrações dos quatro domingos que antecedem a Grande Quaresma e da própria Grande Quaresma. O Triódio Pascal inclui as celebrações desde o Sábado de Lázaro até o Domingo de Todos os Santos.

As celebrações dos Triódios conduzem liturgicamente o cristão pelo itinerário da consciência de sua pecaminosidade até à sua transfiguração espiritual. Antecedem a Grande Quaresma quatro domingos preparatórios: Domingo do Publicano e do Fariseu; Domingo do Filho Pródigo; Domingo da “Liberação da carne”; e Domingo da “Liberação dos laticínios”. Preparando os fiéis para a Quaresma, no Domingo do Publicano e do Fariseu a Igreja exorta os fiéis a imitar a humildade do publicano e a afastar-se do orgulho do fariseu. No Domingo do Filho Pródigo, a Igreja enfatiza a necessidade da penitência como retorno da “terra estrangeira” do pecado para a casa do Pai. No Domingo da Liberação da carne, quando é lido o Evangelho sobre o juízo divino (cf. Mt 25, 31-46), a Igreja põe em destaque o objetivo da Quaresma: conhecer os próprios pecados, confessá-los, e praticar obras de misericórdia. No Domingo da Liberação dos laticínios ou Domingo do perdão, a Igreja nos exorta a dar o primeiro passo na penitência: o perdão mútuo. Durante a Quaresma, os fiéis praticam a abstinência de alimentos; no entanto a abstinência não é um fim em si mesmo, e sim um meio para a purificação das paixões. “Se nos abstemos de alimentos, mas não nos purificamos das paixões, jejuamos em vão, porque isso não serve como penitência e, pela falta de sinceridade, a alma se assemelha aos demônios que jamais comem”[3].

O verdadeiro jejum consiste em “evitar todo o mal, o controle da língua, afastar o ódio, a concupiscência, a maledicência, a injustiça e o falso juramento”[4]. O sentido da quaresma para o cristão vem bem expresso na estrofe das Vésperas do Domingo da “Liberação dos laticínios”: “Comecemos com alegria o tempo da quaresma! Empenhando-nos no combate espiritual, purifiquemos a nossa alma, lavemos o corpo, pratiquemos abstinência na comida, dominemos as paixões e deleitemo-nos nas virtudes espirituais. Crescendo nas virtudes com amor, seremos dignos de acompanhar a bem-aventurada Paixão do Cristo-Deus e viver, na alegria de espírito, a santa Páscoa”[5]. As celebrações do tempo quaresmal destacam progressivamente a essência do verdadeiro jejum: tendo semeado “a semente da penitência” no nosso coração (I Domingo da Quaresma), produziremos “espigas maduras de virtudes” (II Domingo da Quaresma), para que, comendo do fruto da Árvore da vida “que nos faz entrar novamente no paraíso” (Domingo da Santa Cruz), subir pela “escada espiritual” (IV Domingo, de São João Clímaco) e chegar às alturas da pureza espiritual e da penitência (V Domingo, de Santa Maria Egípcia).

São João Crisóstomo, falando sobre o jejum, coloca ênfase nos frutos do jejum na vida moral e espiritual: “Que proveito temos da quaresma se passamos esse tempo sem boas obras? Se alguém te diz: «Eu jejuei todos os quarenta dias», dize-lhe: «Eu tinha um inimigo e me reconciliei com ele; tinha o hábito de maledicência e me corrigi; tive o costume de blasfemar e deixei esse mau costume»”[6]. Se vivermos de maneira séria a quaresma, como afirma Crisóstomo, “numa semana deixamos de blasfemar; na semana seguinte venceremos o ódio; e em mais outra removeremos pela raiz a maledicência; nas semanas posteriores, subindo cada vez mais alto por esse caminho, atingiremos o ápice da virtude”[7].

Após completarmos os “salutares quarenta dias da Quaresma”, a Igreja, nas celebrações do Triódio Pascal, a começar pelo Sábado de Lázaro, pede ao Senhor que permita aos fiéis “acompanhar a santa Semana da Paixão, para glorificar nela as grandes obras do Senhor”[8]: a ressurreição, a ascensão, o envio do Espírito Santo e a gloriosa segunda vinda. Nos dias da Semana da Paixão celebramos liturgicamente e revivemos os últimos dias da vida terrena de Jesus, sua Paixão, morte e sepultamento; e esperamos a sua ressurreição, quando o Senhor, “como o grão de trigo, caindo por terra, produziu uma espiga vicejante. Ele soergueu todos os homens que existiram desde Adão”[9].

Nas celebrações dos domingos, desde a Páscoa até o Pentecostes, é destacado o progresso do cristão em sua divinização.Inicia-se com o encontro com o Cristo ressuscitado: Domingo de Páscoa, Domingo de São Tomé e Domingo das Mirróforas; em consequência disso o próprio homem se transforma: Domingo do Paralítico, Domingo da Samaritana e Domingo do Cego de Nascença. A festa do Intermédio da Quinquagésima, por meio da imagem da “água viva”, assinala a promessa do Espírito Santo, por cuja graça o homem recebe a divinização.

Quarenta dias após a Páscoa, a Igreja celebra a Ascensão de Cristo. Cristo não abandona a sua Igreja; pelo contrário, aqueles que estão em Cristo, já subiram com ele “ao céu”[10]; por isso os santos Padres do I Concílio de Niceia (lembrados no Domingo dos santos Padres) já contemplam a Santíssima Trindade e em comunhão nos transmitem a experiência de Deus no Símbolo da Fé. Imitando os santos Padres, no dia do Pentecostes toda a comunidade litúrgica se eleva à contemplação da Santíssima Trindade: “Hoje as nações tornaram-se sábias pela glória da visão de Deus”[11]. O Triódio Pascal completa-se nesse ápice do conhecimento divino, celebrando a memória de todos os santos no primeiro Domingo após o Pentecostes.

O ciclo imóvel de celebrações (“Meneia”)

 Outras festas religiosas – do Senhor, da Mãe de Deus e dos santos – sempre recaem em data fixa; por isso recebem o nome de “festas imóveis”. Entre as festas do Senhor, as principais são o Natal de Cristo (25 de dezembro/7 de janeiro) e a Epifania(6/19 de janeiro). Seu significado está na manifestação do Cristo-Luz, que vence as trevas do pecado. No dia seguinte, após essas duas festas, a Igreja celebra a memória das pessoas que tiveram parte nos eventos salvíficos do Natal e do Batismo no Jordão: a Sinaxe da Santíssima Mãe de Deus e a Sinaxe de João Batista[12]. Vinculada à Natividade de Cristo é também a festa da Anunciação da Santíssima Mãe de Deus (25 de março/7 de abril), isto é, ela recai nove meses antes do Natal.

Outra festa vinculada ao Natal de Cristo é a Natividade de João Batista. Como ele nasceu meio ano antes de Jesus (cf. Lc 1, 26), sua natividade é celebrada no dia 24 de junho/7 de julho), e sua concepção, relativamente, no dia 23 de setembro/6 de outubro. Ao ciclo natalino pertence também a Circuncisão do Senhor (1/14 de janeiro), que é celebrada no oitavo dia após o Natal, e a festa do Encontro do Senhor ou Apresentação no Templo ( 2/15 de fevereiro), quando, quarenta dias após o nascimento, Jesus, sendo filho primogênito, é levado ao templo de Jerusalém e uma oferta de sacrifício foi feita por ele. Nesta festa, a Igreja celebra o encontro do Antigo e do Novo Testamento nas pessoas do ancião Simeão e da profetiza Ana e a Mãe de Deus com o menino Jesus nos braços. Na festa da Transfiguração do Senhor no monte Tabor (6/19 de agosto), a Igreja celebra a manifestação da plenitude da luz divina, que teve início na Epifania. Como na encarnação, “nosso Salvador resplandeceu para o mundo, como Luz da luz, o Deus que se revelou”[13] assim na Transfiguração “toda a natureza humana resplandece divinamente”[14] e a Luz de Cristo consuma a transfiguração de toda a criatura. Na festa da Exaltação da Santa e Vivificante Cruz do Senhor (14/27 de setembro), a Igreja celebra “o madeiro da verdadeira vida que foi plantado no lugar da Caveira (Gólgota)”. Nela, “o Rei eterno realizou a salvação na terra; hoje, com a sua exaltação, são santificados todos os confins do mundo”[15].

A Igreja venera com especial amor a Bem-Aventurada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, que é indissoluvelmente ligada à obra salvífica de seu Filho. Ao longo do ciclo anual, afora as solenidades marianas já mencionadas, Encontro e Anunciação, celebramos sua Natividade (8/21 de setembro), Apresentação no Templo (21 de novembro/4 de dezembro) e Dormição (15/28 de agosto). Na Natividade da Mãe de Deus teve início a nossa salvação[16]; na Apresentação no Templo, a pregação da salvação[17]; e na Assunção, o sinal de sua consumação[18]. Com a festa da Natividade da Mãe de Deus está correlacionada a festa da Concepção de Santa Ana, quando ela concebeu a Santíssima Mãe de Deus, ou Imaculada Conceição da Santíssima Mãe de Deus (9/22 de dezembro), nove meses antes de sua Natividade. Porque na Dormição a Mãe de Deus “não deixou o mundo”[19], sua presença na Igreja e sua perpétua intercessão pela humanidade perante seu Filho se expressam na festa do Patrocínio da Mãe de Deus (1/14 de outubro). Na Assunção, o corpo da Mãe de Deus foi levado ao céu, mas aqui ficaram suas relíquias – a veste e a faixa, como “poderosa proteção”[20] para seus filhos fiéis. Essas relíquias são veneradas na festa da Deposição da Veste da Santíssima Soberana nossa, Mãe de Deus, na igreja de Blaquerne (2/15 de julho) e na festa da Deposição da Faixa da Santíssima Soberana nossa, Mãe de Deus (31 de agosto/13 de setembro).

A Igreja celebra o mistério pascal também nas festas dos santos, os quais sofreram no Senhor e foram por ele glorificados. Ela oferece o exemplo de suas vidas para ser imitado pelos fiéis, a fim de conduzir todos, por meio de Cristo, no Espírito Santo, ao Pai[21]. A memória litúrgica dos santos é feita nas celebrações e na veneração de seus ícones e relíquias. O dia da veneração dos santos é normalmente a data de sua morte, do seu “nascimento para o céu”, e também o dia do reencontro ou translado de suas relíquias. Cada um dos dias do calendário litúrgico é dedicado a um dos santos mais conhecidos. Os ofícios litúrgicos dos santos são reunidos, mês a mês, em doze livros chamados “Meneia” (do grego “Menaion” = “mensal”).

Geralmente, os pais cristãos dão no Batismo aos seus filhos um nome de um santo. Com a imposição do nome se estabelece um vínculo espiritual entre o santo e a pessoa que recebe o seu nome. Segundo um antigo costume religioso, as crianças recebem o nome daquele santo, em cuja data em que ele é venerado, elas nasceram.

[1] Cf. Anáfora da Liturgia de São Basílio Magno.

[2] NT: Primavera no hemisfério norte.

[3] Triódio da Grande Quaresma. Semana da “Liberação dos laticínios”, quarta-feira, matinas, estrofes posteriores.

[4] Triódio da Grande Quaresma. Primeira semana da Quaresma, terça-feira, vésperas.

[5] Triódio da Grande Quaresma. Segunda-feira, vésperas, estrofe no “A vós eu elevo”.

[6] João Crisóstomo: Homilias sobre estátuas, 16, 6.

[7] João Crisóstomo: Homilias sobre estátuas, 4, 6.

[8] Cf. Triódio Pascal. Sábado de Lázaro, vésperas, estrofe no “A vós eu elevo”.

[9] Cf. Triódio Pascal. Sábado Santo, “Matinas de Jerusalém”, estação 1, estrofe 29.

[10] Divina Liturgia de São João Crisóstomo, Anáfora.

[11] Triódio Pascal. Segunda-Feira do Espírito Santo, Matinas, estrofes nos salmos de louvor.

[12] “Sinaxe” (em grego “synaxis” = assembleia, agrupamento; em ucraniano “sobor”, significa na linguagem litúrgica bizantina a “reunião” de todas as festas de um determinado santo numa festa só.

[13] Meneia. Santa Epifania de Nosso Senhor, Jesus Cristo (6/19 de janeiro), Matinas, estrofes nos salmos de louvor.

[14] Meneia. Antefesta da Transfiguração de Nosso Senhor, Jesus Cristo (6/18 de agosto), contáquio.

[15] Meneia. Exaltação da Santa e Vivificante Cruz do Senhor (14/27 de setembro), Vésperas, estrofes na vigília.

[16] Meneia. Natividade da Santíssima Soberana Nossa, Mãe de Deus e sempre Virgem Maria (8/21 de setembro). Vésperas, estrofe na vigília.

[17] Meneia. Apresentação no Templo da Santíssima Soberana Nossa, Mãe de Deus e sempre Virgem Maria (21 de novembro/4 de dezembro), tropário.

[18] Meneia. Dormição da Santíssima Soberana Nossa, Mãe de Deus e sempre Virgem Maria (15/28 de agosto). Vésperas, estrofe na vigília.

[19] Dormição da Santíssima Soberana Nossa, Mãe de Deus e sempre Virgem Maria (15/28 de agosto), tropário.

[20] Meneia. Deposição da Veste da Santíssima Soberana Nossa, Mãe de Deus, na igreja da Blaquerne (2/15 de julho), tropário.

[21] Cf. Concílio Vaticano II. Constituição sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium (“Sacro Concílio), 104.

Fonte: Cristo nossa Páscoa: Catecismo da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Tradução: Pe. Soter Schiller, OSBM. Curitiba: Serzegraf, 2014, n. 565-578.

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