A Solenidade Coletiva de São Miguel Arcanjo| Série: Conheça o seu Rito

“Todos os poderes celestes dos santos anjos e arcanjos, rogai a Deus por nós, pecadores”

(Grande Noturno).

Nosso Ano Litúrgico é como um belo mosaico feito de solenidades de nosso Senhor, da Mãe de Deus, e de uma imensa multidão de mártires e santos. O centro deste esplêndido mosaico é o nosso Senhor, Jesus Cristo, como Deus e como Homem. Dia e noite, a Sua Igreja Peregrina na terra e nos Céus, a Igreja na glória, isto é – o grande coro de anjos e santos – cantam a Ele louvores eternos. Os santos Anjos são o coro eterno da glória de Deus; eles são os mensageiros e servos de Deus. Os Anjos também cumprem um grande papel na redenção do gênero humano.

A santa Igreja, consciente da grande importância dos Anjos para a glória de Deus e nossa salvação, dá um lugar especial para a veneração dos Anjos no mosaico do Ano Litúrgico. Aqui, o primeiro lugar é dado a solenidade Coletiva de São Miguel Arcanjo e Todos os Poderes Celestes. Para incentivar grande devoção aos Anjos, parece ser apropriado dizer em poucas palavras sobre seu culto, o objetivo desta solenidade, e a sua importância espiritual para nós.

A Veneração dos Santos Anjos

Antes do Senhor Deus criar o homem, Ele criou os santos anjos que são invisíveis, imortais, seres perfeitos e espíritos puros, que possuem intelecto aguçado e livre-arbítrio. O número deles é imensuravelmente grande, assim como nós sabemos da visão concedida ao profeta Daniel que viu o trono de Deus onde “mil milhares o serviam, e miríades de miríades o assistiam”[1]. No Livro do Apocalipse, são João, o Teólogo, diz: “em minha visão ouvi ainda o clamor de uma multidão de anjos que circundavam o trono, os Seres vivos e os Anciãos – seu número era de milhões de milhões e milhares de milhares…”[2]. O próprio Cristo fala, no Evangelho, das legiões de Anjos[3].

Desde o tempo de Dionísio Areopagita (séc. V), é comum dividir os anjos em três ordens, cada uma composta por três coros, dando um total de nove coros angélicos: os Serafins, Querubins e Tronos; as Dominações, Virtudes e Potestades; e os Principados, Arcanjos e Anjos.

O Senhor Deus, após ter criado os Anjos, colocou-os em um teste e um grande número de Anjos se rebelou contra Ele. São João, o Teólogo, fala de uma guerra nos céus[4]. Como líder dos anjos bons, está o Arcanjo Miguel que derrotou Lúcifer e seus anjos. Consequentemente, na veneração aos anjos, a santa Igreja concede o primeiro lugar a são Miguel.

Os santos anjos têm uma tarefa dupla: uma em relação a Deus e outra em relação aos homens. A principal tarefa dos Anjos nos céus é, continuamente, louvar e glorificar a Deus. O profeta Isaías teve uma visão com os Serafins exaltando: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos, a sua glória enche toda a terra”[5]. Nossa Divina Liturgia fala desta nobre tarefa dos Anjos em diversos lugares: “Senhor, nosso Deus”, diz a Oração da Pequena Entrada, “Vós que instituístes nos céus os coros e legiões de anjos e arcanjos para o serviço da vossa glória…”. Na Oração do Triságio que é recitada durante o tropário, o sacerdote reza: “Deus santo, que habitais no Santo dos Santos, a Vós os serafins aclamam três vezes Santo, os querubins proclamam a vossa glória e todos os poderes celestes vos rendem adoração…”. A segunda tarefa dos Anjos em relação a Deus é o seu zeloso e imediato serviço a Ele. A palavra “anjo” é uma palavra grega para significar mensageiro ou arauto, isto é, aquele que anuncia. Portanto, os Anjos são mensageiros, anunciadores ou arautos de Deus. Muitos exemplos são dados no Antigo e no Novo Testamento sobre o papel deles como mensageiros de Deus.

Referente aos homens, de acordo com a vontade de Deus, os Anjos são os nossos guardiões e protetores. No Salmo 90 está escrito: “pois em teu favor Ele ordenou aos seus anjos que te guardem em teus caminhos todos”[6]. Os anjos, cuja tarefa é proteger os homens, nós chamamos de Anjos da Guarda. Os Padres da Igreja ensinam que cada pessoa tem o seu próprio Anjo da Guarda. São Basílio Magno diz: “ninguém negue cada um dos fiéis tem seu próprio Anjo”[7]. São João Crisóstomo, similarmente, afirma: “todos e cada um de nós tem um Anjo”[8]. Na Ectenia de Petição da Divina Liturgia, nós suplicamos a Deus por um Anjo da Guarda: “Que o anjo de paz nos acompanhe e seja o guia e guarda fiel do nosso corpo e nossa alma, peçamos ao Senhor”. Usando a Sagrada Escritura como seu fundamento, os santos Padres ensinam que não apenas cada pessoa, mas também cada comunidade, Igreja e nação têm seu próprio Anjo da Guarda.

Do que nós dissemos acima, é claro o motivo da santa Igreja cultivar e recomentar o culto aos Anjos, e o porquê de eles ocuparem um lugar especial em nosso Ano Eclesiástico e em nossos Serviços Divinos. A veneração dos Anjos na Igreja Oriental teve o seu início no século III; no século IV ela já tinha se espalhado. Prova disso é a igreja em honra de são Miguel Arcanjo que Constantino, o Grande, construiu nos subúrbios de Constantinopla (274-337). De acordo com o testemunho do historiador Sozomeno, numerosas curas milagrosas foram realizadas nesta igreja. Durante a Divina Liturgia, nossa Igreja prescrever que uma partícula especial da prósfora seja colocada no disco em honra dos “poderes celestes e incorpóreos”. Em nosso Octóico há um serviço dedicado aos anjos reservado para a segunda-feira, o primeiro dia da semana, talvez porque eles foram as primeiras criaturas a serem criadas por Deus e nos céus, próxima a Bem-Aventurada Mãe, eles estão mais próximos do trono de Deus.

A solenidade em honra de são Miguel Arcanjo e todos os outros poderes celestes foi estabelecida no século IV. Esta solenidade é chamada coletiva porque neste dia a Igreja celebra a assembleia de todos os poderes incorpóreos juntamente com são Miguel Arcanjo, líder dos exércitos celestes. A assembleia dos fiéis na terra se reúne também para prestar homenagem aos poderes celestes.

Nós celebramos a solenidade coletiva de são Miguel Arcanjo em novembro, pois formalmente quando o ano se iniciava com o mês de março, este mês era o nono mês no ano e, consequentemente, havia uma relação simbólica com os nove coros dos anjos.

Desde o século IV a Igreja Oriental também celebra a memória de são Miguel Arcanjo no dia 6 de setembro, recordando a milagrosa proteção da igreja a ele dedicada, da destruição em Colossas, na Frígia. Ao lado da solenidade Coletiva de São Miguel Arcanjo, nós temos mais dois dias especiais no ano dedicados ao Arcanjo Gabriel. Ele anunciou a encarnação do Filho de Deus para Bem-Aventurada Virgem Maria, consequentemente, no dia posterior a solenidade da Anunciação, no dia 26 de março, nossa Igreja celebra a sua coletiva; neste dia, os fiéis se reúnem para prestar especial veneração. Des o século III, nosso Calendário Eclesiástico tem ainda outra coletiva do Arcanjo Gabriel no dia 13 de julho, com o objetivo de o honrar por todas as suas admiráveis aparições.

Desde o século V, a Igreja Ocidental tem celebrado as aparições de são Miguel Arcanjo no dia 8 de maio no Monte Gargano, Apúlia, e outra aparição no dia 29 de setembro na fortaleza do Castelo de Santo Ângelo em Roma. No século XVII, a Igreja Latina dedicou o primeiro domingo de setembro para os santos Anjos da Guarda.

A Intenção da Solenidade Coletiva de São Miguel Arcanjo

A principal intenção da solenidade é louvar e honrar são Miguel Arcanjo e todos os poderes celestes. Toda a sua glória decorre do fato que em defesa da glória de Deus ele liderou todos os bons anjos contra a rebelião de Satanás. Por isso, seu nobre título é “Capitão Chefe ou Comandante-Chefe” dos Anjos. Ele é representado na iconografia como um líder militar vestido com toda a armadura, com um capacete em sua cabeça e uma espada flamejante em sua mão, enquanto sob os seus pés se retorce o dragão, símbolo de Satanás.

O serviço deste dia canta os louvores da grandiosidade de são Miguel diante do trono de Deus, seu zelo e fidelidade a Deus, sua proteção por nós, e sua intercessão em nosso benefício. Aqui nós damos algumas expressões de louvor tomadas das estrofes dos serviços das Vésperas e das Matinas: “líder dos Coros Angélicos”, “Miguel, brilhante representante da três vezes radiante Divindade”, “líder dos poderes celestes, Miguel, Capitão Chefe dos Coros Divinos”, “Miguel, Arquicomandante dos Poderes celestes”, “vós sois o primeiro entre os Anjos incorpóreos”, “vós sois o líder, o campeão, e o capitão chefe dos Anjos, Comandante-Chefe”, “dos exércitos angélicos, vós sois o mais alto”, “entre os cristãos, vós sois um defensor salvador”, “Miguel, Capitão Chefe, nós fielmente contamos a vós como um poderoso defensor, protetor e libertador dos homens”. No dia de sua solenidade, são Miguel chama a todos os fiéis para uma comum assembleia com os Anjos com o objetivo de dar a glória apropriada a Deus: “como o líder dos Poderes divinos, hoje Miguel chama todos os coros dos homens para formar uma gloriosa solenidade com os Anjos, uma solenidade de assembleia divina para que nós, juntamente com eles, possamos cantar um hino santo a Deus”[9].

Esta solenidade glorifica também os coros angélicos, pois eles também com são Miguel, formam a mais bela assembleia. Por isso, nesta data nós louvamos todos os Anjos, nós os magnificamos, nós os agradecemos e imploramos a sua proteção: “venham, amigos das solenidades e amigos de Cristo”, nós cantamos nas estofes das Vésperas Solenes, “com as flores da virtude, pensamentos puros e boa consciência, vamos honrar a assembleia de Arcanjos, pois eles estão continuamente diante de Deus, cantando o hino três-vezes santos e rogando pela salvação de nossas almas”. No primeiro hino secional do serviço das Matinas, nós catamos: “vós que continuamente estais diante do grandioso trono, iluminado pelos brilhantes raios do três-vezes radiante Deus, iluminai-nos e da escuridão do pecado nos libertai para que solenemente celebremos vossa coletiva; e fervorosamente rogai por nós para que possamos sermos libertos do infortúnio, ilustríssimos Intercessores”.

A Importância da Solenidade

A solenidade do Arcanjo Miguel e dos santos Anjos nos indica o importante papel que os Anjos têm em nossa salvação. Esta solenidade também nos lembra das nossas obrigações para com os Anjos, especialmente para com o Anjo da Guarda. Durante toda a nossa vida, em cada momento e em cada lugar nosso anjo guardião nos assiste, protege-nos, inspira-nos com bons pensamentos, alerta-nos contra o pecado, e intercede por nós diante de Deus. Nosso Anjo da Guarda é o nosso guia para os céus, nosso ajudante contra a tentação, nosso companheiro na hora da morte. Ele é a constante testemunha de nossos pensamentos, nossas palavras e nossas obras. Apenas nos céus um dia nós veremos quanto nós devemos ao nosso Anjo da Guarda. Disto vem a nossa obrigação de venerar os santos anjos, louvá-los e agradecê-los todos os dias pela sua assistência e proteção. “Glorificar os Anjos é nossa obrigação”, nós lemos em um sermão atribuído a são João Crisóstomo sobre a Coletiva dos Arcanjos, “pois eles glorificam o Criador e revela Seu amor e misericórdia para com a humanidade”. Vamos confiar nossas crianças aos seus Anjos da Guarda desde quando elas estão no berço; vamos ensinar nossas crianças a amar os seus Anjos e a rezar para eles todos os dias. A história da Igreja recorda inúmeros casos em que o Anjo da Guarda milagrosamente protegeu crianças que estavam em perigo. “Os anjos são dados para nós”, diz o bem-aventurado metropolita Andrey Sheptytskyy, “como Guardiães e Protetores por toda a nossa vida; portanto, a nossa vida segue sem manifestar a proteção diária de nossos Anjos da Guarda conduzem cada um de nós para, sinceramente, venerar e agradecer nossos Anjos da Guarda”[10].

A devoção ao nosso próprio Anjo da Guarda lhe é agradável não apenas quando nos o veneramos e a ele rezamos, mas sobretudo, quando nós o imitamos. Ele nos dá um belo exemplo de santidade. Ele nos ensina pelo seu exemplo como amar a Deus, como O servir e O glorificar. Portanto, vamos nos empenhar para amar Deus assim como nosso Anjo O ama, com o maior fervor, e zelosamente cumprir a vontade de Deus, assim como ele faz e todos os outros anjos fazem nos céus.

[1] Dn 7,10.

[2] Ap 5, 11-12.

[3] Mt 26,53.

[4] Ap 12,7.

[5] Is 6,3.

[6] Sl 90,11.

[7] SÃO BASÍLIO MAGNO. Contra Eunômio, 3,1

[8] SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Sermão 26, sobre os Atos 12,1-3.

[9] Estrofe de louvor nas Matinas.

[10] SHEPTYTSKYY, Andrey. Sobre a Veneração dos Santos, 1941.

Fonte: KATRIY, Yulian Yakiv. Conheça o seu rito: o ano litúrgico da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Roma: PP. Basiliani, 1982.

Pe. Yulian Yakiv Katriy, OSBM
(1912 - 2000) Doutor em Filosofia e autor de diversos livros.

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