A Oração Litúrgica Oriental: O Ciclo Diário (Horológio)

Deus criou o mundo no tempo, no qual se alternam a luz e a escuridão, o dia e a noite, as estações do ano: “Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de sinais, tanto para as festas quanto para os dias e anos” (Gn 1, 14). O alternar-se da noite e do dia na narração sobre a criação do mundo é o sinal da ação criadora de Deus, que tudo fez surgir do nada para a existência. Para recordar essa ação, as celebrações do ciclo diário começam pela tarde. “Houve uma tarde e uma manhã…” (Gn 1, 5ss).

O dia, segundo a Sagrada Escritura, é um período de vida. Deus criou a luz, separando-a das trevas. Esse sentido se insere na compreensão do ciclo diário: o surgimento das criaturas da escuridão do nada para a luz da existência e, depois, da luz visível para a luz invisível. Eis por que o dia bíblico – como símbolo da aproximação do mundo a Deus e o ingresso de Deus no mundo – é ao mesmo tempo o dia litúrgico.

O ciclo diário de celebrações na nossa Igreja é construído em base do ideal da oração ininterrupta, que se expressa no número bíblico sete, imagem da plenitude e perfeição: “Sete vezes por dia eu vos louvo por causa de vossas normas justas” (Sl 119/118, 164). São Basílio Magno exorta a essa oração: “Seja nossa norma cotidiana: sete vezes louvar a Deus”[1]. Fundamento dessa norma de oração são os Salmos, que se intercalam com outras orações: hinos, estrofes, tropários, contáquios e ectenias. O ciclo diário de celebrações – Vésperas, Noturno, Ofício da Meia-Noite, Matinas, Primeira Hora, Hora Terceira, Sexta e Nona, e também o Ofício do Meio-Dia – estão contidos no livro litúrgico chamado Horológio[2].

Vésperas e Matinas

Dentre os ofícios do ciclo litúrgico os mais celebrados nas paróquias são as Vésperas e as Matinas. Nos sábados à tarde são celebradas as Grandes Vésperas, e no domingo de manhã as Matinas ressurrecionais ou dominicais. Nas festas do Senhor, da Mãe de Deus e de alguns santos sãos celebradas as Vésperas com vigílias, quando se benzem pão, trigo, vinho e óleo, em sinal da abundância de dons que recebemos de Deus. A riqueza teológica, espiritual e poética contida nas Vésperas e nas Matinas nos ajuda a celebrar mais profundamente a história da salvação.

A oração das Vésperas consiste no glorificar o Senhor, na prece pelos benefícios recebidos e no arrependimento pelas nossas culpas. Esses três elementos fundamentais se entremeiam ao longo da celebração. No salmo 103 glorificamos o Senhor pela obra da criação e no “Senhor, a vós eu clamo” (Sl 141/140; 142/141; 130/129/ 117/116) expressamos arrependimento e pedimos perdão. Elementos importantes das Vésperas são o incenso e a luz. O aroma do incenso que se eleva ao alto representa a nossa oração penitencial que se eleva a Deus; no hino “Luz radiante” glorificamos a Cristo que, pela fraqueza da cruz, venceu o poder diabólico e “tornou-se a luz para o mundo inteiro”. No hino “Permiti-nos, Senhor” pedimos que sejamos protegidos do pecado “nesta tarde” por meio da luz dos preceitos divinos.

As vésperas completam-se com o cântico de Simeão “Agora podeis despedir o vosso servo” (v. Lc 2, 29-32), no qual a comunidade toda expressa com o justo Simeão a sua alegria pelo encontro com o Senhor nesta tarde e também a sua prontidão para o encontro com ele na glória, quando O contemplaremos “face a face” (cf. 1 Cor 13, 12) e finalmente veremos a salvação divina “preparada para todos os homens”.

Partes fundamentais das Matinas são o conjunto dos seis salmos iniciais, a leitura do Evangelho, o cânon, os salmos de louvor e a doxologia. Os seis salmos que estão no início das Matinas refletem a prontidão dos fiéis na espera da vinda triunfante da luz de Cristo. Na história da salvação, “de manhã” – ou “na matina” – aconteceu a Teofania, o irromper da “luz sobre as trevas”. Teve início ainda em Belém, por isso no início das Matinas cantamos o cântico dos anjos “Glória a Deus nas alturas e paz na terra”. A luz divina resplandeceu sobre o Jordão, por isso o recordamos cantando “O Senhor é Deus e se manifestou a nós; bendito o que vem em nome do Senhor”. O grande triunfo da luz sobre as trevas foi a ressurreição de Cristo. A alegria desse triunfo é maravilhosamente expressa no cântico “A assembleia dos anjos” nas Matinas dominicais: as mulheres mirróforas, que ao romper da aurora apressavam-se ao sepulcro do Senhor, viram o anjo que anunciava a ressurreição de Cristo – “a Grande Luz”.

No Evangelho ressurrecional ouvimos a mensagem do anjo: “Ele ressuscitou! ele não está aqui…” (Mc 16, 6) e a do próprio Cristo: “Põe teu dedo aqui! […] E não sejas incrédulo, mas crê!” (Jo 20, 27). No cântico “Vendo a ressurreição de Cristo”, os fiéis, tais como as mirróforas, aclamam o Cristo ressuscitado e, aproximando-se da tetrápode[3], beijam o Evangelho.

Após o salmo 50, “Deus, tende piedade de mim”, canta-se o cânon – uma sequência de cânticos em que o evento celebrado é ilustrado sobre o fundo da história da salvação. Os cânticos do cânon começam destacando a libertação de Israel da servidão egípcia e incluem preces e hinos de diversos profetas do Antigo Testamento. O cânon se completa com um cântico de glória à Imaculada Virgem Maria, que é aclamada como “Mãe de Deus e Mãe da Luz”. Ao nascer do sol, a Igreja exalta Cristo – Luz vivificante: “Enviai a vossa luz, Cristo-Deus, e iluminai meu coração”[4].

A alegria da alma iluminada pela luz de Cristo se manifesta nos salmos de louvor (148-150), nos quais o homem convoca todo o universo para dar glórias a Deus e bendizê-lo pelo dom da luz – a revelação do Filho. Por isso, no final das Matinas, o sacerdote introduz a Grande Doxologia com as palavras: “Glória a vós, que nos mostrastes a Luz!”. A contemplação dessa Luz nos conduz à contemplação do próprio Deus: na “luz” de Cristo podemos ver a “luz” inacessível da glória divina – “Na vossa luz veremos a Luz”. As Matinas finalizam com ação de graças e preces por toda a comunidade e pela vida do mundo.

Outros ofícios do ciclo diário

O Noturno é um ofício que é celebrado após as Vésperas, antes do repouso noturno. O Grande Noturno é celebrado na Grande Quaresma e nas festas do Natal, Epifania e Anunciação. Nos outros dias é celebrado o Pequeno Noturno. O Noturno inclui ação de graças a Deus pelo dia vivido e pelos nossos afazeres que concluímos, e pedidos de perdão dos pecados e por uma noite e sono tranquilos. “É extraordinariamente útil – diz São Basílio Magno – refletir sobre os pecados passados, a fim de evitá-los no futuro. Por isso, está dito: «Tremei e não pequeis, refleti no vosso leito e ficai em silêncio» (Sl 4, 5)”[5].

No Ofício da Meia-Noite, em vigília, esperando a vinda do Senhor, pedimos que tenhamos uma noite de paz e sem pecado. Recordando também a morte, pedimos que ela não nos tome de surpresa. “É preciso antecipar-se à estrela da manhã – exorta São Basílio – e levantar-se para a oração, para que a luz do dia não nos surpreenda na cama, pois está dito: «Meus olhos antecipam a aurora, para meditar sobre as vossas palavras» (Sl 119, 147)”[6]. O próprio Nosso Salvador rezava à noite e exortava seus discípulos a vigiar. O Ofício da Meia-Noite, como o Noturno, finaliza-se com o ato de perdão mútuo e com preces pelos vivos e mortos.

Nas Horas, que têm fundamento teológico na Bíblia e nos santos Padres, os fiéis recordam os eventos salvíficos narrados nos Evangelhos, e também pedem a Deus graças para cumprir, segundo o espírito cristão, as tarefas cotidianas e as lides do dia.

No ofício das Horas cotidianas, os fiéis, antevendo os problemas e perigos do dia, pedem a ajuda de Deus. Nas Horas quaresmais, eles contemplam Jesus crucificado, buscando nele a força para carregar a cruz de cada dia, a fim de tornar-se coparticipantes da redenção do gênero humano. As Horas Régias focalizam a atenção das pessoas nos principais eventos da salvação: Natal, Epifania, Paixão e Ressurreição.

A Hora Primeira[7] é celebrada imediatamente após as Matinas, porquanto, em conjunto com as Matinas, ela assinala o início do dia na oração: “Cristo, verdadeira Luz que ilumina e santifica todo o homem que vem ao mundo. Resplandeça sobre nós a luz da vossa face, para que nela possamos contemplar a Luz inacessível”[8].

A Hora Terceira recorda a hora da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. “Na hora terceira – diz São Basílio Magno– é preciso parar para rezar, reunir os irmãos, mesmo se eles estiverem ocupados com os seus afazeres. Recordando o dom do Espírito Santo, que os apóstolos receberam na terceira hora, inclinamo-nos unanimemente em adoração a fim de que também nós nos tornemos dignos da santificação espiritual; pedimos que o Espírito Santo se torne o nosso guia e mestre em tudo o que é útil, segundo as palavras de Davi: «Não me rejeiteis para longe de vossa face, não retireis de mim o vosso santo espírito» (Sl 51/50, 13). Em outro lugar: «Que o vosso bom espírito me conduza por uma terra aplanada» (Sl 143/142, 10). E, após a oração, retornamos ao trabalho”[9].

Na Hora Sexta a Igreja recorda os padecimentos de Cristo na cruz. Os salmos desse ofício, que descrevem os padecimentos do justo que espera no Senhor, referem-se profeticamente à Paixão salvífica de Jesus Cristo. O exemplo de nosso Salvador demonstra que a salvação implica esforços e, possivelmente, até sofrimentos. Estes tornam-se para cada um a “cruz” da qual não se deve fugir e sim aceitá-la de bom grado e carregá-la até o momento da passagem para a eternidade. Por isso, na Hora Sexta quaresmal, pedimos ao Senhor: “Ó Cristo-Deus, vós que no sexto dia e na sexta hora cravastes na cruz o insolente pecado que Adão cometeu no paraíso, destruí o rol dos nossos pecados e salvai-nos”[10]. A Hora Sexta quaresmal tem a particularidade que inclui leituras diárias do profeta Isaías e trechos da “Escada” de João Clímaco.

Na Hora Nona (cf. Mc 15, 30) recordamos a morte vivificante de nosso Salvador na cruz. A ele dirigimo-nos em oração: “Cristo-Deus que, na hora nona, por nós padecestes a morte, mortificai a concupiscência da nossa carne e salvai-nos”[11]. O ofício da Hora Nona afasta o temor da morte, porque ela não tem o poder de destruir os planos de Deus.

[1] Basílio Magno: Discurso sobre o combate espiritual, I, 4.

[2] Typikon da Igreja Ucraíno-Católica, Lviv, 1899, p. 5.

[3] NT. “Tetrápode”: mesa que fica no centro da igreja bizantina, diante da “porta régia”, sobre a qual está um crucifixo e um ícone, e na qual são depositados outros objetos, como o livro do Evangelho na celebração das Matinas dominicais.

[4] Horológio: Matinas – luminários da Grande Quaresma, m. 3.

[5] Basílio Magno: Regras Extensas, 37, 4.

[6] Basílio Magno: Regras Extensas, 37, 5.

[7] As denominações Hora Terceira, Sexta e Nona refletem a contagem romana das horas do dia a partir do amanhecer, e correspondem aproximadamente às 9, 12 e 15 horas.

[8] Horológio, Hora I, oração final.

[9] Basílio Magno: Regras Extensas, 37, 3.

[10] Horológio, Hora Sexta, tropário da Quaresma.

[11] Horológio, Hora Nona, tropário.

Fonte: Cristo nossa Páscoa: Catecismo da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Tradução: Pe. Soter Schiller, OSBM. Curitiba: Serzegraf, 2014, n. 538-554.

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