A Solenidade do Patrocínio da Santíssima Mãe de Deus| Série: Conheça o seu Rito

“Nós cantamos os vossos louvores, Santíssima Virgem, Mãe de Cristo nosso Deus, e nós glorificamos vosso todo glorioso patrocínio”

(Hino de Louvor do Século XVI).

Entre as solenidades marianas listadas em nosso Ano Litúrgico, a solenidade do Patrocínio da Santíssima Mãe de Deus merece consideração especial. O culto da Mãe de Deus como Protetora da nação ucraniana alcança como um fio dourado dos tempos dos príncipes kyivenses até os dias de hoje. O segredo de honrar a Mãe de Deus como uma Protetora, reside, talvez, no fato de que nós estamos lidando aqui não com uma pessoa humana, mas com a celeste e mais poderosa intercessão. Cada pessoa, família e nação gostaria de desfrutar de tal intercessão e proteção. Desde o início do nosso Estado Kyivense, nós tivemos grandes e poderosos inimigos. Não é de se admirar que o nosso povo tenha procurado assistência e proteção da Santíssima Mãe de Deus cuja intercessão é toda-poderosa. Para o nosso povo, então, a solenidade do Patrocínio sempre foi, e ainda é, um dia de grande manifestação de amor e gratidão à Santíssima Mãe de Deus, um dia de alegre louvor e glorificação de sua proteção e intercessão.

A Instituição da Solenidade do Patrocínio

O principal motivo que levou à instituição da solenidade foi uma visão de santo André, o Louco por Cristo, quando os Sarracenos sitiaram Constantinopla. O povo, apavorado, reuniu-se na igreja da Santíssima Mãe de Deus em Blaquerna, onde o seu manto está preservado, e lá eles realizaram uma vigília de oração durante toda a noite. As pessoas com dificuldades enchiam a igreja a ponto de pessoas ficarem para o lado de foram. Entre as pessoas, estava santo André e seu discípulo, Epifânio, que também rezaram pela proteção da cidade. Após o serviço, santo André viu a Santíssima Mãe de Deus em uma luz radiante, como se ela estivesse se aproximando das portas reais (um nome que os gregos deram para as portas principais da igreja) na companhia de são João Batista e são João, o Teólogo e em meio ao contato do grande coro dos santos. A Mãe de Deus prosseguiu em direção ao altar, onde ela se ajoelhou e rezou por muito tempo, derramando lágrimas. Depois, ela se levantou, removeu de sua cabeça um véu luminoso, e estendeu sobre todas as pessoas na igreja. Então, ela desapareceu. Santo André e o seu discípulo, Epifânio, tiveram a visão e entenderam que a Mãe de Deus veio socorrer a cidade. Notícias do milagre se espalharam por toda a cidade como um relâmpago. Os inimigos recuaram e a cidade estava salva.

Deste véu, que em ucraniano é chamado de покров (pokrov), a solenidade recebeu esse nome: Покров Пресвятої Богородиці (Pokrov Presvyatoyi Bohorodytsi), isto é, o Véu (ou Proteção ou Patrocínio) da Santíssima Mãe de Deus. O véu se tornou o símbolo da proteção e intercessão da Bem-Aventurada Virgem.

Quem era santo André, o Louco por Cristo? Historiadores geralmente concordam que ele era um eslavo da região sul da Rus’-Ucrânia. Ele, juntamente com outros escravos, foi levado para Constantinopla, onde se tornou escravo de um senhor rico. Em Constantinopla ele aprendeu e amou a fé cristã. Meditando sobre as palavras de são Paulo: “somos loucos por causa de Cristo, vós, porém, sois prudentes em Cristo”[1], ele começou a agir como um louco, por isso, o seu nome. Tendo ganhado liberdade de seu mestre, ele passou muito tempo em oração e lendo as Sagradas Escrituras.

Em qual época santo André viveu e onde o milagre da proteção aconteceu? É difícil dar uma resposta clara e adequada para esta questão. As opiniões dos historiadores a respeito desta questão são divididas. Alguns dizem que santo André viveu durante o reinado de Leão I, o Grande, (457-474), que é, no século V, enquanto outros, que representam a maioria, dizem que ele viveu durante o reinado de Leão VI, o Sábio, (886-911), que é, no início do século X.

A solenidade do Patrocínio era uma solenidade local entre os gregos, que eles deixaram de celebrar com a queda de Constantinopla em 1453. Ninguém sabe precisamente o motivo do dia 01 de outubro ter se tornado o dia da solenidade. Provavelmente porque santo André teve a visão neste dia, ou talvez porque, como alguns pensam, neste dia a Igreja Oriental celebra são Romano, o Melodista, que compôs muitos hinos em honra da Puríssima Virgem Maria. No dia seguinte a solenidade, a Igreja comemora santo André, o Louco por Cristo.

A solenidade do Patrocínio goza de um serviço semelhantes ao das grandes solenidades com uma vigília durante toda a noite, mas não é uma das doze grandes solenidades, e não possui uma pré-solenidade e nem um pós-solenidade. O Sínodo de Lviv em 1891, em redução ao número de solenidades, ordenou que esta solenidade fosse transferida para o domingo.

A Solenidade do Patrocínio na Ucrânia

Em seus serviços, a Igreja Oriental profundamente enfatiza os três mais belos privilégios da Mãe de Deus: a Maternidade Divina, a Virgindade Perpétua e sua Intercessão por nós diante de Deus. O último privilégio, sobretudo, ganhou os corações de nosso povo. Nossos príncipes, reis, exércitos, nossos cossacos e hetmans de bom grande escolheram a Puríssima Mãe de Deus como sua Protetora e Guardiã. Aqui vamos mencionar alguns exemplos.

O príncipe Yaroslav I, o Sábio, em 1036, derrotou os nômades pechenegues e por gratidão a Deus e Sua Santíssima Mãe, construiu a bela Catedral de Santa Sofia em Kyiv e erigiu a igreja da Anunciação de nossa Bem-Aventurada Mãe na Porta Dourada.

Em 1037, na igreja da Anunciação, ele colocou toda a nação sob a proteção ou patrocínio da Mãe de Deus. Assim, pela vontade do nosso monarca, a Santíssima Mãe de Deus foi proclamada oficialmente a Padroeira, Defensora e Rainha de nossa nação.

Em tempos difíceis nossos príncipes e seus exércitos recorriam à Ela por assistência. O grande príncipe Mistislav que governou Tmutorokan, em uma batalha com os tcherkássenses prometeu construir uma igreja em honra da Mãe de Deus, se ela o assistisse em defesa dos inimigos. Ele derrotou os inimigos e de boa vontade cumpriu sua promessa.

O grande príncipe Volodymyr Monômaco, em suas reminiscências, afirmou que devia sua vitória sobre os polovetsianos a Deus e a Puríssima Virgem Maria. Ele mesmo compôs uma oração especial em honra dela. Nossos príncipes e seus exércitos, quando marchavam contra os polovetsianos em 1103, voltaram-se a Deus e à Bem-Aventurada Virgem por auxílio, e derrotaram completamente os polovetsianos. O príncipe Ihor Svyatoslavich, o herói da epopeia Conto da Campanha de Ihor, após sua fuga do cativeiro, foi prestar homenagem ao miraculoso ícone da Mãe de Deus em Pyrohoshcha, agradecê-la por seu auxílio em sua fuga. O rei galiciano, Daniel, após uma campanha bem-sucedida contra a Boêmia, colocou presentes caros aos seus pés.

Alguns de nossos príncipes usaram ícones da Mãe de Deus ou orações em sua honra em seus selos. Em tempos recentes, na Ucrânia, colares muito antigos de ouro, bronze e cobre de ícones foram descobertos, chamados de ἐγκόλπια (enkólpions – medalhões redondos ou ovais suspensos do pescoço, com uma representação de nosso Senhor ou nossa Bem-Aventurada Mãe). Um desses enkólpions tinha a seguinte inscrição grega: “Mãe de Deus, sejais minha Proteção e Defesa. Amém.”.

Nossos renomados Cossacos Zaporozhian construíram uma igreja em honra do Patrocínio da Santíssima Mãe de Deus com um ícone representando seu Patrocínio no Sich, o centro do poder cossaco. Sobre o ícone da Santíssima Mãe estavam escritas as palavras: “eu libertarei e protegerei o meu povo”, e dos zaporozhian, representados abaixo do ícone, há uma faixa voltada para a Mãe de Deus com a seguinte inscrição: “nós vos imploramos, cobri-nos com vosso santo véu (omofório) e livrai-nos de todos os males”. Antes de iniciarem suas campanhas contra o inimigo, os cossacos participavam do Ofício de Súplica em honra de sua Protetora e fervorosamente cantavam: “sob o vosso amparo nós pairamos, Virgem Mãe de Deus; não desprezeis nossas orações em nossas aflições, mas libertai-nos de nossas misérias, vós que sois a única pura e bem-aventurada”. Após retornarem para casa com segurança, eles recorreriam a ela com sincera gratidão. Em seu hino de batalha: “venham agora, rapazes, para as armas!”, eles cantavam as palavras: “São Jorge, assim como a Puríssima Mãe, nos ajudará a derrotar os turcos”.

Seguindo o exemplo de seus líderes, nosso povo cultiva uma sincera devoção à Mãe de Deus como Guardiã, Protetora e Intercessora. Eles sempre recorrem a ela com grande confiança, invocando sua ajuda quer em nos problemas de sua vida pessoal e familiar ou quer nos tempos de crise nacional. Seu santo ícone pode ser encontrado em cada lar ucraniano. A história da nossa nação recorda muitos milagres que são atribuídos à ajuda da Mãe de Deus, especialmente durante os tempos de invasão inimiga em nossa terra.

Quem não sabe sobre a miraculosa proteção do Mosteiro de Pochaiv durante o cerco turco em julho de 1675? Em resposta às fervorosas orações dos monges e dos fiéis, a Mãe de Deus apareceu sobre à igreja do mosteiro e com seu omofório (véu), ela protegeu o mosteiro. O miraculoso evento foi imortalizado pelo canto ucraniano em honra da Mãe de Deus: “a estrela da noite apareceu ficou sobre Pochaiv”.

Entre o povo ucraniano, a veneração da Bem-Aventurada Mãe de Deus como Intercessora e Protetora é melhor ilustrada na crônica de Yazhiw Staryy de uma aldeia na Ucrânia Ocidental. Recordando as incursões assustadoras das hordas tártaras e a proteção celestial da Bem-Aventurada Maria, ele escreve: “o povo, aterrorizado e empobrecido, fugiu para a sua pequena igreja, caiu de joelhos diante do ícone da Mãe de Deus, e rezou fervorosamente para que sempre recebesse proteção”.

O Espírito do Serviço da Solenidade do Patrocínio da Mãe de Deus

O serviço desta solenidade reflete a centena de anos da profunda fé da Igreja Oriental e da fé do nosso povo na intercessão e proteção da Santíssima Mãe de Deus.

Nas estrofes do serviço das Vésperas, a Igreja chama todos os fiéis para celebrar a solenidade do Patrocínio: “venham, todos vós que amam a solenidade, e vamos louvar a venerável proteção da Mãe de Deus. Pois ela estendeu suas Mãos implorando ao seu Filho e o mundo se sentiu sob a Sua proteção. Por isso, celebremos gloriosamente com nossos lábios e corações, com cânticos e melodias espirituais, juntamente com todos aqueles que ama esta solenidade”.

Nas estrofes dos serviços das Vésperas e das Matinas, no tropário e no cânon, a Igreja expressa seu amor maternal, sua confiança sem reservas na poderá proteção de Maria e em seu auxílio imediato, seu papel na nossa salvação e em sua grande misericórdia maternal: “Puríssima Mãe de Deus”, nós cantamos na primeira estrofe do serviço das Vésperas Solenes “vós sois uma grande Intercessora para aqueles em arrependimento. Vós sois o rápido auxílio, salvação e fortaleza do mundo. Vamos, os fiéis, exaltar e glorificar o vosso indizível e glorioso patrocínio. Ave, Alegrai-vos, Cheia de graça, o Senhor é convosco, concedeis ao mundo grande misericórdia”.

Na sessional, na terceira ode do cânon, nós lemos: “zelosa e invencível Advogada, certeza e infalível esperança, baluarte, proteção e refúgio daqueles que a ti recorrem, Sempre Virgem Pura, juntamente com os anjos, implora ao vosso Filho e Deus para dar ao mundo: paz, salvação e grande misericórdia”.

O tropário da nona ode do cânon louva o privilégio de Maria curar as doenças da alma e do corpo e de livrar dos infortúnios: “como Mãe de Deus, tu recebeste de Deus o dom de curar os males de todos os cristãos; de os livrar dos infortúnios; de os libertar do pecado e de os salvar da escravidão e de todas as perturbações. Por isso, não nos despreze, Senhora, pois tu sabes o que nós necessitamos: saúde do corpo e salvação da alma”.

Em 1912, o papa são Pio X comentou ao nosso bispo Mykyta Budka: “vossa nação pode perecer, pois tem duas garantias: vossa nação ama Cristo Eucarístico e a Puríssima Virgem Maria. Com estas garantias, a nação não pode parecer”.

Sim, nós acreditamos firmemente, que a fervorosa devoção que a nossa nação tem na Puríssima Mãe de Deus, como sua Protetora e Advogada, é a maior garantia que ela nunca abandonará a nossa nação, mas intercederá em seu favor diante do Seu Filho e implorará dEle que a grande graça que o reino das trevas e escravidão que cairá em nossa terra natal e que o reino do Seu Filho imperará. Então, novamente, como antes, nosso povo deve se reunir em centenas e milhares em Seus altares para lhe prestar veneração como sua incansável Advogada, Guardiã e Rainha.

[1] 1Cor 4,10.

Fonte: KATRIY, Yulian Yakiv. Conheça o seu rito: o ano litúrgico da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Roma: PP. Basiliani, 1982.

Pe. Yulian Yakiv Katriy, OSBM
(1912 - 2000) Doutor em Filosofia e autor de diversos livros.

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