Pe. Joseph Carola, SJ, reflete sobre o anseio da juventude pela Verdade

Este texto faz parte de uma conferência proferida pelo Pe. Joseph Carola, SJ, na Penitentiaria Apostolica, em 2018. Ele é jesuíta do Texas, Estados Unidos da América, e professor de Patrologia e História da Igreja Antiga e Medieval na Pontifícia Universidade Gregoriana e foi traduzido com autorização por seu estudante, Ir. Marco Antônio Pensak, OSBM. A foto é do Pe. Joseph Carola no outono de 2005, em Núrsia – o seu lugar preferido.

 

AMDG

Bom Mestre, o que devo fazer para alcançar a vida eterna?

Evangelho: Marcos 10, 17-22 

A História de Matthew 

No verão de 2004, eu, juntamente com um padre amigo, fiz uma visita ao Southwell Minster, ou seja, à catedral medieval da Diocese Anglicana de Southwell e Nottingham, na região central da Inglaterra. No século XII, os normandos desconstruíram a igreja saxônica que originalmente ficava naquele local. Usando pedras, eles construíram a estrutura atual, maior. Um século depois, o próprio coro românico dos normandos se revelou muito pequeno e foi substituído por uma Capela-mor gótica ainda maior. Com sua combinação de arcos romanos e pontiagudos, a Southwell Minster é de fato uma igreja magnífica. Sua bela e imponente arquitetura eleva a mente e o coração a Deus. Ao cair da noite naquele dia de meio de verão, sugeri a meu amigo sacerdote que permanecêssemos lá para ouvirmos todas os cânticos cantados pelo coro da catedral. Ele concordou, mas prontamente se desculpou para primeiro cuidar das necessidades da natureza antes de oferecer o seu louvor noturno ao bom Senhor. Nesse ínterim, procurei um lugar no coro. 

Quando passei da nave românica, por meio do coro alto para a Capela-mor gótica, vi um jovem em pé diante de um ambão de águia de bronze. Presumi que ele fosse um dos meninos adolescentes do coro que preparava uma breve leitura das Escrituras para as Vésperas. Não querendo sentar no lugar errado, me aproximei dele e perguntei onde deveria sentar. Imediatamente, ele desceu do ambão e olhou para mim como se eu o tivesse pegado fazendo algo que não deveria estar fazendo. Depois de cinco anos ensinando garotos do ensino médio no sul dos Estados Unidos, eu conhecia bem aquela expressão no rosto de um adolescente! Mas, pensei comigo mesmo, talvez o tenha simplesmente assustado. Então, perguntei novamente: “Onde devo me sentar para as vésperas?” Mas ele continuou a me olhar caprichosamente, perguntando-se, ao que parecia, por que aquele padre não tinha ideia de onde se sentar em sua própria igreja. Percebi então que ele não era um dos meninos do coral. 

“Você não é daqui”, eu disse. 

“Não, não sou”, respondeu ele. 

“Obviamente, nem eu”, continuei, “Na verdade, sou um padre católico de Roma”.

“De Roma?” Ele parecia intrigado. Então, nós nos apresentamos um ao outro. Seu nome era Matthew. 

“Esta é uma igreja muito bonita, não é, Matthew?” Eu comentei. “Sua beleza arquitetônica eleva a mente e o coração a Deus.”

De repente, Matthew interrompeu: “Não quero ser ateu!” Era como se ele estivesse se afogando em um mar de descrença e ofegando por ar. O ateísmo ameaçou engolfá-lo e, se ele fizesse nada, por padrão acabaria ateu. “Eu não quero ser ateu!” ele implorou apaixonadamente. 

“Claro que não, Matthew”, respondi. “Sabe o que diz Santo Agostinho? Deus nos criou para Si mesmo e nossos corações estão inquietos até que repousem Nele”. 

“Fui batizado”, disse Matthew com orgulho. “Meus pais não vão à Igreja, mas meus avós vão.” 

Incentivei Matthew a tomar a iniciativa e ir sozinho à Igreja aos domingos. Então de repente me ocorreu que, quando entrei pela primeira vez no coro e vi Matthew no púlpito, ele estava lendo a Bíblia. Eu não tinha ideia de qual passagem bíblica ele estava lendo, mas estava convencido de que o bom Deus pretendia falar com Matthew por meio de Sua Palavra. 

“Matthew”, eu disse, “Deus tem algo a dizer a você em Sua Palavra. Vamos ver o que é.”. Então, nós dois voltamos para o ambão. A Bíblia foi aberta ao profeta Isaías, capítulo cinquenta e cinco. Juntos, lemos: “Todos vós, que estais sedentos, vinde à nascente das águas; vinde comer, vós que não tendes alimento. Vinde comprar trigo sem dinheiro, vinho e leite sem pagar! Por que despender vosso dinheiro naquilo que não alimenta, e o produto de vosso trabalho naquilo que não sacia?” (Isaías 55, 1-2). 

“Você sabe o que o profeta quer dizer com água?” Eu perguntei. 

“Água é apenas água, certo?” ele respondeu. 

“Jesus é a Água Viva”, expliquei, “e, por meio do profeta Isaías, Jesus está chamando você para Si mesmo. Matthew, os jovens da sua idade podem desperdiçar não apenas muito dinheiro, mas também suas próprias vidas com álcool e drogas que nunca satisfazem. Mas, como Isaías pergunta, por que gastar seu dinheiro com essas coisas? Matthew, Jesus é a Água Viva que satisfaz nossos desejos mais profundos e está chamando você para Si mesmo. Nunca se esqueça dessas palavras. Nunca se esqueça deste momento.” 

“Eu não vou,” ele disse. Só então, de fora do coro, seu pai o chamou, dizendo para vir junto, pois eles estavam indo embora. 

Depois que Matthew saiu, sentei-me no coro. Pouco depois, meu amigo voltou do banheiro, encontrando-me imensamente consolado antes mesmo de começarmos a rezar. No final das contas, eu não tinha motivo para temer sentar no lugar errado naquela noite. Pois, sem que nós soubéssemos, era a única noite da semana em que o coro da catedral não cantava todas as canções. Mas o bom Senhor, sabendo melhor do que nós, usou nossa ignorância para Seus próprios desígnios. 

A viagem a Jerusalém 


No mês passado [maio de 2018], trezentos jovens de todo o mundo se reuniram aqui em Roma. Em todo o mundo, mais quinze mil jovens se juntaram a eles por meio de vários grupos do Facebook. Eles se reuniram para dar uma contribuição preliminar ao Sínodo dos Bispos, que se reunirá no próximo outubro para discutir os jovens, a fé e o discernimento vocacional. No Documento Final de sua Assembleia Pré-sinodal, esses jovens identificam tanto a realidade fundamental de sua vocação batismal quanto a importância das Escrituras em sua jornada eclesial com Jesus ao Pai – assim como o jovem Matthew havia feito naquele dia de verão em Southwell. Seu documento aconselha acertadamente “um retorno às Escrituras [para] compreender mais profundamente a pessoa de Cristo, sua vida e sua humanidade” (Documento Final da Assembleia Pré-sinodal (= DFAP) §6). “Pedimos”, afirma o documento mais adiante, “que a Igreja continue a proclamar a alegria do Evangelho com a orientação do Espírito Santo” (DFAP §11). No Espírito, nós próprios nos voltamos esta tarde às Escrituras para considerar uma passagem central do Evangelho de São Marcos que se refere diretamente à juventude, à fé e ao discernimento vocacional. Corremos rapidamente com aquele jovem rico em Marcos 10 que reverentemente se ajoelha diante do Senhor Jesus e sinceramente pergunta a Ele o que ele deve fazer para herdar a vida eterna. Como o Papa São João Paulo II corretamente observa em sua magistral Carta Encíclica Veritatis Splendor: “O colóquio de Jesus com o jovem rico continua, de certa forma, em cada época da história, hoje também. A pergunta: «Mestre, que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?», desabrocha no coração de cada homem, e é sempre Cristo e unicamente Ele a oferecer a resposta plena e decisiva.” (São João Paulo II, Veritatis Splendor §25). 

São Marcos começa seu relato observando que, “quando [Jesus] estava iniciando sua jornada, um homem correu e se ajoelhou diante dele e perguntou-lhe: ‘Bom Mestre, o que devo fazer para alcançar a vida eterna?” (Marcos 10, 17) São Mateus especifica que o sujeito rico era um jovem (Mateus 19, 22). O momento do encontro do jovem com Jesus não é insignificante. Jesus está prestes a iniciar uma jornada – uma jornada que O levará a Jerusalém, ao Calvário e à Cruz; uma jornada que passará por aquela porta estreita e cruciforme para Sua maravilhosa Ressurreição e gloriosa Ascensão ao céu. Esta é a jornada em que Jesus convidará aquele jovem a se juntar a ele. Ajoelhando-se diante do Senhor, no entanto, o jovem primeiro questiona Jesus sobre o significado último da vida. Sua postura revela a reverência que ele tem por Jesus. Mas o título “Bom Mestre” com que se dirige ao Senhor implica muito mais. Como o próprio Jesus observa: “Por que me chamas de bom? Só Deus é bom” (Marcos 10, 18). Em suma, o gesto e as palavras do jovem são fundamentalmente um ato de adoração. Eles encontram uma expressão particularmente eloquente no Primeiro Princípio e Fundamento de Santo Inácio de Loyola, estrategicamente colocado no início dos Exercícios Espirituais: “O homem foi criado para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor, e assim salvar sua alma” (Santo Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais §23)[1]. De fato, o jovem louva e reverencia a Cristo ao perguntar-Lhe por qual serviço divino ele pode alcançar a vida eterna. 

Jesus, o bom Mestre, responde com uma pedagogia sólida. Em primeiro lugar, como um bom jesuíta, Ele responde a uma pergunta com outra pergunta: “Por que você me chama de bom?” Mas em segundo lugar e mais para o ponto pedagógico, Jesus começa com o que é familiar. “Conheces os mandamentos” (Marcos 10,19), diz Ele, procedendo então à lista de alguns deles. “É claro”, comenta São João Paulo II, “que Jesus não pretende enumerar todos e cada um dos mandamentos necessários para ‘alcançar a vida eterna’, mas antes deseja chamar a atenção do jovem para a ‘centralidade’ do Decálogo em relação a todos os outros preceitos, na medida em que é a interpretação do que as palavras ‘Eu sou o Senhor vosso Deus’ significam para o homem” (São João Paulo II, Veritatis Splendor §13). Respondendo a Jesus, o jovem insiste: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude” (Marcos 10, 20). Sim, já faz algum tempo que ele viveu uma vida virtuosa, mas deseja algo mais. Ele busca a perfeição e quer saber o que deve fazer para alcançá-la. Sua busca nos lembra que aquela fé, que dá sentido final a esta vida, não é apenas uma questão de moral – embora uma vida moral seja fundamental para viver uma vida de fé. Além disso, a resposta de Jesus confirma a realidade transcendente da fé. Pois o Senhor não impõe novas tarefas a serem cumpridas. Em vez disso, Ele convida o jovem a abandonar tudo e depois a entrar de todo o coração em um relacionamento com Ele mesmo, revelando que o discipulado cristão é muito mais uma questão de ser do que de fazer. Na verdade, acreditar em Jesus, contemplá-lo e estar com Ele é alcançar a vida eterna. Pois, pela graça salvadora de Cristo, a própria vida eterna nada mais é do que ver a Deus e participar de Sua natureza divina. 

 

O olhar amoroso de Jesus 

 

A narrativa de Marcos do jovem rico continua, observando que “Jesus, olhando para ele, o amou” (Marcos 10, 21a). O olhar amoroso de Jesus está no centro deste relato evangélico e constitui o seu quadro indispensável. Do seu amor pelo jovem flui o pedido radical de Jesus para que ele deixe tudo e O siga. Não há discernimento vocacional propriamente feito fora do amor abrangente de Jesus por nós. Pois sem o Seu amor e Sua graça, não podemos nem dar o primeiro passo para responder ao Seu chamado e abraçar a nossa vocação na vida. A iniciativa é sempre de Cristo. É Ele quem chama. Com a ajuda de Sua graça, somos nós que respondemos. 

Nos retiros pregados aos jovens, começo sempre com uma meditação sobre o amor de Deus por nós, refletindo em particular sobre o quarto capítulo da Primeira Carta de São João: “Amamos, porque Deus nos amou primeiro” (1 Jo 4, 19). É crucial que comecemos aqui. Ao experimentar o amor de Deus por nós, percebemos que somos amáveis ​​e realmente amados. Também reconhecemos que nosso amor por Deus é sempre uma resposta ao Seu amor sempre fiel por nós. Mais uma vez, como diz São João: “Amamos, porque Deus nos amou primeiro” (1 João 4,19). Pode ser uma grande luta para os jovens, e mesmo para os não tão jovens, reconhecer que são amáveis ​​e amados. Os jovens muitas vezes lutam com baixa autoestima resultante de várias causas: lares desfeitos, insucesso escolar, o bullying dos colegas ou sucessos aparentemente glamorosos de outros jovens, enganosamente retratados em um fluxo constante de fotos digitais exibidas nas redes sociais. Esses e outros fatores facilmente provocam baixa autoestima entre os jovens de hoje. Em seu livro perspicaz iGen publicado no ano passado (2017), a professora Jean Twenge, da San Diego State University, na Califórnia, estuda a geração nascida após 1995, ou seja, a primeira geração que nunca conheceu um mundo sem internet.[2] Ela argumenta de forma convincente que o smartphone colocou os jovens em um risco ainda maior de sofrer de baixa autoestima, infelicidade, depressão e suicídio. Uma crise de saúde mental está se aproximando, ela previne. Quanto mais por isso, é crucial ajudar os jovens a reconhecer o amor de Deus por eles, ajudá-los a desviar os olhos daquelas telas luminosas de luz azul, que seguram nas mãos, e contemplar o olhar amoroso de Jesus, que, pegando-os pela mão, chama-os ao discipulado. Com efeito, como explica São João Paulo II em Veritatis Splendor: “Jesus, com delicado tato pedagógico, responde conduzindo o jovem quase pela mão, passo a passo, em direção à verdade plena.” (São João Paulo II, Veritatis Splendor §8). 

Os estudos geracionais ajudam nossa busca por meios eficazes de comunicar o Evangelho hoje. As percepções desses estudos servem para indicar a melhor maneira de abordar as demandas contemporâneas da evangelização. Mas é, no entanto, essencial lembrar que, apesar da rápida mudança antropológica iniciada no século XXI, ou seja, a formação de um homo technologicus para o bem ou para o mal, o homem no âmago de seu ser continua sendo o mesmo. Muito sobre a condição humana realmente muda de época para época. Mas quem é o homem, criado à imagem de Deus, e quem ele é chamado a ser por meio da adoção divina não mudou, nem mudará a identidade fundamental do homem ou sua vocação última. Fomos criados para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor e por meio desta graça para alcançar a vida eterna.[3] Por isso, o jovem santo Agostinho de Hipona não é fundamentalmente diferente da juventude de hoje. “E de que me deliciava”, pergunta o Bispo de Hipona, refletindo sobre a sua própria adolescência, “senão amar e ser amado?” (Santo Agostinho de Hipona, Confissões 2.2) Para aplicar as palavras de um clássico country-western bem conhecido em minha parte do mundo (eu venho do Texas!), Santo Agostinho passou grande parte de sua juventude “em busca do amor em todos os lugares errados!” Amores desordenados o impediam de descobrir o verdadeiro significado da vida. Ele correu atrás da beleza criada ao mesmo tempo em que falhava em amar o Criador da beleza, cujo único amor satisfaz nossos corações inquietos. “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei”, confessa Santo Agostinho (Santo Agostinho de Hipona, Confissões 10.27). O bispo norte-africano reconhece que só o amor de Deus derramado em nossos corações (cf. Romanos 5, 5) que ordena corretamente todos os nossos amores em nosso amor de todo o coração por Deus. O que São Marcos escreve sobre a troca de Jesus com o jovem é igualmente verdadeiro para os dois jovens Agostinho e cada jovem de hoje: “Jesus, olhando para ele, o amou” (Mc 10, 21a). Jesus, o Bom Mestre, olha para nós com amor e é o Seu amor que suscita a nossa resposta. 

Abandono de si mesmo em Cristo 


Neste contexto do amor que tudo abrange do Senhor, Jesus diz ao jovem: “Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me” (Marcos 10, 21b). Jesus aconselha o abandono para obter o unicum necessarium – a única coisa necessária, a melhor porção de que gozava Maria de Betânia. Ele instrui o jovem a vender seus bens materiais e dar o lucro como esmola aos pobres. Desse modo ele será perfeito, isto é, misericordioso, como seu Pai celestial é misericordioso. Ele terá um tesouro nos céus. O verdadeiro tesouro substituirá os bens perecíveis que antes ele valorizava erroneamente. Ou, como o bom Senhor, por meio do profeta Isaías, propôs ao jovem Mateus: “Por que despender vosso dinheiro naquilo que não alimenta, e o produto de vosso trabalho naquilo que não sacia?” (Isaías 55, 2). Assim, Jesus aconselha a liberdade de amores desordenados. Mas não é simplesmente uma questão de liberdade de. O chamado de Jesus também implica uma liberdade de – a liberdade de receber o amor que dá vida, que só Ele comunica. Pois sem a última recepção, o primeiro abandono seria difícil, senão impossível. Como o Padre Iain Matthew em seu estudo de São João da Cruz observa com perspicácia: “Para nos libertarmos da escravidão, precisamos de um amor que nos preencha no ponto em que pensávamos que os amores escravizadores estavam nos preenchendo”.[4]  “Dê tudo, vem e segue-me”, ordena Jesus. Esse auto-esvaziamento – uma liberdade de – nada mais faz do que abrir o coração do discípulo – uma liberdade de – receber a plenitude do amor de Cristo, a única que satisfaz nossos anseios mais profundos. Em termos carmelitas, o nada de abandono é o prelúdio necessário para receber o todo de Cristo. Talvez esta dinâmica ajude a lançar luz sobre uma observação contida no documento final da assemblia pré-sinodal: “Os jovens precisam encontrar a missão de Cristo, não o que eles podem perceber como uma expectativa moral impossível” (DFAP §6). Com efeito, o encontro pessoal com Cristo dá origem à nossa esperança de que aquilo que é impossível para nós realizarmos por nós mesmos se torna possível para nós com a ajuda de Deus (cf. Mc 10, 27). Com este mesmo espírito, no início do seu papado, o Papa Bento XVI pregou: “Assim, eu gostaria com grande força e convicção, partindo da experiência de uma longa vida pessoal, de vos dizer hoje, queridos jovens: não tenhais medo de Cristo! Ele não tira nada, Ele dá tudo. Quem se doa por Ele, recebe o cêntuplo. Sim, abri de par em par as portas a Cristo e encontrareis a vida verdadeira” (Papa Bento XVI, Homilia na Santa Missa de Início do Ministério Petrino, 24 de abril de 2005). 

O convite de Cristo ao discipulado, no entanto, infelizmente continua sem resposta no relato do Evangelho que estamos considerando. Pois “o jovem entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens” (Marcos 10, 22). O jovem não consegue compreender a lógica evangélica que propõe que, para encontrar a vida, é preciso primeiro perdê-la. Ou talvez ele simplesmente não tenha coragem de abraçar o que ele compreende de outra forma. Após a sua partida, Jesus disse aos seus discípulos: “Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os ricos!” (Marcos 10, 23). Então, Ele se repete, acrescentando, como várias tradições manuscritas atestam, “quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que põem a sua confiança nas riquezas!” (Marcos 10:24) O jovem tem muitos bens, sim, mas não é sua riqueza material em si que o impede de seguir Jesus. É antes sua incapacidade de confiar em Jesus em vez de confiar em sua riqueza. Ele sai triste porque não pode dizer “Jezu, ufam tobie — Jesus, eu confio em Ti”. Abandonando-se em Jesus ao invés de em seus bens, ele deixa de ser um peregrino, que busca fielmente o Reino, para se tornar, nas palavras do Papa Francisco, um errante que vagueia pelo mundo sem rumo (cf. Papa Francisco, Evangelii Gaudium §170). 


Autenticidade, não acomodação 


O convite de Jesus ao jovem está entre as palavras duras do Evangelho. Lembre-se do ensinamento de Jesus sobre a Eucaristia no capítulo sexto do Evangelho de São João. “Muitos dos seus discípulos, ouvindo-o”, conta São João, “disseram: ‘Isto é muito duro! Quem o pode admitir?’ Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com Ele” (João 6, 60, 66). Em nenhum dos casos – nem em Marcos 10 nem em João 6 – Jesus acomoda Seu ensino a fim de garantir a fidelidade de Seus discípulos. Quando o jovem se vira, Jesus não protesta, dizendo: “Foi apenas uma hipérbole; claro, você pode ficar com alguma coisa!” Nem quando as multidões saem da sinagoga de Cafarnaum, Jesus insiste para acalmar suas preocupações de que Ele pretendia Sua doutrina eucarística meramente como uma metáfora. Não, em nenhum dos casos Jesus compromete Seu ensino. Em vez disso, Ele permite que esses candidatos a discípulos O deixem. Abandonar Jesus em vez de nossos bens pessoais ou opiniões teológicas é tremendo. O simples pensamento disso deve nos fazer tremer e nos encher de pavor. Mas essas passagens do Evangelho servem para demonstrar um ponto importante: quando Jesus nos acompanha, Ele não procura nos acomodar comprometendo a verdade. Como revelam essas passagens do Evangelho, o acompanhamento nada tem a ver com acomodação. Pelo contrário, envolve autenticidade. 

O Documento Final da Assembleia Pré-sinodal enfatiza que os jovens buscam autenticidade. “Os jovens querem testemunhas autênticas”, afirma, “homens e mulheres que expressem de forma vibrante sua fé e relacionamento com Jesus, ao mesmo tempo que encorajam os outros a se aproximarem, se encontrarem e se apaixonarem por Jesus” (DFAP §5). Eles buscam modelos autênticos de fé – uma autenticidade que acarreta uma vulnerabilidade transparente. Por outras palavras, procuram aqueles que, no anúncio de Jesus, também testemunham a própria experiência de Jesus como Salvador misericordioso (cf. DFAP §7). “Os jovens de hoje”, continua o documento, “procuram uma Igreja autêntica” (DFAP §11) – uma Igreja autêntica, não uma Igreja acomodadora. Como os jovens redatores do documento final insistem, os jovens de hoje não estão interessados ​​em “respostas diluídas” (DFAP §11). Em outras palavras, os jovens não temem as palavras duras de Jesus. Pelo contrário, procuram abraçar o desafio do discipulado cristão, do qual o jovem do Evangelho de São Marcos tristemente se afasta. Enquanto ouvimos os jovens de hoje e nos esforçamos, como eles próprios pedem, por compartilhar com eles a autêntica alegria do Evangelho, fazemos bem em recordar aqui a admoestação que o Papa o beato [hoje santo] Paulo VI dirige aos evangelizadores na sua primeira Carta Encíclica Ecclesiam Suam. “Às vezes”, escreve o Pontífice, 

Às vezes, até o desejo apostólico de entrar em ambientes profanos e de conseguir boa aceitação nos espíritos modernos sobretudo juvenis, traduz-se em renúncia às formas próprias da vida cristã e mesmo àquele estilo de domínio próprio, que deve dar sentido e vigor ao desejo de aproximação e de influxo para o bem. Não é verdade, porventura, que muitas vezes o Clero novo, ou até alguns Religiosos zelantes, guiados pela boa intenção de penetrar nas massas populares e noutros meios, procuram confundir-se em vez de distinguir-se, renunciando assim com inútil mimetismo à eficácia genuína do seu apostolado? O grande princípio, enunciado por Cristo, volta a apresentar-se na sua atualidade e também na sua dificuldade: estar no mundo, mas não ser do mundo. (São Paulo VI, Ecclesiam Suam §26). 

Em outras palavras, se esperamos ser evangelistas eficazes, não podemos diluir a doutrina católica e a prática. Os jovens que se reuniram no mês passado aqui em Roma enfatizaram este ponto. O documento final, é claro, não se esquiva de mencionar tópicos polêmicos. Isto reconhece que alguns podem querer que a Igreja mude seu ensino – o que ela não pode fazer se quiser permanecer na verdade de Cristo – “ou pelo menos”, sugere, que esses indivíduos desejam “ter acesso a uma melhor explicação e mais formação sobre estas questões” (DFAP §5). Este é certamente um pedido legítimo que os educadores católicos ao serviço da fé não devem deixar de cumprir. Mas “Muitos jovens católicos”, continua o documento, “aceitam estes ensinamentos e encontram neles uma fonte de alegria. Eles desejam que a Igreja não apenas os apegue em meio à impopularidade, mas também os proclame com maior profundidade de ensino” (DFAP §5). Ao contrário do jovem rico do Evangelho de São Marcos, estes jovens católicos confiam em Jesus. Como o jovem Matthew, eles não querem ser ateus. Em vez disso, eles querem ser e realmente são rapazes e moças de fé – fé em Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo.  Eles não têm medo de responder ao Seu chamado. Eles não rejeitam Suas palavras duras. Eles não estão interessados ​​em acomodação. Em vez disso, procuram autenticidade, isto é, professam de bom grado a fé ortodoxa. Quando outros abandonariam a companhia de Jesus em vez de se abandonar Nele, dizem esses jovens juntamente com São Pedro: “Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus!” (João 6, 68-69). 


O Sacerdote-Confessor 


Em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco oferece vários insights sobre a arte do acompanhamento. À sua maneira, essas percepções respondem à pergunta frequentemente proposta pelos jovens: “O que Jesus faria?” Eles fornecem um modelo para o sacerdote-confessor, que, pela graça sacramental das Ordens Sacras, fala o próprio “eu” de Jesus, dizendo: “Eu te absolvo de seus pecados”.  O Papa Francisco lembra ao sacerdote-confessor e aos outros agentes pastorais que eles “podem tornar presente a fragrância da presença solidária de Jesus e o seu olhar pessoal.” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium §169). Em particular, o olhar compassivo do sacerdote-confessor sacramentalmente conformado a Cristo reflete o olhar de Jesus que “olhando [o jovem] o amou” (Mc 10, 21a). É, segundo o Papa Francisco, um olhar “que também cura, liberta e anima o crescimento da vida cristã” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium §169). O caminho que ela inicia “deve conduzir cada vez mais para Deus, em quem podemos alcançar a verdadeira liberdade” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium §170). Escutando pacientemente o outro e segurando-o gentilmente pela mão, o sacerdote-confessor pretende “o anseio de corresponder plenamente ao amor de Deus e o anelo de desenvolver o melhor de quanto Deus semeou na nossa própria vida” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium §171). Com sua paciência e compaixão, o sacerdote-confessor procura não tanto ganhar a confiança do outro em si mesmo, mas ajudá-lo a confiar em Jesus. Pois somente quando o penitente pode dizer com sinceridade: “Jesus, eu confio em Ti”, ele pode abandonar-se livremente no Senhor. 

De 2005 a 2016, servi como capelão de estudantes universitários americanos que estudam em Roma. Em minha capelania, logo descobri como é importante para o padre ser pai. Ao final de cada semestre, recebia recados de meus estudantes me agradecendo por ter sido um pai para eles. A palavra “cura” também costumava aparecer nessas notas. Uma crise crescente ameaça a paternidade na sociedade ocidental. Muitas vezes, os filhos crescem sem um pai forte e protetor presente em casa. Por isso, a paternidade espiritual do sacerdote – um amor paternal em que se pode confiar – é de importância crucial. “O que Jesus faria?” os jovens perguntam. Jesus nos revela o amor do Pai. O padre, que é um alter Christus caput, é chamado a fazer o mesmo. Ele deve amar com o amor do Pai – um amor paternal que não teme disciplinar nem falar a verdade para o bem do outro neste tempo e na eternidade. Como Jesus, o Bom Mestre, o sacerdote-confessor escuta. Ele responde primeiro com o que é familiar para ser ouvido. Ele incentiva, mas também desafia. Como Jesus, ele fala a verdade na caridade, convidando o outro ao discipulado cristão sem concessões. Ele fala com mais força quando sua própria vida confirma suas palavras. Como atesta o Documento Final da Assembleia Pré-sinodal, os jovens desejam profundamente esses pais fiéis e guias espirituais autênticos. 

O jovem Matthew não queria desesperadamente ser ateu. Em seu apelo apaixonado, ouvimos o eco bimilenário do jovem rico: “Bom Mestre, o que devo fazer para alcançar a vida eterna?” Em resposta, que nós, ministros da Igreja e seu povo, nunca deixemos de proclamar o unicum necessarium – a única coisa necessária. Que possamos convidar amorosamente os jovens a entregar suas vidas a Jesus, a fim de que possam encontrar a verdadeira vida – a vida eterna – Nele. 

 

Pe. Joseph Carola, SJ 
Penitentiaria Apostolica
Cidade do Vaticano, 26 de abril de 2018.

 

[1] Saint Ignatius Loyola, The Spiritual Exercises of St. Ignatius, trans. Louis J. Puhl, S.J. (Chicago: Loyola Press, 1951), p. 12.

[2] Jean M. Twenge, iGen (New York: Atria Books, 2017).

[3] Estas considerações teológico-antropológicas são apenas mais uma forma de reconhecer aquela interação dinâmica entre o depósito imutável da fé e seu efetivo anúncio contemporâneo, que o Papa São João XXIII identificou na Gaudet Mater Ecclesia, na abertura do Concílio Vaticano II.

[4] Father Iaian Matthew, The Impact of God: Soundings from St John of the Cross (London: Hodder & Stoughton, 1995), p. 49.

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