Platão: mito e filosofia a serviço da Polis

Na filosofia clássica, sem sombras de dúvida, Platão é um pensador que marca profundamente a história, a julgar pelas raízes até hoje vigentes em várias correntes de pensamento. A conceituação mais famosa que dele obtemos é a dos mundos, real e ideal, e a partir dessa visão todo o pensamento da realidade sensível como simulacro da real. É nesse contexto que Platão desenvolve sua crítica à poesia e ao mito, como veremos. Mais precisamente, em As Leis e nos livros II, III e X da República que encontramos recortes dessa crítica feita a essas “artes das musas”.

Antes de tudo, é importante levarmos em consideração que o termo grego “musiké”, no contexto dos escritos platônicos, é utilizado para se referir à arte das musas, uma junção da música, dança e poesia, propriamente ditas. Explicado isso, passemos ao que considera Platão, sobretudo na República, pela boca de Sócrates, sobre a poesia. Sócrates faz uma afirmação nessa obra que diz respeito à capacidade da poesia em contar verdades ou mentiras, já denotando aqui um caráter ambíguo dessa arte.

O que cabe à poesia, portanto, é a representação nobre, isto é, dos deuses, dos heróis, dos cidadãos famosos por sua idoneidade na Polis, entre outros, mas sempre referenciada nos modelos virtuosos. Há ainda uma diferença substancial que está no campo da linguagem: não basta aquilo que está sendo dito, mas a forma como está sendo dito, ou seja, trata-se do estilo; a discussão aqui é sobre o que se diz (lógoi) e a maneira como se transmite (léxis).

Platão incorpora a crítica à poesia de modo particular em detrimento de seu modo – ao ver do filósofo – imitativo. Essa crítica, de certa forma, abrange também as artes chamadas imitativas; em outros termos, aquelas que possuem por referência a realidade aqui e agora e, portanto, sensíveis. Se lembrarmos de que para Platão a realidade sensível se constitui como um simulacro do mundo das ideias perfeitas, isto é, uma cópia imperfeita de uma realidade ideal, basta-nos para afirmar que ao filósofo é um grande absurdo alguém desejar reproduzir um simulacro.

Seria o mesmo que dizer que a poesia, no momento e que se utiliza da realidade sensível como inspiração para a produção de sua arte, está fazendo uma cópia da cópia, o que certamente leva ao mais imperfeito, já que mais afastado do mundo das ideias que as coisas no mundo sensível. “Se o poeta tivesse conhecimento profundo a respeito das coisas que imita, não produziria simulacros, mas se dedicaria à produção das próprias coisas”. (MOURA, 1998, p. 207).

O que está em jogo aqui é o governo do corpo. Influenciada pelo contato com as religiões órficas incorporadas pelos pitagóricos, a filosofia platônica guardou para si a ideia de que a alma deve governar o corpo. A imitação que  homem produz por meio da poesia e algumas outras artes favorece o conflito com a compreensão racional a realidade. A alma deve governar; se a razão, que deve buscar a verdadeira e ideal realidade, não for incentivada pelas artes, seu governo sobre o corpo se verá comprometido, já que se concentrará na cópia, no sensível, nas paixões, e não na razão.

Sobre o mito, devemos afirmar que há em nosso filósofo uma relação bastante paradoxal, já que ao mesmo tempo em que critica o mito, serve-se dele em vários de seus diálogos. O papel do mito é o de encantar por meio de suas narrativas os ouvintes, ficando a cargo da poesia o cativar por meio de tais histórias. O que está em xeque é a relação entre a imaginação e a razão pois, como vimos, a razão deve ser soberana sobre as realidades imperfeitas, incluída aqui a capacidade imaginativa.

Segundo o ideal de República, todas as coisas deveriam passar por uma espécie de crivo da filosofia, do rei filósofo, inclusive o ensino do mito. Analogamente ao exemplo que demos sobre a poesia, o mito deveria refletir a verdade dialética, nunca uma simulação da realidade sensível e irascível, para não incorrer em uma falsificação daquilo que em si já é uma realidade falsa. “A razão é capaz de providenciar os princípios da natureza e da história, mesmo que tais princípios sejam dados através do mito. Sendo assim, enquanto o conto histórico é um valor prático, o mito filosófico é uma diversão intelectual”. (EDELSTEIN apud MENEZES, 2018, p. 117).

De maneira geral, toda a crítica platônica, tanto à poesia quanto ao mito, se desenvolve sobre o pano de fundo da Polis ideal. Todas as coisas referentes às artes desse tipo deveriam estar à disposição da filosofia, para ser contestada, polida, e para que de forma alguma se dedique a reproduzir aquilo que já é uma reprodução de uma realidade ideal. A preocupação é, mais uma vez, a de dar a primazia à razão em detrimento do sentido.

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Autor: Daniel Ferreira Santos Júnior, estudante do 2° ano do Curso de Filosofia da FASBAM.

Referências:

ACHCAR, F. Platão contra a poesia. Revista USP, Dezembro-Janeiro-Fevereiro, 1990-1991. p. 151-158.
MENEZES, L. M. B. R. A função do mito em Platão. Fortaleza. Revista Argumentos, ano 10, n. 20, jul./dez. 2018. Disponível em: http://www.periodicos.ufc.br/argumentos/article/view/39793. Acesso em 12 mar. 2021.
MOURA, A. R. de. A poesia em Platão: A República e As Leis. Letras Clássicas, n. 2, p. 201-217, 1998.
PLATÃO. República. Rio de Janeiro: Best Seller, 2002.

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