Santo Tomás de Aquino e a vontade de Deus

Deus é amor. Nós lemos em cartões e ouvimos em casamentos. Deus é amor. O que isso poderia significar? Afinal, já vimos em posts passados que Deus é bom. O que acrescenta dizer que Ele é amor? Aqui descobrimos uma realidade tão bela quanto misteriosa.

Neste post, continuamos nossa discussão sobre os nomes ou atributos divinos. No último post, descrevemos como Deus tem um intelecto, ou talvez melhor, é o Seu intelecto. Aqui, vamos considerar a vontade de Deus e o amor que Ele tem por si mesmo e por Sua criação. Como Deus tem um intelecto, segue-se que Ele tem uma vontade. Vontade, em nossa experiência, é apenas desejo intelectual. Quando descobrimos algo bom para nós, somos inclinados a isso. Basicamente, como somos esse tipo de coisa, ou seja, um animal racional, somos atraídos por esses bens que nos aperfeiçoam. A faculdade que alcança os bens inteligíveis, chamamos de vontade. Com efeito, Deus não precisa de aperfeiçoamento, então não há desejo em Deus da maneira que existe no homem, mas ainda há um desdobramento espontâneo do intelecto na vontade. De uma maneira estranha, podemos dizer que a natureza de Deus se encaixa nEle para Si mesmo, e assim Ele gravita de acordo. Assim, sua vontade é expressa principalmente em seu amor por si mesmo.

Como vimos com Seu intelecto, a vontade de Deus é apenas o Seu ser. Deus é Sua existência, é Sua vontade, é Seu ato de querer, e é o objeto de Sua vontade. Mas Deus não se quer apenas como se não tivesse nada a ver com a criação. Ele também não fará a criação como algo separado de si mesmo. Antes, ele deseja todas as coisas, querendo a si mesmo. Deus, nós dissemos, conhece todas as maneiras diferentes pelas quais seu ser pode ser participado, e ele une sua vontade àquelas maneiras que deseja existir. Todavia, como Deus quer tudo o que é, isso torna tudo o que acontece necessário e predeterminado? Não, diz Santo Tomás. Sem dúvida, Deus deseja cada coisa que é, mas seu poder causal é tão rico que ele também deseja que cada coisa transpire de acordo com seus princípios adequados. Então Deus quer que as coisas necessárias aconteçam necessariamente e que as coisas contingentes aconteçam contingentemente. No nosso caso, isso significa que Deus deseja que a liberdade se desdobre livremente através do arbítrio das próprias pessoas.

Santo Tomás também ensina que a vontade de Deus não pode falhar. Deus não é apenas uma causa entre um emaranhado de outras causas. Antes, ele é uma causa universal e transcendente. Ele faz as coisas serem e causar, e todas as coisas são transparentes ao seu olhar. Sua causalidade explica perfeitamente a rede de causas criadas. Portanto, mesmo que uma causa específica falhe, ela não escapa à causa universal. O que pode parecer afastar-se da vontade divina em uma ordem retorna a ela em outra, como quando um pecador se afasta por transgressão e volta por punição. Ao falar sobre a vontade de Deus, é comum falar sobre vontade antecedente e consequente em Deus.

Santo Tomás descreve a vontade antecedente como a vontade de Deus, independentemente de circunstâncias particulares concretas. A consequente vontade leva em conta essas circunstâncias particulares concretas. A primeira não é eficaz. A segunda é. Aqui está uma ilustração que ele usa: Imagine um juiz. Ele deseja o bem comum dos cidadãos e o florescimento de cada cidadão. Agora, digamos que um determinado cidadão cometa um crime capital e que o juiz o condene à morte. Nesse caso, o juiz deseja antecipadamente que o homem viva e viva bem, mas, considerando que esse homem feriu o bem comum e a condenação justamente merecida, o juiz deseja, consequentemente, que ele seja morto. Então, dizemos que o juiz deseja a morte do homem? Não e sim. Ele não estava esperando ansiosamente pela oportunidade de matar o homem, nem aprecia a oportunidade uma vez que ela se apresenta. Em vez disso, ele ama o bem comum acima de tudo e de cada um deles como pertencente a esse bem comum. Quando o castigo é o caminho certo para expressar esse amor, é a vontade de Deus. Assim, Deus se ama acima de tudo e das criaturas como pertencentes ao bem divino, e o castigo é uma manifestação de seu amor. De fato, uma vez que Deus é sua vontade e como o amor é o primeiro movimento da vontade, segue-se que Deus é seu amor ou simplesmente Deus é amor.

Com efeito, já que Deus ama todas as coisas pelo mesmo ato da vontade que é sua essência, segue-se que Deus ama todas igualmente. Mas Deus também deseja dar a algumas pessoas dons maiores que outros, e assim dizemos que Deus ama algumas pessoas mais que outras, nesse sentido. Este é o mistério da predileção. Em sua sabedoria, Deus achou oportuno distribuir seus dons desigualmente para a manifestação de sua glória. Para alguns, ele dá mais. Pense aqui na natureza humana do Senhor, a Mãe Santíssima, ou São José. Para alguns, Ele dá menos. Para nossos propósitos, acreditamos que cada um é responsável pelo que Deus dá. Para alguns, cinco talentos e para alguns, um. Por fim, Deus tornará cada um deles tão santo quanto Ele deseja. Ele dá o que Ele ordena e Ele ordena o que Ele dá. Ao mesmo tempo, afirmamos que Deus é justo, pois Deus dá tudo o que é apropriado a cada um de acordo com sua natureza. A justiça de Deus, no entanto, é sustentada por sua misericórdia. Por misericórdia aqui, não queremos dizer que o coração de Deus se torna infeliz com o sofrimento dos outros, mas que ele trabalha para remover a fonte de nossa miséria.

De fato, as obras da justiça de Deus são baseadas na misericórdia, uma vez que nada é devido às criaturas, exceto pelo dom de Deus. Nossas únicas reivindicações sobre Deus são reivindicações baseadas no que ele nos deu pela primeira vez. E assim, nesse sentido, dizemos que sua misericórdia é o próprio padrão de sua justiça. No final, contemplamos constantemente o mistério de sua vontade, sabendo que ele é bom, que ele é amoroso, que ele é justo e que ele é misericordioso. Pois Deus é amor, e isso é uma realidade que supera nossos corações.

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Fonte: The Thomistic Institute.

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