A Solenidade de São Basílio Magno | Série: Conheça o seu Rito

“Ó nosso Pai Basílio, tu adquiriste as virtudes de todos os santos, a humildade de Moisés, o zelo de Elias, a profissão de Pedro e a teologia de João, o pedido incessante de Paulo…”

(Estrofe posterior da Solenidade de São Basílio).

No dia 1º de janeiro, no início do ano civil, nossa Igreja celebra a memória da morte de um dos maiores e mais notáveis Padres da Igreja e doutores da fé e legisladores monásticos – são Basílio Magno, arcebispo de Cesareia, na Capadócia, da Ásia Menor (329-379). Sua pessoa é com todo respeito extraordinária, nobre, ilustre e digna de louvor. Ele não era apenas um aristocrata por natureza, mas também um aristocrata em espírito, caráter, erudição e santidade. A marca de sua profunda fé, amor heroico a Deus e ao próximo, erudição e santidade está estampada em toda Igreja de Cristo, na vida monástica no Oriente e em nosso povo.

O autor francês, Jean Rivier, em sua obra São Basílio, bispo de Cesareia, diz: “São Basílio é uma das mais ilustres e renomadas figuras da antiga Igreja Grega. Os seus contemporâneos já tinha conferido sobre ele o título de “Magno”… ele é um asceta por chamado e um homem de ação por natureza… Sua regra se tornou o código da vida monástica no Oriente, assim como a Regra de são Bento no Ocidente… Ele é um asceta, bispo, orador, teólogo e estudioso. Ele, sem nenhuma dúvida, é a mais perfeita representação da Igreja de seus tempos… Sua vida era em completa harmonia com sua erudição ou para deixar mais claro, sua erudição não era nada mais que um reflexo de sua vida”.

Não é de se admirar que a santa Igreja justamente lhe deu o título de “O Grande”. Ele é verdadeiramente “Grande” especialmente em três áreas de sua vida: como um grande arcebispo da Igreja, como um grande legislador da vida monástica, e como um homem de grande santidade.

Basílio – Grande Arcebispo da Igreja

A primeira característica notável de são Basílio como um arcebispo era seu destemor em professar e difundir a santa fé contra os heréticos arianos que ferozmente perseguiram os verdadeiros seguidores de Cristo. O imperador Valente (364 – 379), batizado pelo bispo Ário, tornou-se um implacável apóstolo do arianismo. Entre as perseguições selvagens e desumanas dos bispos e dos fieis, Basílio sozinho se atreveu a se opor ao próprio imperador. Historiadores recordam o encontro de são Basílio com Modesto, o prefeito do pretório. Ele também era, com Valente, um leal ariano. Sob seu comando, 88 sacerdotes foram queimados em um barco no mar. Modesto convocou Basílio a se apresentar diante dele, e o recebeu da maneira mais insolente, nem mesmo se dirigiu a ele por seu título de bispo. Gritando-lhe veementemente, ele ameaçou Basílio com exílio, confisco, tortura e morte. A estas terríveis ameaças, são Basílio calmamente replicou: “Se existir algo mais, ameace-me com isso também, pois nenhuma dessas coisas que tu mencionaste podem me afetar”. Mais tarde, Modesto reportou esta conversa com Basílio ao imperador, dizendo: “Meu senhor, nós fomos atropelados pela cabeça desta igreja. O homem é superior às ameaças, surdo para argumentos, incapaz de persuasão”. Após outras tentativas infrutíferas para persuadir Basílio, o imperador finalmente cessou de provocá-lo”.

Da profunda fé de Basílio nasceu outro traço notável dele – seu amor sacrifical a Deus e ao próximo. Sacrifício é a linguagem do amor. Em Basílio, esta linguagem de sacrifício era muito forte, eloquente e ativa. Seu amor, sempre vigilante, sensitivo, aberto e abrangente o impeliu de estar para assistir qualquer amigo ou inimigo. Para os necessitados, os idosos, os doentes, os marginalizados, os órfãos e as viúvas, ele formou uma grande instituição caritativa, na verdade, uma cidade separada próxima a Cesareia; em sua honra, ela era chamada de “Basilíade”.

Basílio sacrificou todos os seus grandes talentos, erudição, energia e saúde para o bem-estar de seu rebanho. De todo o jeito possível ele defendeu seu povo contra os ataques dos arianos, usando dos meios disponíveis. Seu amigo, Gregório de Nazianzo, mencionou isso em sua oração fúnebre sobre são Basílio: “Basílio visitava alguns, enviava mensagens a outros, e convocava ainda outros; ele admoestava, reprovava, censurava, ameaçava e repreendia; ele assumia a defesa de nações, cidades e indivíduos; ele forçava todo tipo de libertação…”[1].

São Basílio era um zeloso apóstolo da Palavra de Deus, isto é, da pregação. Em seu tempo, sermões eram muito importantes e poderosos porque eles eram praticamente o único meio de instruir o povo na santa fé. Pela graça de Deus, Basílio era um orador eloquente. Seu discurso era fervoroso, ardente e comovente. Santo Efrém, o Sírio, relata que ele foi para Cesareia visitar são Basílio e, entrando na igreja onde Basílio estava pregando, ele viu uma pomba branca pairando sobre o ombro de são Basílio. Nesta visão, ele exclamou: “Grande sois Vós, Deus, em vossa verdade. Basílio é uma coluna de fogo através de cujos lábios o Espírito Santo fala”. A coluna de fogo simboliza o amor heroico de Basílio a Deus e ao próximo. Por esta razão, ela foi adotada como símbolo de seus filhos, membros da Ordem de São Basílio Magno, comumente conhecidos como basilianos.

São Basílio Magno era também um mestre e apóstolo da palavra escrita. Embora sua vida tenha sido curta, ele a organizou para produzir uma variedade surpreendente de obras. Obras dogmáticas, morais, ascéticas e polêmicas, comentários sobre a Sagrada Escritura, e 366 cartas constituem seu legado espiritual.

São Basílio – O Grande Legislador da Vida Monástica

Outra área de atividade em que são Basílio revelou sua grandiosidade como um insuperável organizador e legislador é o monasticismo. Seu nome está para sempre inscrito na história das comunidades monásticas, nas regras monásticas e na doutrina do asceticismo, não apenas na Igreja Oriental, mas também em toda a Igreja Católica. São Teodoro, o Estudita (759-826), chamou são Basílio de “o pai do monasticismo grego e o primeiro de todos os Padres”. O pai do monasticismo ocidental, são Bento (480-543), conhecia suas regras monásticas e se beneficiou delas, ordenando em sua própria Regra que a Regra de são Basílio também fosse lida.

“De todos os serviços prestados por são Basílio para a causa do monasticismo”, diz W. L. Clark, “a introdução da vida comum é um dos quais ele mais merece ser lembrado… Os mosteiros pacomianos eram cenobíticos apenas em aparência externa; a essência interior deles era individualista. Basílio fez do cenobitismo uma realidade… Ele deve ser lembrado como um pioneiro no trabalho pelo ideal da vida comum”[2].

De acordo com são Basílio, o objetivo da vida monástica não é apenas a salvação pessoal, mas também a salvação do próximo. Para os monges de são Basílio, realizar trabalho apostólico fora do mosteiro não é uma exceção, mas uma regra. De acordo com ele, o amor ao próximo é a medida do amor a Deus.

As Regras monásticas de são Basílio foram o resultado de seu profundo conhecimento das Sagradas Escrituras, sua grande erudição, sua larga experiência de vida, sua santidade sincera e eminente exercício da mente. Suas regras são, na verdade, a realidade vivida dos Santos Evangelhos. São Teodoro, o Estudita, o grande venerador de são Basílio e restaurador de suas regras, fala dele assim: “Quem quer que siga são Basílio, segue o Espírito Santo, e quem quer que não tenha fé nele, não tem fé em Cristo que fala através dele”. O venerável metropolita Andrey, nos dá a seguinte avaliação das Regras de são Basílio: “Após o Evangelho de Jesus Cristo e os ensinamentos dos apóstolos, não existe outro livro oficial para os monges como as Regras de nosso santo Padre, são Basílio”.

Pelas suas regras, são Basílio lançou o último fundamento para a vida comum em um mosteiro; consequentemente, alguns historiadores o consideram como o verdadeiro criador da vida comunitária, mesmo que este título de primeiro organizador seja atribuído a são Pacômio (m. 347). Não é de se admirar que as Regras monásticas de são Basílio sobreviveram às várias vicissitudes da história e tenham permanecidas até hoje como a regra oficial do monasticismo oriental.

O monasticismo apareceu na Rus’-Ucrânia simultaneamente com a vinda do cristianismo. Os fundadores da vida monástica na Rus’-Ucrânia foram dois grandes ascetas e filhos da Ucrânia – santo Antônio (m. 1073) e são Teodósio (m. 1074) Pechersky. Como fundamento da vida monástica, são Teodósio usou a Regra de são Teodoro, o Estudita, que é baseada nas Regras de são Basílio Magno.

O mais belo louvor em respeito às Regras monásticas de são Basílio foi expresso por um de seus maiores filhos espirituais, o metropolita Andrey Sheptytskyy: “Os santos de nossa Ordem Basiliana se modelaram à sua regra. Suas regras foram a escola para todo um número incontável de santos – desde são João Damasceno, são Máximo e são Teodoro, o Estudita, até os santos Antônio e Teodósio Pechersky e são Josafat, que destas regras desenhou estre grande espírito como qual ele renovou nossa Igreja e nosso povo”[3].

No tempo da União de Brest, o ideal do monge-apóstolo no espírito da tradição basiliana foi mais uma vez revivido e começou a brilhar na Ucrânia. O metropolita Veliamin Rutskyy e são Josafat foram os grandes reformadores e organizadores da vida monástica em nossa Igreja Uniata. Após a padronização das ordens monásticas ocidentais, eles trouxeram sobre uma completa centralização de nossos mosteiros, usando as Regras de são Basílio Magno como base da vida monástica. Desde aquele tempo, o trabalho da Ordem tem conhecido três áreas específicas: trabalho pastoral e missionário, educação, e publicações.

Embora o Comunismo Russo tenha suprimido brutalmente a Ordem Basiliana na Ucrânia, mesmo assim, a Ordem não pereceu. Ela ainda vive hoje e seus membros estão continuando seu trabalho pastoral como missionários, educadores e editores entre os nosso fieis que estão em diversos países.

São Basílio – Um Grande Santo

O historiador alemão, Hans von Kampenhausen, tratando de são Basílio, diz: “Basílio é um corpo e uma alma ascética. Asceticismo austero é o elemento no qual ele trabalha espiritualidade, vive e existe”[4]. De acordo com a expressão de são Basílio, “os monges são aqueles que lutam pela santidade”. Na introdução para suas Regras Extensas, ele diz: “Vós e eu, temos o mesmo objetivo – santidade de vida”. Como ele pensou, assim ele viveu. Magnanimamente, vontade intransigente, inocência angélica e amor sacrifical a Deus e ao próximo – estas eram as marcas distintivas do caráter de Basílio. “Quando são Basílio decidia uma vez sobre algo”, diz o autor francês, P. Humberclaude, “ele seguia até o fim… Assim ele permaneceu até o fim de sua vida… Esta característica se tornou evidente em seu asceticismo”[5]. O historiador britânico, F. Farrar, relembra: “Basílio não pertencia àqueles que faziam coisas pela metade. Quando ele se consagrou a Deus, ele o fez sem reservas”[6].

Sua santidade, virtudes e grandiosidade são exaltadas por nossa Igreja em seus serviços em honra de sua solenidade. Aqui ele é louvado como “a santa língua de Cristo”, “o pastor da Igreja de Cristo”, “a divina e santa abelha da Igreja de Cristo”, “ornamento defensor da Trindade”. Em relação a ele, a liturgia proclama: “Tu caminhaste na estrada irregular das virtudes”, “tua palavra é o pão angélico”, “tu és um cálice de inocência”, “para os monges um modelo de virtude”, “uma luz de piedade”, e uma “trombeta de teologia”.

Imediatamente após a morte de Basílio, a santa Igreja começou a venerá-lo como um santo e a celebrar o dia de sua morte no dia 1º de janeiro. O historiador T. Rufino (m. 410), que dezoito anos após a morte de são Basílio traduziu suas Regras para o latim, em uma carta acompanhando a tradução intitulava Basílio como um santo: “Eu traduzi”, diz ele, “as Regras monásticas de são Basílio, arcebispo da Capadócia, um homem renomado por sua fé, obras e todo tipo de santidade”.

Por causa da solenidade de Maria, Mãe de Deus, que é celebrada no dia 1º de janeiro, a Igreja Latina celebra a memória de são Basílio no dia 02 de janeiro. O serviço eclesiástico em honra de são Basílio foi composto por Anatólio de Constantinopla (séc. V), são João Damasceno e Germano de Constantinopla (séc. VIII).

Assim, nós temos brevemente descrito uma silhueta da imortal figura de são Basílio Magno e sua eterna importância para nossa Igreja e o monasticismo ucraniano. Com as palavras de são Paulo, “Irmãos, sede meus imitadores assim como eu sou de Cristo”[7], são Basílio nos convoca também a imitar sua profunda fé, seu sacrifical e vasto amor a Deus e ao próximo, e sua grande santidade.

[1] Gregório de Nazianzo. 43Eulógio em honra de São Basílio Magno.

[2] CLARK, W. L. São Basílio Magno.

[3] SHEPTYTSKYY, Andrey. Introdução para Uma Instrução das Regras de Nosso Santo Padre Basílio Magno para Monjas.

[4] KAMPENHAUSEN, Hans von. Os Padres Gregos da Igreja.

[5] HUMBERCLAUDE, P. Ensinamento Ascético de São Basílio.

[6] FARRAR, F. Vidas dos Santos.

[7] 1Cor 11.

Fonte: KATRIY, Yulian Yakiv. Conheça o seu rito: o ano litúrgico da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Roma: PP. Basiliani, 1982.

Pe. Yulian Yakiv Katriy, OSBM
(1912 - 2000) Doutor em Filosofia e autor de diversos livros.

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