O que significa o termo “Divina Liturgia”?

Muitas vezes, o nome de uma coisa expressa sua natureza e essência. Assim é com o termo Divina Liturgia.

A expressão Divina Liturgia[1] é derivado das palavras gregas theia, que significa “de ou pertencente a Deus,” consequentemente “divina,” e leiturghia, significa “serviço público.” Juntas, elas significam “serviço público divino”. A palavra leiturghia se encontra primeiro nos clássicos gregos. Os antigos gregos entenderam esta palavra para denotar qualquer serviço realizado ao Estado por um cidadão para o bem-estar geral das pessoas ou público. A primeira parte da palavra leiturghia etimologicamente vem de leitos, significando “público” e a segunda parte decorre de ergon, significando “dever, ação, ato, função ou serviço.” A palavra, então, referia a todos aqueles atos ou serviços que eram executados para o benefício ou bem-estar do público geral, como por exemplo, serviço militar, serviços públicos oficiais e todos os outros serviços realizados sobre o interesse comum do Estado. É também implícito que tais coisas como o pagamento de impostos, a defesa do Estado, contra-ataque inimigo, assim como os serviços oferecidos aos deuses, especialmente na forma de sacrifício.

Foi neste último significado que a palavra achou seu sentido dentro do vocabulário cristão. Mesmo no Antigo Testamento, os serviços ou as funções do sacerdote no templo eram denominadas liturgias[2]. A palavra “liturgia” manteve este significado nos escritos do Novo Testamento (Hb 8:6; 9:21). Significava a oferta de sacrifícios. Mais uma vez se encontra a palavra sendo usada em um senso religioso nas obras dos Padres e em documentos da Igreja. Pelo quarto século, a palavra “liturgia” se tornou o termo técnico para o Sacrifício Eucarístico ou a Divina Liturgia[3].

Mas por que a Divina Liturgia é chamada “divina”? Em qual senso a Divina Liturgia é um “serviço divino– o serviço de Deus? É o serviço das pessoas a Deus ou é o Serviço de Deus às pessoas? É, de fato os dois, mas é predominantemente o serviço prestado a Deus. A Divina Liturgia é um serviço prestado a Deus pelas pessoas porque “toda a comunidade” – sacerdote e fiéis – participa dela. A Divina Liturgia, então, é um serviço comunitário ou público em que Deus recebe suprema homenagem por meio de orações, canções e hinos, mas sobretudo na oferta do Sacrifício Incruento do Novo Testamento. A Divina Liturgia é também uma extensão do “serviço de Deus para as pessoas,” porque ela é um sacrifício, uma oferenda do Deus-Homem, Jesus Cristo, em reparação pelos pecados da humanidade.

Há também outros nomes para a Divina Liturgia, como “Mesa do Senhor,” “Fração do Pão,” “A Ceia do Senhor,” a “Santa Eucaristia,” etc. Este último nome geralmente e popularmente se refere a Santa Comunhão e, como um resultado, a “Divina Liturgia” neste uso é vista como um sacramento em vez de um sacrifício. Outras designações tem somente valor histórico[4] desde que elas têm caído em desuso.

Há uma diferença marcada entre as palavras “liturgia” e “Divina Liturgia.”[5] Embora elas sejam realmente relacionadas em sentido, livros litúrgicos atuais usam os dois termos indiscriminadamente e, como resultado, criam confusão.

Liturgistas entendem que a palavra “liturgia” significa não apenas o Sacrifício Eucarístico, que é, a Divina Liturgia, mas também um tipo de serviço sagrado executado na Igreja como as vésperas, matinas e, é claro, os sacramentos. Neste senso geral, “liturgia” engloba a totalidade das observâncias eclesiásticas oficiais: todos os ritos, cerimônias, orações e sacramentos da Igreja. Mas no sentindo menos extenso, “liturgia” é restrita ao Sacrifício Eucarístico, ou a “Divina Liturgia.” Embora se pode usar o termo “Sacrifício Eucarístico”, se usa geralmente o termo “Divina Liturgia” porque é o termo correto usado no Rito Bizantino, e porque se aplica exclusivamente ao Sacrifício Incruento e não aos outros serviços da Igreja.

[1] O termo do antigo eslavo para Divina Liturgia é Bozhestvenna Liturghia e o termo do ucraniano coloquial é Sluzjba Bozha. Uma vez que este livro trata da Liturgia Bizantina (Grega)-Eslava (Liturgia celebrada em solo eslavo, especialmente na Ucrânia), para consistência no uso da terminologia, dar-se-á primeiro a palavra grega, em seguida, o termo em eslavo e, finalmente, o coloquial ucraniano equivalente. Isto é para familiarizar o leitor com a nomenclatura peculiar para cada Rito (grego e eslavo-ucraniano).

[2] Ver a tradução grega da Bíblia, a Septuaginta (LXX) para o antigo uso desta palavra.

[3] P. Oppenheim, Institutiones systematico-historicae in sacram liturgiam, Vol. VI: Notiones liturgicae fundamentales (Taurini-Romae: 1941), pp. 1-16.

[4] J.M. Hanssens, Institutiones litrugicae de ritibus orientalibus (Romae: 1930), Vol. II, pp. 21-41 (De liturgico Missae nomine in ritibus orientalibus).

[5] Deve ser notado que a palavra “liturgia” escrita com “L” maiúsculo e precedido pelo artigo definido “a” é o equivalente para a palavra de Rito Latino “Missa”. A palavra “liturgia” escrita com “l” minúsculo é usada como substantivo e significa qualquer serviço público oficial da Igreja.

Fonte: SOLOVIY, Meletius M. Divina Liturgia: historia – evolutio – commentarium. Romae: PP. Basiliani, 1964. (Analecta OSBM).

Pe. Meletius M. Soloviy, OSBM
(1918-1984) Doutor em Ciências Teológicas Orientais, Escritor , Historiador, Liturgista e Professor

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