A Solenidade do Grande Mártir São Demétrio | Série: Conheça o seu Rito

“Venham todos vós, fiéis, e tendo se reunido, louvemos o lutador de Cristo e bravo luzeiro, Demétrio”

(Estrofe do Serviço das Vésperas).

São Clemente de Alexandria descreve a grandiosidade e a importância de um mártir nestas palavras: “um mártir dá um testemunho triplo, a si mesmo, pois ele permaneceu fiel a Deus por sua verdadeira lealdade à fé; segundo, contra os inimigos que o atacaram em vão, pois era inabalável no amor; e terceiro, ao Senhor, cujo ensinamento é tão poderoso que mesmo o medo da morte não pôde prevalecer sobre ele”.

A santa Igreja dos primeiros séculos do Cristianismo assegurou, e ainda assegura, os méritos dos mártires com grande estima. Ela os venera e os coloca diante de nós como exemplos de amor heroico a Deus e à profissão inabalável da santa fé. Alguns destes se distinguem de uma maneira singular por seu zelo e fortaleza em professar a santa fé, e pelos realizados por meio de sua intercessão, são relembrados após a morte em suas próprias solenidades durante o Ano Litúrgico. Um destes mártires é são Demétrio, sobre quem a Igreja concedeu o título de grande mártir e myrovletes (do grego: μυροβλήτης, que significa: o que exala mirra), pois de suas relíquias exalava mirra. Sua memória é recordada pela Igreja Oriental no dia 26 de outubro, a pela Igreja Latina no dia 8 de outubro.

Martírio e Glória de São Demétrio

São Demétrio viveu na segunda metade do século III na cidade de Salonica (do nome grego Tessalônica), onde o seu pai era um alto oficial do império. Após a morte de seu pai, o imperador Maximiano o fez procônsul de Salonica. Desde a infância, são Demétrio foi educado na fé cristã. Embora ele tenha ocupado um alto posto, ele professava a sua fé abertamente. Por esta razão, o imperador Maximiano ordenou que ele fosse atirado na prisão. Enquanto ele estava na prisão, ele abençoou seu companheiro Nestor para uma batalha contra o gladiador campeão do imperador, Lieu. Segurando a cruz em sua mão, são Nestor confrontou Lieu, venceu, e o matou. O imperador, tendo ouvido que Demétrio havia abençoado Nestor antes de seu combate com Lieu, enviou soldados para a prisão onde eles golpearam Demétrio até a morte. Isto ocorreu no ano 306. A Igreja Oriental celebra a memória de são Nestor no dia posterior a solenidade de são Demétrio.

O Senhor glorificou a fé heroica de são Demétrio não apenas pelos numerosos milagres após a sua morte, mas também por preservar seu incorrupto corpo e por deixar exalar fragrância de mirra de suas relíquias. Quando passou, aproximadamente cem anos da sua morte, sua tumba foi aberta, seu corpo foi encontrado incorrupto, e os doentes eram curados pelo óleo perfumado que gotejava de seus ossos.

O Culto ao Grande Mártir Demétrio

O dom de milagres, a preservação do seu corpo da corrupção, e o exalar de óleo de mirra de seu corpo se tornaram o fundamento para um culto amplamente disseminado de são Demétrio, não apenas na Grécia, mas também entre os eslavos. Peregrinos de todos os lugares se juntavam em centenas e milhares em sua tumba, observando-o como um auxílio infalível em todas as suas necessidades. Por ter abençoado Nestor antes do combate, ele é considerado como o patrono dos soldados. No século V, uma gloriosa igreja foi erigida sobre sua tumba. A medida que este culto se espalhava entre os eslavos, era evidente o fato de que nos países dos Balcãs havia mais de 200 igrejas dedicadas a são Demétrio.

O culto a são Demétrio encontrou seu caminho em terras ucranianas ao longo do cristianismo. Pe. Andrey Truch, OSBM, em sua Vida dos Santos, escreve sobre este culto: “na Rus’-Ucrânia, o mártir são Demétrio desfrutou de grande popularidade. O que ocasionou esta grande honra prestada a são Demétrio foi o cerco de Constantinopla pelo príncipe ucraniano, Oleh. O cronista, Nestor, menciona que quando os exércitos da Rus’-Ucrânia destruíram as forças gregas. Os gregos estavam aterrorizados e diziam: ‘não é Oleh, mas são Demétrio que foi enviado contra nós por Deus’. Mais tarde, quando a fé cristã se espalhou entre o nosso povo, os príncipes e seus exércitos e todos os fiéis confiavam a si mesmos sob a proteção de são Demétrio”[1].

O príncipe Iziaslav I fundou um mosteiro em Kyiv por volta do ano 1057 e o dedicou à memória de são Demétrio. Em 1197, o grande príncipe Vsevolod III (m. 1212) recebeu uma camisa de são Demétrio e uma tábua de seu caixão como presente de Salonica. Os doentes eram curados pelo óleo que infiltrava da tábua. Este príncipe construiu no Tribunal do Príncipe Volodymyr uma magnificente igreja dedicada a são Demétrio, onde estas relíquias eram preservadas. Em terras ucranianas havia inúmeras igrejas dedicadas ao seu nome.

A solenidade de são Demétrio pertence a classe intermediária das solenidades, mas não são obrigatórias. Associado a esta solenidade é a memória de um terremoto que ocorreu em Constantinopla no dia 26 de outubro de 740. No serviço deste dia, a santa Igreja coloca diante dos olhos dos fiéis a sua fé heroica e suas diversas virtudes. Ela o apresenta como um bravo soldado de Cristo e confessor, um realizador de milagres que cura as doenças do corpo e da alma, e que ajuda em todas as necessidades: “mártir são Demétrio”, nós cantamos nas estrofes das Vésperas, “teus milagres iluminam o mundo como o sol. Por isso, todos nós estamos repletos de alegria na memória de teus milagres, Bem-Aventurado…”. E na quinta ode do cânon do serviço das Matinas, nós lemos: “aqueles que sinceramente se apressam para tua Igreja com fé, Demétrio, são rapidamente livres das doenças e sofrimentos espirituais”.

São Demétrio intercede a Deus por nós: “hoje nós estamos devotamente celebrando a solenidade de Demétrio, o mártir, que reza incessantemente a Cristo para que Ele conceda a todos paz e misericórdia”, diz o hino sessional das Matinas. “Tu és para nós”, nós lemos nas estrofes posteriores do serviço das Vésperas, “um benfeitor de inúmeros dons, Embaixador do Senhor, pois tu cumpres todos os nossos pedidos”.

São Demétrio não é apenas um realizador de milagres e intercessor nos céus, mas também um dos quais os ossos exalam óleo de mirra miraculoso. Nós lemos na primeira ode do cânon das Matinas: “Demétrio, tu que és uma fonte de mirra pura e perfumada, limpai meu coração de todas as paixões repugnantes, e pela prática da virtude, faze-me perfumado como o perfume da piedade, e minha nobre mente levanta, para que eu possa cantar louvores em honra dos teus divinos dons”.

São Demétrio – Nosso Modelo e Intercessor

O principal motivo para a celebração das solenidades dos santos mártires é de meditar e admirar suas heroicas profissões da santa fé, e para aprender deles a amar a nossa fé, cuidá-la, praticá-la e, corajosamente, professá-la. A profissão externa de fé é a marca de um cristão bom e praticante. Um bom cristão nunca esconde sua fé, não a tem com vergonha, não a nega, permuta-a, ou a muda, mas abertamente e bravamente a professa por palavras e obras. Cristo demanda tal fé de cada um de nós. Ele mesmo nos disse: “Todo aquele, portanto, que se declarar por mim diante dos homens, também eu me declararei por ele diante de meu Pai que está nos Céus. Aquele, porém, que me renegar diante dos homens, também o renegarei diante de meu Pai que está nos Céus”[2].

Cada ato de toda a nossa vida deve ser uma homilia sobre a nossa própria fé. “A profissão de fé”, diz são João Crisóstomo, “é expressa não apenas em palavras, mas também em ações. Quando elas são ausentes, então nós estamos expostos ao perigo de sermos punidos adiante com aqueles que tem negado a sua fé”.

A santa Igreja deseja e fortemente recomenda que nós não apenas imitemos os santos, mas também que recorramos a eles em assuntos de corpo e alma. Ela espera sem dizer que o Senhor Deus alegremente ouve os pedidos daqueles que, por Sua causa, derramam seu sangue e oferecem suas vidas por Ele. O Bem-Aventurado metropolita Andrey Sheptytskyy, diz: “quem quer que recorra com grande fé a um mártir, pode esperar pela intercessão dele qualquer coisa de Deus. Teodoreto de Cirro lista em detalhes os vários dons que alguém pode esperar pela intercessão e um mártir: saúde, progênie, jornadas de sucesso, e curas de vários tipos. A este respeito, ‘provar que a oração oferecida com fé ouvida’, ele escreve, ‘são aqueles sacrifícios votivos que testemunham as várias curas. Aqueles sacrifícios votivos representam olhos, pés, mãos, de ouro ou de prata, bem como os sacrifícios mais simples e modestos, de acordo com os meios do proponente. Estes objetos são evidência de curas recebidos pelos doadores a partir da força da intercessão de um mártir’. O ciclo do Ano Litúrgico claramente nos apresenta toda a história da Igreja – desde os santos Inocentes sacrificados por Herodes por causa de Cristo e o grande protomártir Estêvão até aqueles que estabeleceram suas vidas pelos santos ícones e até mesmo o nosso mártir, são Josafat, arcebispo de Polotsk”[3].

[1] TRUCH, Andrey. Vida dos Santos. v. IV, p. 106.

[2] Mt 10,32-33.

[3] SHEPTYTSKYY, Andrey. Sobre a Veneração dos Santos, 1941.

Fonte: KATRIY, Yulian Yakiv. Conheça o seu rito: o ano litúrgico da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Roma: PP. Basiliani, 1982.

Pe. Yulian Yakiv Katriy, OSBM
(1912 - 2000) Doutor em Filosofia e autor de diversos livros.

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