Filosofia da religião e o argumento ontológico de Santo Anselmo

A filosofia da religião muitas vezes é confundida com a teologia, o que faz sentido, porque ambas têm Deus e a religião como seus objetos de estudo. Mas a teologia parte do pressuposto que Deus existe, e então dá prosseguimento à reflexão. Ou a teologia pode tentar solucionar problemas filosóficos que podem surgir da crença em Deus. Mas uma coisa que nunca é discutida na teologia é simplesmente não acreditar em Deus. O ateísmo não é uma opção. É isso o que separa o estudo filosófico da religião do estudo teológico.

Os filósofos não tomam nada como dado – e isso inclui a própria crença. Tudo é passível de ser discutido, e tudo pode ser discutido. Então, nenhuma área da crença é sagrada, e isso significa mesmo que suas crenças sagradas precisam ser examinadas, e evidências precisam ser apresentadas. Algumas pessoas dizem que a religião é a única área que não precisa de argumentos – que a fé é suficiente. Mas os filósofos não aceitam a fé como uma resposta. Afinal, eu posso ter a crença que a Lua é feita de queijo verde, e daí?! Fé é, por tradução, não-provável, o que a torna, de uma perspectiva filosófica, sem valor. Então, se você é um teísta, agora é a hora de oferecer alguma justificativa às suas crenças religiosas. E se você é um ateísta, é hora de você prestar atenção também. Ninguém está fora do gancho – todos precisamos prestar atenção a esses argumentos, porque religião é muito importante. Você imagina quantas coisas influenciaram a formação da história mais que as crenças religiosas? Provavelmente não. Então se podemos chegar ao fundo disso, nós devíamos. Chegaremos a Deus em um minuto.

Mas antes queremos apresentar algumas coisas que a filosofia da religião não é: não é sobre acreditar em qualquer coisa que seus pais disseram pra acreditar. Porque isso não prova nada sobre a verdade das crenças religiosas. Se a forma como você foi criado provasse algo sobre as verdades da religião, então todas as religiões – e portanto nenhuma – seriam verdadeiras. Então, como você foi criado pode te dar as razões pelas quais você mantém certas crenças, mas não diz nada sobre o que é essa verdade. Filosofia da religião também não é o estudo da Bíblia, porque você não pode usar o que está escrito num livro para provar a verdade do livro. Você precisa de evidência externas. Também há toda uma área de estudo voltada a entender a Bíblia considerando o tempo e lugar que ela foi escrita. E tais estudos podem ser de muita ajuda em entender certas coisas sobre religião. Mas não ajuda aqui! Filosofia da religião também não é antropologia da religião, sociologia da religião ou compreensão psicológica das suas razões para crenças religiosas. São todas coisas maravilhosas que você pode e deve estudar, mas não são o que estamos estudando aqui. O que estamos fazendo é se podemos oferecer argumentos que suportem as crenças na existência de Deus.

E há muito tempo havia um homem que argumentava que a existência de Deus pode ser provada. O monge do século XI Anselmo de Aosta. Ele ofereceu um argumento dedutivo para a existência de Deus, baseado no que ele entendia ser a natureza do ser Deus, ou a definição de Deus. Devido ao estudo do “ser” ser chamado de ontologia, esse argumento, e outros como ele são chamados de argumentos ontológicos. Com efeito, como você acha que Deus é? Barba branca e longa, túnica pra combinar? Cara legal, difícil de atender o telefone? Bem, Anselmo mirou um pouco mais alto. Na verdade, ele pensou que Deus, por definição, é a melhor coisa que podemos imaginar. A MELHOR COISA. Tente imaginar a coisa mais legal, incrível, mais espantosa e maravilhosa que puder. Seja lá o que for, Anselmo diz que Deus é melhor. Ele simplesmente é o melhor. Nas palavras de Anselmo: Deus é “o que nada maior pode ser concebido”. Mas o que isso quer dizer? Bom, significa que Deus deve existir, de acordo com Anselmo. Afinal, ele aponta, só há duas maneiras para algo existir. Algo está apenas na nossa mente e é somente imaginário – tipo o Papai Noel e os unicórnios. Ou pode existir em nossas mentes, mas também na realidade, que nem pizza e cavalos – algo que podemos imaginar, mas que também é real. Anselmo aponta – e não parece estar certo sobre isso – que qualquer coisa boa seria melhor se existisse na realidade e também em nossas mentes. Quer dizer: unicórnios. Eles são bem legais, mas não seriam melhores se existissem? Ou o parceiro romântico perfeito: inteligente, engraçado, que gostasse dos mesmo filmes e jogos que você. Muito rico? Seria muito legal na sua cabeça, mas AINDA MELHOR se existisse mesmo. Bem, Anselmo também achou. E daí, ele acreditou que poderia provar a existência de Deus. Porque, se definimos Deus como a melhor coisa que podemos invocar na nossa mente, a única coisa que poderia ser melhor que ele seria… uma versão real! E desde que imaginemos a melhor coisa possível, não pode haver nada melhor. Portanto, Deus tem que existir, tanto na minha imaginação quanto na realidade.

Anselmo tinha certeza de ter conseguido – dedutivamente provado a existência de Deus de forma imune ao erro. Aqui, uma vez mais, vamos colocar como um argumento filosófico: Deus é a melhor coisa que podemos pensar. Coisas podem existir apenas na nossa imaginação ou também pode existir na realidade. Coisas que existem na realidade são sempre melhores que as que existem apenas em nossa imaginação. Se Deus existe apenas na nossa imaginação, ele não seria a melhor coisa que poderíamos imaginar, porque Deus, na verdade não é a melhor coisa. Portanto, Deus deve existir na realidade. Anselmo pensou que fosse um argumentozinho bem construído. Mas um de seus contemporâneos, um colega monge chamado Gaunilo, não estava satisfeito. Ele sugeriu que poderíamos usar a mesma linha de raciocínio para provar a existência de, literalmente, qualquer coisa que imaginássemos. Ele surgiu como um argumento com a mesma estrutura dos de Anselmo, para provar que a mítica Ilha Perdida existia. Ele propôs: A melhor ilha que posso imagina é a que eu posso nadar e relaxar numa praia tropical e esquiar em montanhas cobertas de neve tudo numa só tarde. Eu posso imaginar, então deve existir. De outra forma, não seria a melhor ilha – haveria uma ilha melhor e essa deveria ser real! Basicamente, disse Gaunilo, você pode fazer o mesmo tipo de argumento para provar a existência do que você mais desejar – mas isso não a fará real. Anselmo respondeu às críticas de Gaunilo dizendo que ele perdeu o foco, que o argumento só funciona para seres necessários, o que só há um – Deus.

O que temos aqui é um clássico exemplo de falácia conhecida como “apelo ao motivo”. Uma falácia é uma falha em raciocinar, algo que enfraquece ou destrói o argumento. E quando você “apela ao motivo”, você assume o que está tentando provar com seu argumento. Adicionando essa ideia de “ser necessário” à sua definição de Deus, Anselmo fez a existência de Deus parte da definição de Deus. Um ser necessário é aquele que deve existir, então a resposta de Anselmo assumiu como verdade o próprio ponto questionado – que Deus existe! Outros filósofos depois de Anselmo tentaram salvar seu argumento ajustando-o de várias maneiras, e os dissidentes continuam tentando esvaziá-los. Uma das mais famosas objeções veio centenas de anos depois do tempo de Anselmo, no século XVIII pelo filósofo alemão Immanuel Kant. Kant trouxe um argumento que apontava, como ele mesmo colocava, “existência não é um atributo”. Um atributo é apenas algo que se diz sobre outro objeto. E Kant pensou que o erro de Anselmo foi pensar que a existência é algo que se pode atribuir à uma coisa, ou ser usada como característica definidora. Por exemplo, se um triângulo existe, são necessários 3 lados. Mas pode ser que não exista nenhum triângulo. Porque a ideia de existência não é parte de como definimos um triângulo. Da mesma forma, diria Kant, se Deus existe, então ele deve ser a melhor coisa que podemos imaginar – mas isso não significa que ele existe. Atributos somam à essência do assunto, explica Kant, mas não podem ser usados para provar sua existência.

O filósofo britânico John Wisdom surgiu com um exercício de pensamento que parece muito com um debate sobre o argumento ontológico. É chamado de A Parábola do Jardineiro Invisível. Ou seja, a pessoa A e pessoa B voltam a um jardim depois de muito tempo e percebem que algumas plantas ainda prosperam. Pessoa A diz que um jardineiro deve ter cuidado do jardim enquanto estávamos fora. Pessoa B duvida que seja verdade, então eles combinam de esperar e ver se o jardineiro aparece. Depois de passado um tempo, eles não veem ninguém, então a pessoa A diz que o jardineiro deve ser invisível. Então eles colocam armadilhas e trazem cães de caça para pegá-lo. Quando ninguém é encontrado, pessoa A diz que o jardineiro deve ser intangível e a pessoa B diz questiona qual a diferença entre um jardineiro invisível, intangível, inteiramente indetectável e… nenhum jardineiro? Pois bem, podemos imaginar do que A e B estavam falando? Para dar uma ideia de quão longo é esse vai-e-vem entre os filósofos – tentando provar ou não a existência de Deus – John Wisdom surgiu com sua parábola em 1944… mais ou menos 1000 anos depois de Anselmo e Gaunilo.

Hoje você pode dizer que conheceu uma nova área da filosofia – a filosofia da religião. E aprendeu sobre os argumentos de Anselmo para a existência de Deus, enquanto consideramos algumas objeções a esses argumentos. Um ponto importante a se notar aqui é que ambos, Gaunilo e Kant concordavam como a conclusão de Anselmo – eles também acreditavam na existência de Deus. Eles apenas achavam que o argumento de Anselmo não a provava. Então, lembre-se, você pode pensar nas falhas de um argumento, mesmo que você aceite suas conclusões. Quando isso acontece, você deve procurar por argumentos melhores em favor da sua conclusão. Isso é exatamente o que Tomás de Aquino fez, mas isso é assunto para outro artigo. Bons estudos!

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