A relação de reciprocidade entre a arte e a filosofia

A arte, como um dos campos dos quais a filosofia se dedica, por si própria possui sua autonomia conceitual, bem como uma logística de aplicação. No cotidiano, ao se deparar com as mais variadas expressões artísticas, a pessoa produz uma série de pensamentos – o que a aproxima de sua dimensão filosófica. Isso pode significar a influência que aquilo que é observado exerce sobre o homem. Do ponto de vista interativo, filosofia e arte se entrelaçam reciprocamente, ao passo que podem ser elaborados raciocínios a partir de uma construção artística. Conquanto, existem diferenças substanciais entre elas que devem ser notadas. Se há uma superioridade de uma sobre outra é complexo dizer, ainda que alguns filósofos dissertem, em alguns momentos, sobre os aspectos super valorativos de apenas uma.

Na história da filosofia formularam-se inúmeras posições de pensadores clássicos sobre a arte. Platão, por exemplo, diz dela como uma espécie de falsificação da realidade, ou, ainda, de uma imitação, como a criação de um simulacro. Isto é, se a realidade sensível já é uma imperfeição quando comparada às realidades eternas do mundo das ideias, quanto mais àquela construída pela arte, que formaria uma terceira dimensão. A diferença entre a filosofia e a arte está no tipo de leitura, na abordagem que cada uma faz, à sua maneira, da realidade. Por outros termos, as posições que cada uma toma, frente a determinado assunto, se divergem no estilo e no objetivo. Enquanto uma exerce, por formas, cores e outros instrumentos uma elaborada ilustração, a outra procura sistematizar sua investigação que passa pelo viés da racionalidade.

Dizer sobre o conceito de arte já é uma atitude de caráter investigativo-filosófico; ou seja, pensa-se a arte a partir de um julgamento do que ela seja, o que é genuinamente filosófico. Todavia, mesmo que sob essa ótica, podemos atribuir-lhe caracteres específicos, que descrevem sua identidade. Grosso modo, a arte é uma atuação humana conectada a uma manifestação de cunho estético. Em outras palavras, é uma produção realizada na intenção de ilustrar um estado interno do artista. No que diz respeito à filosofia, os estudos da arte se relacionam, inicialmente, com a poética e, depois, com as noções do belo, próprias da argumentação estética. Enquanto poesis significa uma fabricação, aesthesis – que origina estética – diz de uma experiência sensorial[1]. Em ambos os termos, a produção é fruto das observações do homem no movimento de inflexão aos seus pensamentos – o que o aproxima de uma conduta filosófica.

O filósofo Friedrich Nietzsche fala sobre a vontade de poder na arte. Diz na passagem 822: “nós temos a arte para não sucumbirmos junto à verdade”[2] – em outras traduções encontramos a realidade como sinônimo de verdade. Diz ainda, na mesma obra, sobre o nascimento da tragédia: “Ela é a grande possibilitadora da vida, a grande sedutora para a vida, o grande estimulante da vida…”[3]. Isso nos remete ao método como um artista deve realizar seu trabalho, inspirado pela pulsão de vida. Ainda que com semelhante objetivo da filosofia – estabelecer uma explicação da realidade – o artista utiliza-se da realidade sensível, vista como em Nietzsche, e cria, a partir de suas percepções sensoriais, uma realidade paralela. Isto é, o método artístico, ainda nesse ínterim explicativo, tem por objetivo dar vida a uma realidade mais sedutora, mais estimulante, capaz de trazer mais leveza àquela palpável. No pensamento nietzschiano, a arte é uma vontade de potência de afirmação da vida, que chega a um estado de delírio e embriaga aquele que dela se serve.

Schopenhauer fala que a intenção da arte é exprimir a ideia[4]. Isto é, consiste numa tentativa de materializar, numa criação artística, as realidades ideias. A diferença está, para ele, no grau da “objetivação da vontade” [5]. Significa dizer que, diante de um objeto real, o artista tem o impulso de codificar aquela aparência pela criação de outra; ele busca objetivar a sua subjetividade, projetar-se para além de si, por meio de sua produção. Por esse prisma, nos é possível sugerir que frente às mais diversas produções artísticas aquele que contempla está na verdade diante da alma do artista. Se o artista em sua obra externaliza, de maneira instintiva, o seu estado interior em uma tela, por exemplo; se seus movimentos reproduzem, sem que perceba, um estado mental e uma intenção de dizer algo sem utilizar palavra alguma; logo estamos diante da realidade incomunicável do homem, que consegue revela-se – ainda que de maneira superficial – naquilo que pintou – ou escreveu, atuou, decorou, esculpiu, entre outras exibições artísticas.

Conquanto, fica-nos evidente a intrínseca relação entre a arte de pensar sobre algo e a materialização deste por meio de tintas, telas, palavras e articulações. O que significa dizer, respectivamente, que o ser filosófico que entra em contato consigo, como em movimentos giratórios da alma que se envolve em si mesma, procura a maneira mais catártica de se esvair. Mesmo que em nível investigativo possamos assentir à arte atributos específicos, não se pode preteri-la em grau ontológico. A arte é uma possibilidade de natureza filosófica de se expor ideias, conjunturas, sugerir propostas, julgar, apresentar outros ângulos de observação, o que, consequentemente, confunde-se à arte de filosofar. Em suma, trata-se se uma compenetração mútua, onde uma empresta de outra, características essenciais. No entanto, ambas conservam o aspecto de uma inflexão para si e, a partir de si, sua leitura das demais realidades, seja por meio de um tratado lógico-filosófico, ou por uma performance na dramaturgia.

[1] Cf. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000. p. 321

[2] NIETZSCHE, F W. A vontade de poder. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008. Trad.: M. S. P. Fernandes, F. J. D. de Moraes. p. 411.

[3] Ibid., p. 427.

[4] Cf. SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e representação. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001. Trad.: M. F. Sá Correia. p. 265

[5] Cf. Ibid., p. 245.

Referências:

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000.

NIETZSCHE, F W. A vontade de poder. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.

SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e representação. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.

Autor: Leonardo Pablo Origuela Santos, estudante do primeiro ano do curso de Filosofia da FASBAM e seminarista da Ordem de Santo Agostinho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Open chat