Isolados em nossa casca de noz

“Eu poderia viver recluso em uma casca de noz e me considerar rei do espaço infinito”; estas são palavras do príncipe da Dinamarca, Hamlet. Na peça homônima, a personagem shakespeariana manifesta sua insatisfação diante do cenário em que se encontra. Para nós, será o pano de fundo de uma proposta de discussão sobre o isolamento que se impôs à toda a sociedade neste tempo. Empenhar-nos-emos em considerações sobre a angústia do homem e da mulher, obrigados a conviverem consigo mesmos.

O príncipe da Dinamarca vive um momento muito conturbado, e sente dificuldade em estabelecer uma postura diante da morte de seu pai. Ele é dono de uma visão panorâmica de todas as tramas em torno do reinado, a partir da revelação do fantasma de seu falecido pai afirmando ter sido envenenado pelo atual rei que depôs veneno em seu ouvido – perceba-se que, analogamente, Hamlet também está recebendo em seu ouvido o veneno de tais informações, que produzem transtorno em sua visão.

Quando na cena dois do segundo ato, a personagem dá voz à já mencionada exclamação. Note-se, de antemão a similaridade do interior da noz com o cérebro humano. Ao dizer tais palavras refere-se a tudo que está detrás das aparências em seu reino. Isso lhe faz questionar a real identidade de cada um, afirmando que reinaria na mais perfeita coerência se pudesse estar dentro de si, onde pode reconhecer todas as verdades de sua personalidade.

Isolados de sua rotina o homem e a mulher em nossos dias precisam reprogramar também suas mentes, se adequarem. Num primeiro momento se vê distante de todos os seus convivas, mas procura remediar se conectando pelas facilidades digitais à altura de suas mãos. Entretanto, são iminentes os momentos solitários. Esses instantes pontuais ao longo do dia podem aterrorizar a pessoa e fazer com que desenvolva, em diferentes níveis patológicos, algumas neuroses.

Sem dúvidas devemos levar em consideração aqueles que, por algum motivo que não esse, desenvolveram alguma barreira psicológica. Mas queremos dizer aqui da intensificação que todas sofrem nesse período. Uma hipótese que emerge é de que os isolados não estão sabendo lidar consigo mesmos; em outras palavras, estão tendo a oportunidade de se olhar no espelho e reconhecer seus traços particulares e, nisso, não estão conseguindo administrar suas sensações.

Isso se dá justamente porque criamos ao longo da vida sofisticadas muletas que nos apoiam e blindam. O grande dilema é que, as nossas características individuais vão sendo diluídas nos padrões que se nos impõem – principalmente na moda e no físico. A epifania das mídias ilude de que estamos sempre acompanhados; as relações de interesse no trabalho nos dão a falsa sensação de pertença à um grupo; em resumo, cada um constrói para si a imagem e as informações que desejam ser conhecidas por outrem.

Essa é a crítica de Hamlet: à imagem incoerente de cada um que o cerca. O atual rei que assassina seu pai para poder governar; sua mãe que tão rapidamente se une ao assassino; seus amigos que, chamados à corte, não revelam já de início suas reais intenções. Dessa forma, reinar na casca de noz de suas íntimas intenções é o desejo de harmonizar a imagem que as pessoas veem – que falha na reprodução de seu verdadeiro eu –, e a sua verdadeira – quem realmente se é. Temos, pois, uma casca de nós, exposta ao julgamento de todos de acordo com seus padrões, e a casca de noz, que é incomunicável a alguém além de seu único rei: a própria pessoa.

Se assim o for, é muito difícil pensar na coragem das pessoas em gritar ao mundo seu desejo de estar em sua casca de noz. Essa dificuldade é devido à casca de nós que cada um já criou para si. A própria maquiagem elaborada na intenção de se ser aceito no convívio social. Não sendo muito fiel à imagem de si também não é confortável, mesmo assim, é muito doloroso dela se despojar. Todavia, não se deve ser totalmente subversivo às normas, a sugestão é que se utilize todos os acessórios sociais que mais se identificam com a imagem de si, que a manifeste, sem escondê-la.

Em períodos como este, todos são obrigados a olhar para si. O autoconhecimento se impõe, e os refugiados nas redes sociais não encontram a mesma satisfação de antes. A contemplação da própria identidade se torna cada vez mais imponente. Não há escapatória. É preciso, pois, encará-la. A expectativa é de que, uma vez enfrentando o medo de si, possa-se encontrar seu espaço no mundo. Tudo é angustiante, incerto. Não há como saber o que sobrará de uma briga consigo, se algo bom ou ruim.

O que importa, tanto ao príncipe da Dinamarca como para nós – míseros mortais – é não se apoiar naquilo que não nos representa. Deve ser a vida a mais fiel pintura de si mesmo, a busca da mais coerente projeção de si no mundo. As portas de nossas casas – para aqueles que têm – é o novo templo de Delfos, e o “conhece-te a ti mesmo” é um mantra involuntário àqueles que entram. Seremos o que nossa mente determinar. Talvez, se nos detivermos a um tempo conosco, podemos nos reconhecer e retornado ao convívio social, dispormos de uma nova roupagem, de uma inédita casca de nós.

Autor: Leonardo Pablo Origuela Santos é estudante do 1º ano do Curso de Filosofia da FASBAM e seminarista da Ordem de Santo Agostinho.

2 thoughts on “Isolados em nossa casca de noz

  1. Hedleide Américo says:

    Excelente post, parabéns. Gostei muito da parte de “olhar para si e autoconhecimento”, pois muitas vezes as pessoas não se conhecem, mas vivem um esteriótipo imposto pela sociedade em que vive. Muito bom!

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