Quaresma, quarentena, espiritualidade e vivência religiosa

Pe. Dr. Teodoro Hanicz, OSBM.

Estamos assistindo e vivendo uma mobilização mundial das instituições governamentais, científicas, sanitárias e religiosas em torno da saúde da humanidade, da proteção das pessoas. O novo coronavírus se espalha como praga, infecta e mata. O mundo está doente. Há sintomas de um aparente fracasso da ciência. A medicina vê-se impotente.

O tempo é de isolamento social, em nome de uma possível proteção. É um tempo de caos social, político, econômico e sanitário. Uma grande tribulação abateu-se sobre a terra. Em meio a esse caos, como vai a fé, a nossa vivência religiosa, a nossa espiritualidade?

Nesse contexto de caos e tribulações surgem muitos profetas: os profetas do bem e os profetas da desgraça. Surgem muitas perguntas, respostas e opiniões, tais como: o mundo será melhor depois desta pandemia; o mundo não será o mesmo; as pessoas não serão as mesmas; e a pandemia vai mudar o mundo e as pessoas.

Nós, que estamos no mundo acadêmico, apesar do nosso desconforto e das nossas insatisfações, estamos de acordo que é um tempo de grandes desafios, de aprendizado, de mudança de métodos de ensino.  Fomos obrigados a levantar do berço esplêndido, da acomodação e da rotina. O som não é mais o som do mar, e, para alguns, parece existir pouca luz no horizonte profundo.

Sejam quais forem as perguntas, as respostas, as opiniões, os achismos de quem quer que seja, para nós, o tempo atual necessariamente deve provocar uma reflexão sobre a nossa vida espiritual. Precisamos olhar para esse caos pela janela da espiritualidade, da vivência do Evangelho e do discipulado. Precisamos tirar lições e ensinamentos que fortaleçam a nossa vivência cristã e a nossa espiritualidade. A leitura que fazemos dos fatos deve ser uma leitura mais profunda, que vá além do social, do econômico, do sanitário. Ela, a leitura que fazemos, precisa enxergar pérolas preciosas no fundo do turbilhão.

Estamos todos submetidos ao jugo da obediência. Temos que obedecer. Ficarmos em casa, isolarmo-nos. As reações são das mais variadas: resistência, revolta, ódio, desobediência, medo, incerteza. Mas, por que obedecer? Por que isolarmo-nos? Dizemos, e dizem, que é para protegermos a nossa vida – a minha vida. Isso é muito pouco, é egoísmo, é narcisismo, é materialismo, é capitalismo irresponsável. Basta olharmos as prateleiras dos supermercados. Quantos produtos estão em falta porque muitos pensam em garantir a si mesmos e não pensam na necessidade dos outros. A questão não é proteger e garantir só a minha vida, mas a vida do próximo. A obediência tem uma dimensão que vai além de mim mesmo. Eu obedeço não somente para o meu bem individual, mas para o bem do outro.

A situação atual nos ensina saber esperar, ter paciência. Estamos todos impacientes – quando isso tudo vai acabar? Quando a vida vai se normalizar? Quando voltaremos à rotina. (Observação: reclamos sempre da rotina, mas agora queremos que a rotina volte). É um tempo de incerteza, de desconforto. Precisamos colaborar com as autoridades sanitárias e também religiosas, fazer a nossa parte, mas precisamos dar um sabor espiritual, uma pitada de fé a tudo isso, ou seja, entregar na mão de Deus e confiar na Sua Providência. A Bíblia nos dá muitos exemplos: Abraão, os profetas, Simeão, Maria e tantos outros. Enquanto esperamos até que tudo isso passe, devemos nos transformar, nos transfigurar, nos taborizarmos. É da transfiguração que sairá vida nova, mundo novo. A quaresma também ajuda. É tempo de oração. Temos que tirar lições para a vida. Se por um lado estamos perdendo alguma coisa, por outro, precisamos ver e sentir que estamos ganhando muita coisa para a nossa vida interior. É o momento para encontrar forças na fragilidade.

A situação atual é um tempo de aprendizado e de crescimento espiritual. O Evangelho nos mostra que Jesus reuniu em torno de si alguns homens e os chamou de discípulos. Discípulo é aquele que aprende do mestre e continua a obra do mestre. É aquele que estuda, que reflete, que se aprofunda no conhecimento dos ensinamentos do mestre. Quarentena é tempo propício para aprender, para fortalecer a vivência da fé, para refletir sobre as ações humanas, os acontecimentos e os desígnios de Deus. Quarentena é tempo propício para fazer uma viagem ao nosso interior, ao nosso eu, encontrarmos com nós mesmos e encontramos com Deus. Quarentena, isolamento, recolhimento, é tempo para exercício e retiro espiritual. Um pensamento de Clarice Lispector ilustra bem esse momento.  “Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu? Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim – enfim, mas que medo – de mim mesma.” (De escrita e vida).

Atravessando o mar tempestuoso do tempo atual, no qual o barco da vida está a naufragar, as palavras do Papa Francisco injetam ânimo, coragem e esperança para continuarmos a travessia, porque o Senhor não nos deixa à mercê da tempestade.O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do seu amor redentor. No meio deste isolamento que nos faz padecer a limitação de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ouçamos mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (Cf. Is 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança.

Abraçar a sua cruz significa encontrar a coragem de abraçar todas as contrariedades da hora atual, abandonando por um momento a nossa ânsia de omnipotência e possessão, para dar espaço à criatividade que só o Espírito é capaz de suscitar. Significa encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade. Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperança e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar. Abraçar o Senhor, para abraçar a esperança. Aqui está a força da fé, que liberta do medo e dá esperança.” (Homilia do Papa Francisco na celebração extraordinária de oração pela pandemia da Covid-19).

One thought on “Quaresma, quarentena, espiritualidade e vivência religiosa

  1. Helena do Rocio Caseli Pereira says:

    Olhar através da FÉ no Espirito Santo professor deixado, por JESUS , a nós como mestre, tendo Maria como intercessora digna, pura, perfeita e fiel.
    Perfeitas reflexões professor !

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