Pensar a República nos dias de hoje

Neste texto, teremos uma reflexão sobre a política nos dias de hoje, observando os aspectos políticos do filósofo Cicero do século I a.C. e sobre como seria a forma ideal de governo

Falar em política no Brasil nos tempos atuais é bem difícil, principalmente ao se cair na irracionalidade da defesa de um único ponto de vista, mas isso não nos deve impedir de fazer reflexões boas e conscientes daquilo que vivemos, e das heranças históricas das quais somos marcados, tanto para o bem quanto para o mal. E aqui, o ensinamento do filósofo romano Cícero, do século I a.C., ainda nos inspira, quando defendia sem hesitações a república contra àqueles que a queriam destruída.

Dito isto, podemos concluir que nossa história política é o reflexo daquilo que já vivemos; em termos filosóficos, é o efeito das primeiras causas, com seus avanços e os retrocessos, mas que podemos repensar e, assim, buscar o melhor para a nossa nação.

No passado, pensando a partir de nossa independência em 1822, vivemos uma política de “aos trancos e barrancos”; seria até engraçado se não fosse trágico, mas aquilo que é fato deve ser observado, pois a não tomada de conhecimento e consciência, leva as pessoas a um “loop político” fadados a passar e sofrer pelos mesmos erros já cometidos.

No momento atual, o sistema de governo em nossa república é a democracia representativa, em que o povo elege os seus representantes, para que os mesmos possam realizar o bem comum; os eleitos, assim, devem exercer o papel de zeladores da nação, governando para todos, estabelecendo a garantia de direitos já previstos na Constituição federal de 1988. Isto é muito belo, quando de fato atinge sua meta, mas, infelizmente não ocorre plenamente em nosso país, e pior, os nossos problemas, como a corrupção, são notícias diárias; e muitos brasileiros ainda não têm acesso a direitos básicos como moradia, segurança, emprego, alimentação saudável, saúde e educação. Que governo representativo seria este, então? Que república seria esta? Como o filósofo Cícero nos veria?

Em nossa nação, podemos dizer sem sombra de dúvida que a política está em vertigem, pois o atual governo que se estabeleceu busca agir sem o apoio do congresso, do judiciário e dos governadores, o que parece uma loucura quando observado, sabendo que somos uma república em que o poder é compartilhado em três esferas, como ensina Montesquieu: legislativo, judiciário e o executivo. E como ensina o filósofo Rousseau, o poder emana do povo e só tem sentido se a ele é voltado.

Talvez, dois erros estejam acontecendo. Primeiro: a falta de nacionalismo e patriotismo que se estabeleceu entre tais políticos brasileiros. Isto se dá, pois, todos se dizem governos do povo, mas a verdade é que governam para si e seus apoiadores. O filósofo Cícero já alertava para este problema, dizendo que o amor à pátria é um dever incondicional de reconhecimento para o lugar do qual recebemos nossa identidade.

O segundo problema, é a falta de engajamento dos próprios cidadãos brasileiros para que seus governos eleitos realizem suas promessas de campanha e governem para o povo realmente. E ainda, que uma vez eleitos, todos os políticos, inclusive os de oposição, consigam agir em comum para o bem da nação, independente da ideologia partidária. É o que novamente Cícero nos lembra, a obrigação moral que todos devem ter de preservar o bem comum. Imoral seria o egoísmo exacerbado em prejuízo da comunidade maior e o não diálogo entre os pares. 

Terrível problema se estabelece, pois os dirigentes da nação divergem em pontos que deveriam concordar, e iludem o povo com suas falas: “governo legítimo” ou ainda “governo para todos”, mostrando que o que é legítimo em seu governo é o interesse próprio, e aos demais “boa sorte”. Cícero, aqui, sem dúvida, dirigiria suas catilinárias aos maus políticos brasileiros que estariam a serviço da destruição da nossa República.

Voltando ao passado, não devemos nos iludir, acreditando que isto é inédito, pois desde o início da República, em 1889, este problema se permanece. Aqui, nota-se o pensamento político de Maquiavel, pois os governantes configuram o seu governo a si mesmos, deixando de lado os direitos básicos dos indivíduos, e colocando em destaque a sua reputação e seus interesses.

O ideal político em John Locke, busca um governo do povo, para o povo, garantidor dos direitos naturais e não uma política democrática mascarada de absolutismo. Muitos são os contraexemplos que testemunhamos e vivenciamos em nosso cotidiano político, mas não deve ser o molde pelo qual devemos nos pautar. A saída, com certeza, seria a tomada de consciência individual de nossos deveres e direitos. E somente pela educação e justiça a política atinge seu objetivo.

Como se observa a corrupção aconteceu diversas vezes e em todas as épocas da história do Brasil, e a vemos com muita força na nova República do Brasil, a partir de 1985, tornando-se escancarada. A questão é como podemos, com a democracia, realizar um projeto de nação que assegure dignidade a todos os brasileiros, a todos os cidadãos?

Realizando uma analogia com o voo da águia e da galinha, precisamos voar forte e longe e enxergar distante com um objetivo claro, como a águia, independente de nossas ideologias partidárias, caso contrário, seremos como a galinha, voando/pulando apenas quando somos enxotadas de nosso lugar. E retornando aos ensinamentos republicanos do filósofo Cícero, é fundamental que sejamos patriotas, no sentido de que o Brasil é o local geográfico em que temos nossa identidade e nosso sustento, e é fundamental que nos dediquemos ao bem comum, e que todos tenham seus direitos fundamentais assegurados e, para isso, participemos ativamente das decisões políticas, como assim exige uma democracia.

Autor: Alifer Silveira, religioso orionita e estudante do 3º ano do curso de filosofia da FASBAM.

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