O primeiro dia da criação em Basílio de Cesareia

Basílio de Cesareia (329-379) foi médico, filósofo, teólogo, organizador da vida monástica cenobítica e bispo. Sua formação está fundada nos conhecimentos cristãos passados por sua família, em especial sua avó Macrina e sua irmã, também Macrina e, pelo conhecimento adquirido com os monges do deserto e com as Escolas de Alexandria e de Atenas. Devido a sua forte influência naquele período, no dia de seu sepultamento, seu grande amigo Gregório Nazianzeno proclamou a famosa Oração 43, na qual identifica a personalidade deste doutor da Igreja: “Basílio santo, nasceu entre os santos. Basílio pobre viveu pobre entre os pobres. Basílio, filho de mártires, sofreu como um mártir. Basílio pregou sempre; com seus lábios e com seus exemplos, e seguirá pregando sempre com seus escritos admiráveis”. (As Regras Monásticas. Tradução Hildegardis Pasch, 1983).

Dentre tantos escritos e ensinamentos que Basílio nos deixou, vamos tratar neste artigo sobre uma pequena parte destes que diz respeito, mais propriamente dito, à filosofia. É observável que em todos em seus escritos não podemos em nenhum momento nos afastar da “sabedoria cristã”, por ele tão defendida em virtude de toda sua historicidade. Ainda é possível se dizer que Basílio não nega totalmente a “sabedoria pagã”, mas da mesma forma que dá seu conselho aos jovens, no “Discurso aos Jovens”, pela busca nos escritos pagãos como a abelha que retira somente o melhor pólen de cada flor. Desta forma, comentaremos concisamente sobre o primeiro dia da criação segundo o Gêneses, conhecimento contido nas duas primeiras homilias do Hexaêmerom, um conjunto de nove homilias sobre os primeiros seis dias da criação.

Em vista do proposto, em um primeiro momento nos dedicaremos à primeira homilia, que se refere especificamente sobre o primeiro versículo do Gênesis: “No princípio Deus criou o céu e a terra”. Seguindo pelo veio filosófico, entre os teológicos também presentes nesta, damos ênfase nos aspectos cosmológicos da criação e as problemáticas acarretadas com esta temática. Deste modo, mais especificamente, estamos falando sobre a problemática em torno da origem da criação, sobre o Criador, sobre o tempo, sobre a matéria e sobre o lugar que esta criação ocupa. A segunda homilia, por sua vez, abrange o restante da descrição bíblica sobre o primeiro dia da criação, discorrendo também sobre a matéria e o tempo, porém, acrescentando, ou melhor dizendo, descrevendo alguns detalhes para complementar a primeira homilia, da mesma, forma ainda trata sobre a luz e as trevas, sobre a forma e também sobre o mal.

Partindo do contexto de que “No princípio, Deus criou o céu e a terra”, Basílio declara sobre esta passagem como suposto que o mundo nunca teve um começo e o autor desta passagem acrescenta “criou” de forma que esta era apenas uma pequena parte do poder de Deus. Possuidor de infinito poder, era necessário apenas do impulso de Sua vontade para tornar as imensidades do mundo visíveis. Desta forma, observamos um mundo que somente existe devido a vontade de Deus e que de forma diferente não se pode pensar um mundo sem começo. O Único ser sem começo é Deus, do qual tudo se origina. Segundo o próprio Basílio, a criação foi desenhada a partir de Deus. É de nosso conhecimento que o único homem a ver Deus foi Moisés, e Basílio ainda completa, na medida em que é possível para um homem O ver.

Tomando partido da questão temporal, somos logos remetidos por Basílio à nossa primeira citação bíblica: “No princípio, Deus criou o céu e a terra”, sendo este o lugar temporal da criação. Mas, quando é este princípio? É notável que há a impossibilidade de uma criação sem começo. De outra forma, seria eterna. Esta é a sabedoria do autor do Gênesis segundo Basílio, pois logo no cabeçalho está a afirmação: “No princípio, Deus criou”, ou seja, a criação é no início do tempo. Por este lado, o ato criativo em si é intemporal, já que este é o começo temporal. Logo, o começo do tempo juntamente com o Universo não é, por sua vez, temporal, da mesma forma que não pode ser submetido às suas divisões: presente, passado e futuro. Se assim o fosse, seria necessário, por seu passar, um começo, o qual nos levaria a uma caça do começo do começo infinita sem conseguirmos chegar a um primeiro começo. Desta forma, devido ao começo não ser temporal, segue-se que o ato que põe o começo não está no tempo, ou seja, intemporal.

Tendo em mente a questão da matéria, nos é percebido que Basílio descreve a criação e o Criador de modo igual a um oleiro, que tem uma matéria preexistente para modelar os diferentes artefatos com sua arte. Com isso, Basílio nos deixa suspenso um paradoxo já que não fala explicitamente de uma criação a partir do nada, ele insiste na criação a partir de um ato eterno de Deus. Ainda nesta questão da matéria, é observável que os argumentos que Basílio apresenta contra a existência de uma matéria incriada, de tal modo que ele divisa a raiz psicológica deste erro no fato de haver exagerado na analogia entre a atividade divina e o trabalho artístico do homem. Desta forma, somos dirigidos ao próprio relato de Basílio, o qual, por sua vez nos diz: “Mas Deus, antes de todas as coisas que agora atraem nossa atenção existirem, depois de lançar em sua mente e determinar a criação de um tempo sem ser, imaginou o mundo como deveria ser, e criou a matéria em harmonia com a forma que Ele desejou dar”. (Hexaêmerom, Homilia II)

Com relação ao lugar e posição que a terra ocupa, nos é possível observar que Basílio declara que a terra é imóvel devido seu enorme peso. Mesmo preferindo a simplicidade da fé em relação à razão, Basílio, nos diz que do mesmo modo já mencionado anteriormente, do fato da terra e do céu serem os extremos visto que o céu ocupa o lugar mais elevado enquanto a terra o mais baixo, sendo esta a natural posição da terra, ou seja, o fundo é senão o centro do mundo. Da mesma forma, continua afirmando que devido a este motivo ela nunca cai, pois já ocupa o centro do universo – seu lugar natural.

Tratando sobre a forma, Basílio argumenta exemplificando que cada um dos nossos ofícios é exercido sobre alguma matéria especial – a arte do ferreiro sobre o ferro, a do carpinteiro em madeira. Em tudo, há a matéria, a forma e o trabalho que resulta da forma. A matéria é tirada de fora – a arte dá a forma – e o trabalho é composto no mesmo tempo da forma e da matéria. A forma do mundo é devida a sabedoria do Artífice Supremo; a matéria veio ao Criador de fora; e assim o mundo resulta de uma dupla origem. Recebeu de fora sua matéria e sua essência, e de Deus sua forma e figura.

Sobre a questão do mal, Basílio nos diz que é ímpio dizer que o mal tem sua origem de Deus: “porque o contrário não pode proceder de seu contrário. A vida não engendra a morte; a escuridão não é a origem da luz. Se então o mal não é nem incriado e nem criado por Deus, de onde vem a sua natureza? Certamente o mal existe, ninguém que vive no mundo negará. Que devemos dizer, então? O mal não é uma essência viva; é a condição da alma que se opões à virtude, desenvolvida nos descuidados por causa da sua queda do bem. Não vão além de vocês mesmos procurar o mal, e imaginar que existe uma natureza original de maldade. Cada um de nós, vamos o reconhecer, é o primeiro autor de seu próprio vício.” (Hexaêmerom, Homilia II).

Sobre o problema da luz e da escuridão, nos vem uma série de perguntas para entender a passagem bíblica: A escuridão foi criada com o mundo? É mais antiga do que a luz? Por que, apesar da inferioridade, ela a precedeu? Atendendo as preocupações do povo acerca de tal problema declara que a escuridão, não existe na essência; é uma condição produzida no ar pela retirada de luz. “Deus disse: Haja luz.” Deus criou a natureza da luz; fez desaparecer a escuridão, dissipou as trevas, iluminou o mundo e deu a todos os seres, ao mesmo tempo, um aspecto doce e gracioso. “E Deus separou a luz e as trevas.” isto é, Deus lhes deu as naturezas incapazes de se misturarem, perpetuamente em oposição uma a outra, e colocou entre elas o mais amplo espaço e distância. Desta forma, com a separação da luz e das trevas consequentemente: “Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia.”

Desta forma, podemos dizer, é que se dá a visão cosmológica criacionista de Basílio. De modo geral, os pontos descritos são aqueles os quais mais nos dizem respeito ao estudo da filosofia. Contudo, existem muito mais aspectos que podem ser estudados, porém necessitam diretamente de uma visão teológica. É visto que Basílio não tem por objetivo principal ensinar ou despertar a filosofia em seu fiel povo, mas sim simplesmente orientá-los para não contradizerem a própria fé e, é por este motivo que na primeira homilia orienta para não preocuparmo-nos com a essência, mas sim glorificar a Deus por meio de sua criação sabiamente e habilmente realizada e, por fim, Basílio ainda exorta que nem mesmo a melhor mente alcançará o conhecimento do menor dos fenômenos para explicar ou para adorar a Deus.

Autor: Edilson Julio Homenchuk, estudante de 2º ano do Curso de Filosofia da FASBAM.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *