Dificuldades da ação pastoral da Igreja na contemporaneidade com Dom Amilton Manoel da Silva

Na noite de ontem, dia 8 de agosto, aconteceu a palestra “Dificuldades da ação pastoral da Igreja na contemporaneidade” com Dom Amilton Manoel da Silva, cp, bispo auxiliar da Arquidiocese de Curitiba, que foi promovida pela Frente Estudantil Filosófica (FESFI) da FASBAM.

Já de início, Dom Amilton explicou sobre a figura do pastor, daquele que deve conduzir e cuidar do rebanho de Deus. Para isso utilizou a figura do “Bom Pastor”. Em nossa missão pastoral, devemos seguir a Cristo como esta parábola nos diz. É preciso entrega e dedicação para, se preciso for, dar a vida pelas ovelhas. Tomando o tema pastoral em uma perspectiva histórica, somos conduzidos a sua primeira aparição, nos documentos do Concílio de Trento. Neste caso a figura do pastor e pastoral é colocada como sinônimo e dever somente daqueles que estão à frente da Igreja, os bispos e sacerdotes. Mas esta visão tomou uma nova forma e foi ampliada com o Concílio Vaticano II. Agora, somos todos chamados a exercer a missão pastoral, todo aquele que foi batizado é responsável, é chamado a pastorear. Somos todos chamados a dar a vida uns pelos outros e é por este caminho, nesta missão que se une a Igreja. A Fé, a Espiritualidade, a Evangelização e Transformação Social não podem ser separadas na ação pastoral.

Após esta contextualização do pastor e da pastoral, Dom Amilton passou a discorrer sobre os desafios na ação pastoral nos dias de hoje. Para que possamos vencer as dificuldades devemos nos apegar na força do Evangelho, na Boa Nova que ele nos traz – a Ressurreição de Cristo Deus. Nos foi posto que o Papa pede para não deixarmos nos vencer em meio as dificuldades que aparecem. Nós devemos possuir o mesmo olhar que os discípulos possuíam, devemos ter olhar de discípulo, temos de olhar as oportunidades que hoje nos aparecem e não somente fixar o olhar nos problemas e desafios.

Prosseguindo com a palestra, Dom Amilton apontou como sendo o grande problema, o grande desafio da Igreja e da pastoral, a própria Fé. Sem a Fé não existe salvação. A Igreja é sustentáculo desta Fé. Ela conserva a memória das palavras de Cristo e a espalha, a transmite. Fé é dom de Deus transmitido pela Igreja. No batismo recebemos por meio do Espírito Santo três sementes que devemos cultivar por toda a vida, essas sementes são a fé, a esperança e a caridade – as virtudes teologais. Junto destas recebemos as quatro virtudes cardeais: a justiça, a prudência, a fortaleza e a temperança.

“Minha Fé só possui sentido dentro da Igreja, pois cremos e cremos dentro da Igreja. A Fé não é alheia a Igreja, somente a vivo para viver na Igreja e não fora dela. A Igreja é nossa mãe, somos membros membro dela e ela nossa mãe. E esta Igreja da qual fazemos parte possui um tríplice dever que podemos apontar como: a formação por meio do anúncio do querigma; a celebração dos Sacramentos, estes que formam os pilares da Igreja; e a caridade, é preciso viver aquilo que Cristo anuncia”, destacou Dom Amilton.

Dentro da Igreja e da sociedade, nossa Fé é vivida em quatro dimensões: a dimensão antropológica, na qual o ser humano se vê diante de Deus como ele é, e, ao mesmo tempo diante da sociedade em que ele vive esta Fé; a dimensão teológica, nesta entram a revelação, a celebração, o primado de deus, a doutrina da fé, é aqui que se aceita a Fé em Deus; a dimensão cristológica pois a centralidade da nossa Fé é Cristo, nossa Fé é Cristocêntrica, é o Filho quem medeia a experiência trinitária; e a dimensão eclesial, é a Igreja como mistério, Igreja peregrina de discípulos missionários. Dom Amilton nos diz que não dá para falarmos de fé se abarcarmos essas dimensões.

Após esta explanação sobre a figura do pastor e do grande problema da atualidade que é a Fé, e ainda mais, Fé dentro da Igreja, Dom Amilton passou a elencar uma série de dimensões desta problemática para que possamos ter real noção do problema e das dificuldades que temos de enfrentar.

O primeiro problema colocado foi a questão do ateísmo e do secularismo. Essa é a cultura que vive a matar o pai, diz Dom Amilton, e com isso, o matar Deus. Se matar o pai não há quem vai puna e isso leva a uma sociedade sem limites. Desta forma as pessoas se acham livres, sem uma bússola que oriente sobre o bem e o mal. Vemos muitas vezes que os próprios cristãos não gostam de falar de Deus, acham que é algo envolto em tabus e prefere evita-la. Citando Clodovis Boff, Dom Amilton ressaltou que a sociedade vive uma anemia de Deus, e não quer saber de Deus. O povo somente quer experimentar, sentir Deus, pois não sabe onde encontra-lo, não tem Fé, por isso busca um momento de espiritualidade, ele tem sede Deus mas não de Igreja. É por este motivo que o Papa Francisco quer que sejamos mestres de fé e não professores de fé.

O segundo problema elencado por Dom Amilton foi o antropocentrismo exagerado. Isso leva ao relativismo em todos os campos, inclusive na ética, campo perigosíssimo. Podemos ver claramente uma massificação urbana um desenraizamento cultural. Há mais uma ânsia de sobreviver do que de Fé.  Há uma despersonificação devido à grande força dos meios de comunicação. Perde-se o valor da vida se relativização os valores. Tudo só passa ser bom aquilo que é bom para mim. Há muito individualismo, o ser humano se faz um semideus. A vida é minha e eu faço o que quero. Tudo isso leva a rejeição do outro, e com isso a rejeição do próprio Deus.

Mais um problema apontado por Dom Amilton foi o de não se falar de pecado. O psicologismo faz com que todos se desfaçam da culpa. Nota-se muita confusão dos fiéis, muito sincretismo, eles vão buscar um pouco em cada religião. Se não se crê em um Redentor e na redenção procura-se alguma outra coisa. Pouco se reflete sobre as atitudes, sem responsabilidade por seus atos, não se reflete sobre o que é ou o que não é. Todo mundo joga sua culpa no demônio ou em sei lá o que para livrar-se de sua culpa. Nossa posição deve explicitar sobre o pecado para formar consciências sobre o pecado. Devemos ter discernimento como nos pede o Papa. Discernir para escutar Deus, se é bem ou mal.

Mais um problema é a separação fé e vida. A religião se tornou um lugar de se buscar aquilo que se quer. A fé aqui se dá no individual, cada um tem sua verdade. Todas as autoridades são questionadas como erradas. Se vive, ou quando se vive a Fé, ela está separada de todas as outras ações da minha vida.

Outro desafio que aparece é a ênfase no afetivo emocional e folclórico, aqui domina o narcisismo. A Igreja e Cristo aparecem separados, só se opta por aquilo que convém com a vontade de cada um. Há uma banalização dos tesouros da Igreja – liturgia, comunhão. Dá-se muita importância nos sacramentais, devoções, é como uma criação de amuletos com a eucaristia, com a Divina Liturgia.

Outros dois problemas que vem unidos são o imediatismo e a busca por prosperidade. Fé exige espera – esperança. As pessoas querem coisas rápidas, para ontem, querem felicidade somente aqui na terra, tudo aqui e agora, só busca aquilo que se quer e não o que Deus quer. Devemos buscar o mundo espiritual e não o material. As pessoas hoje estão à procura de um bem estar e não de uma verdade. As pessoas tem a verdade na sua medida. Religião não é mais um modo de servir a Deus, mais de servir-se de deus. Aqui ainda podemos colocar mais uma problemática que é a fuga da Cruz, hoje ninguém quer saber de sofrimento mas esquecemos que sem cruz não há compromisso e não há salvação.

Outro problema que nos aparece é a Caridade. Como falar disso sem levar ao marxismo? Aqui vemos entidades políticas se utilizarem e iludirem os fiéis, pois o marxismo é uma ideologia que busca uma sociedade igualitária sem Deus. Para superar este problema, devemos ressalvar a posição do Jesus pastor, paterno. Na caridade temos que ver Cristo no próximo, e não outros fins.

E por fim, o último problema é a não aceitação do Papa Francisco. Ele quer reformar a Igreja, ele vem pregando aquilo que vem sendo esquecido, ressaltou Dom Amilton. Devemos passar à uma Igreja em que o pastor vai ao encontro das ovelhas. Caminhar para uma Igreja – Povo de Deus.

Tendo em vista tudo aquilo exposto por Dom Amilton devemos sempre nos lembrar que não existe perfeccionismo na Fé. Precisamos vencer os desafios, nos formar para este fim, para poder, então, agir na ação pastoral. Temos de conhecer os documentos da Igreja. Devemos conhecer os problemas para sabermos como agir. Não existe uma formula pronta para a resolução dos problemas, é preciso primeiramente desaparecer o eu da Igreja e da pastoral para que Cristo possa aparecer.

Autor: Edilson Julio Homenchuk, estudante do 2º ano do Curso de Filosofia.

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