Nós realmente precisamos de tantos rituais na Igreja?

A Liturgia nas Igrejas Orientais parece excessivamente formal, complicada e rígida em suas rubricas. Por que existem tantos rituais nas Igrejas Orientais? Por que não há mais espontaneidade, criatividade e liberdade de expressão? Por que o culto oriental do serviço dominical – a Divina Liturgia – é essencialmente o mesmo semana após semana, todos os anos, há mais de mil e quinhentos anos? A maioria dos fiéis orientais responderia: “Porque é a nossa Tradição.” No entanto, você sabe por que é a nossa Tradição e por que os rituais são tão importantes para a nossa fé cristã?

A necessidade de paz e ordem

Na verdade, a Bíblia e os Padres da Igreja raramente usam a palavra “ritual” ou “rito” ao descrever práticas cerimoniais religiosas judaicas ou cristãs. As palavras mais usadas são “ordens” e “observâncias”. Essas palavras são mais descritivas do que deveria estar acontecendo. Para muitos, os “ritos” são apenas uma série de comportamentos que as pessoas costumam fazer sem saber o seu significado – talvez já tenha havido uma razão para o comportamento, mas agora as pessoas simplesmente “seguem os movimentos”.

Uma “ordem” é um decreto de que uma atividade seja regulada (Hebreus 9,1) e mantida em uma seqüência ou limite particular. Em relação aos cultos de adoração, o apóstolo Paulo declarou: “todas as coisas devem ser feitas com decência e ordem” (1Cor 14,40). A razão para isso é dada em um versículo anterior: “porque Deus é um Deus não de desordem, mas de paz” (v. 33). De fato, São Paulo elogia a Igreja em Colossas por quão ordenada (τάξιν) ela é (Cl 2,5). Sendo que nossa atual Liturgia de São João Crisóstomo é baseada na Liturgia de São Tiago do século I, o primeiro Bispo de Jerusalém, as Igrejas Orientais sempre praticaram um padrão formal e ordenado de culto.

No entanto, a formalidade do culto realmente remonta às práticas judaicas começando 13 séculos antes de Cristo com o êxodo de Israel do Egito. Deus, através de Moisés, deu detalhes explícitos sobre uma forma muito ordenada e elaborada de adoração centrada em torno do Tabernáculo ou Templo. Por quê? Porque Deus sabe como é fácil para a humanidade argumentar sobre diferenças na prática de adoração até o ponto de confusão (At 19,32), preconceito (Jo 4,20) e violência (Gn 4,3-8). Não é difícil olhar através da história da humanidade e encontrar guerras que foram em parte justificadas por crenças e práticas religiosas disputadas. Embora o conflito interreligioso provavelmente continue (Jo 17,14), Deus quer impedir o conflito intrafésico em Sua Igreja (Jo 17,22-23). Portanto, é necessário que a Igreja seja unificada em suas práticas de adoração. As Igrejas Orientais mantiveram a unidade da Fé em parte preservando uma fórmula em seu serviço.

A necessidade de atenção e recordação

“Observância” denota a necessidade de prestar atenção e lembrar. Seis vezes durante a Divina Liturgia, o sacerdote ou diácono exorta “Estejamos atentos”. Deus não quer que a gente simplesmente apareça na igreja e habitualmente diga e faça os ritos, enquanto nossas mentes estão ocupadas com o trabalho, listas de compras ou uma discussão recente com nosso cônjuge. Tal adoração não é “em espírito e em verdade” (João 4,23-24). Deus deseja que nos concentremos no que todas as palavras dizem e em todos os gestos aludidos dentro da Divina Liturgia (e outros serviços de adoração). Isso exige disciplina de nossa parte, mas é através da disciplina que nos tornamos filhos e filhas justos de nosso Pai (Hb 12,4-11). Observar a Divina Liturgia nos disciplina para “fixar nossos olhos em Jesus, autor e consumador de nossa fé” (Hb 12, 2).

É somente por estarmos atentos, obteremos entendimento (Pr 4,1, 20; 5,1; 7,24; 22,17), encontraremos a direção de Deus para nós (Ex 23,20-21) e desfrutaremos de Sua bênção (Dt 7,12-13; 28,13). Atender aos ensinamentos da Igreja tanto através da Escritura (2Pe 1,19) como da Tradição (Hb 2,1) nos impede de derivar para a heresia. Uma boa definição bíblica de observância, de que devemos nos lembrar quando entramos na igreja, é: “Filho do homem, volta os teus olhos, escuta com teus ouvidos, e presta bem atenção a tudo quanto te vou mostrar porque é para esse espetáculo que foste transportado até aqui” (Ez 40,4; ver também Is 28,23; 34,1).

A Bíblia está cheia de exortações para não apenas observar, mas também para lembrar. Precisamos ser constantemente lembrados de: quem é Deus, como Deus nos salvou, os milagres que atestam o amor de Deus por nós, os mandamentos que Deus nos ensinou, os santos da antigüidade que nos inspiram e também lembramos daqueles que precisam de auxílio caridoso ou intervenção divina. O ponto alto da Divina Liturgia é quando observamos o Sacramento da Comunhão, que foi ordenado por Deus para ser feito “em memória” de Cristo (Lc 22,19; 1Cor 11,24-25). Os cultos orientais, particularmente em suas litanias e hinos, são especificamente projetados para nos ajudar a lembrar.

A necessidade de crescimento e transformação

Alguns podem argumentar que é mais fácil perder a atenção dentro dos serviços orientais porque eles são tão repetitivos. Primeiro, deve-se notar que os serviços orientais não são completamente repetitivos – as leituras, as homilias e alguns dos hinos mudam a cada semana. Em segundo lugar, a repetição é boa para nós: é assim que aprendemos. Além de ser uma assembléia pela qual nós damos a Deus o que Ele merece – louvor e ação de graças – os cultos de adoração orientais também são salas de aula de instrução sobre como acreditar e se comportar corretamente.

Parte da razão pela qual o serviço das Igrejas Orientais é tão ritualística é porque muita informação está sendo condensada dentro de um serviço de noventa minutos. Você pode passar décadas indo para as Divinas Liturgias todos os domingos e ainda não saber todas as profundas e simbólicas profundezas de significado encontradas naquela cerimônia. A Divina Liturgia é imutável porque sua fórmula trabalha para nos ajudar a crescer em conhecimento e virtude para nos tornarmos semelhantes a Cristo – que é o propósito de nossas vidas (Cl 1,28-29; 2Pe 3,18). Mesmo que nossas atenções vagueiem ocasionalmente (o que elas não deveriam!), algo do serviço ainda é absorvido em nosso espírito para abençoar nossas almas. A repetição é transformacional. Depois de um tempo, a Divina Liturgia se torna mais do que uma ordem ou uma observância;

O quanto realmente nos lembramos de eventos divertidos? Quanto disso nos ajuda a crescer em direção à maturidade na Fé (Hb 5,12-6: 1)? A Liturgia não deveria ser algo diferente do que o mundo produz? Não deveria a adoração ser algo que reverencia a Deus ao invés de divertir a assembleia?

A necessidade de adoração dispendiosa

“Liturgia” significa “obra do povo”. Deus deseja que O amemos de todo o coração, de toda a nossa alma e de todo o nosso poder (Dt 6,5, itálico nosso). Participar da Divina Liturgia não é uma experiência fisicamente confortável: ficar em pé, ajoelhar-se e fazer prostrações. Não devemos apenas assistir passivamente uma Liturgia Oriental. Os leigos são convidados a se envolverem durante todo o serviço, reverenciando ícones, juntando-se ao coro dos hinos, recitando o Credo Niceno-Constantinopolitano e acrescentando seus corações ou vozes às orações.

Embora a adoração possa ser uma celebração alegre (Sl 100,1-2), as Escrituras deixam claro que Deus deseja que a adoração também seja dispendiosa. O primeiro ato de adoração registrado foi a história de Caim e Abel, os filhos de Adão e Eva, quando Deus aceita o sacrifício de Abel, mas rejeita o de Caim (Gn 4,3-7). Deus explicou que não apenas qualquer oferta servirá, mas somente o melhor do que temos para dar, receberá Sua aprovação. Os animais sacrificados a Deus tinham que ser sem defeito e, portanto, eles eram os mais valiosos do rebanho (Lv 1,3). A Divina Liturgia foi aperfeiçoada nos primeiros séculos para torná-la o melhor serviço de adoração que podemos oferecer a Deus. Permaneceu a mesma desde então porque nenhum teólogo oriental descobriu como torná-la melhor do que a versão do século IV de São João Crisóstomo.

Em resumo, as Liturgias Orientais são ritualísticas porque: (1) Deus deseja que nossos serviços sejam ordenados como reflexo de Si mesmo. (2) Nosso Senhor deseja um padrão estabelecido de adoração para manter a unidade e evitar a dissensão. (3) Os serviços exigem que nos disciplinemos para participar, lembrar e observar; para que possamos ser aperfeiçoados na fé. (4) A adoração foi concebida para ser dispendiosa – exigindo o melhor que temos para honrar a Deus.“Possuindo nós um reino inabalável, dediquemos a Deus um reconhecimento que lhe torne agradável o nosso culto com temor e respeito. Porque nosso Deus é um fogo devorador” (Hb 12,28).

“Cabe a nós fazer todas as coisas em ordem, o que o Senhor nos mandou realizar em tempos determinados. Ele ordenou ofertas e serviços a serem realizados. E estas coisas não devem ser realizadas impensadamente ou de forma irregular, mas nos horários e tempos designados.” – São Clemente de Roma, 96 d.C.

Adaptado de: clique aqui.

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