Fatos que você não sabia sobre a Divina Liturgia

A Divina Liturgia Liturgia é o mais importante Ofício Divino. Existem inúmeros artigos e livros descrevendo-na. Da mesma forma que a Liturgia é versátil, sua história também é multifacetada, e isso faz com que existam alguns fatos que apenas poucas pessoas parecem saber sobre a Liturgia. Vamos, então, descobrir o que ainda não sabemos sobre a Divina Liturgia.

Existem muitos livros e artigos que tratam do simbolismo da liturgia. A Pequena Entrada com o Evangelho é dita para simbolizar o início do ministério público do Senhor, enquanto a Grande Entrada com os Dons, antes da comunhão dos fiéis, supostamente simboliza a aparição do Cristo ressuscitado. Embora eu esteja ciente da importância e do valor didático deste método de explicar a Liturgia, sugiro que nos afastemos dela e examinemos as abordagens históricas, dado que muitas partes da Liturgia surgiram como resultado de seu desenvolvimento prático e foram designadas com um significado sagrado retroativamente. Para fazer isso, teremos que viajar no tempo para Constantinopla, pois foi lá que nossa Liturgia ganhou sua forma contemporânea.

Como uma Liturgia começa hoje? Nós vamos à igreja pela manhã e ouvimos as Horas, então um diácono sai e exclama, Abençoai, Mestre!  (Благослови, Владико!) Parece familiar, não é mesmo? As coisas funcionaram de forma diferente em Constantinopla, no entanto. Havia muitas igrejas em honra de santos ou solenidades em Constantinopla. Era por isso que os dias do santo padroeiro nessas igrejas eram liderados por um bispo.

Procissão em Constantinopla. Uma miniatura de uma crônica.

As pessoas se reuniam na praça central da cidade no início da manhã e prosseguiam para a igreja, cantando hinos solenes. Os hinos solenes eram as três antífonas que ouvimos nos dias de semana ou nos grandes dias santos. Um cantor cantava um verso bíblico, e o coro do povo respondia com um refrão, por exemplo, Pela intercessão da Santa Mãe de Deus, salvai-nos, Senhor ou ó Filho de Deus, que ressuscitastes dos mortos, salvai-nos. A Vós cantamos: Aleluia! Isto é, a Liturgia começou no caminho para a igreja, não dentro dela.

Catedral de Santa Sofia. Remodelação, com um quintal na frente.
Catedral de Santa Sofia. Remodelação, com uma praça na frente.

Quando a procissão chegava à igreja, o clero e os fiéis, e muitas vezes até mesmo o imperador, reuniam-se fora da igreja em uma praça, onde liam uma solene oração de entrada. Todas as pessoas entravam na igreja cantando um hino, como o Trisagion. Quando o imperador chegava na igreja, eles cantavam um versículo do Salmo 20: “Salve, Senhor, que o rei nos ouça quando o chamarmos”. Eles também traziam o Santo Evangelho à igreja no mesmo momento. O Santo Evangelho geralmente era preservado em um prédio especial chamado sacristia.

Eu suponho que você reconheceu várias partes de nossa Liturgia contemporânea, isto é, a entrada solene com o Evangelho, o canto do Trisagion.

Mais tarde, as procissões pararam. As antífonas eram cantadas na igreja e a entrada solene da igreja foi substituída pela entrada solene do clero do santuário para a nave, mas os hinos que tinham sido usados ​​nos tempos antigos permaneceram.

Local da Cátedra da Igreja de Santa Irene. Constantinopla.

Vamos agora voltar a Bizâncio. Após a entrada na igreja, o bispo ia até o santuário e subia até o lugar mais alto, onde ficava a sua cátedra. Hoje em dia esse lugar mais alto é a parede leste do santuário, mas costumava ser um lugar alto no lado leste da igreja, que o bispo subia para que todos os fiéis pudessem vê-lo. Era a partir daí que ele saudava a todos, A paz esteja com todos vós! – que marcava o início da liturgia propriamente dita.

A saudação pastoral era seguida pela leitura da Sagrada Escritura. Hoje, estamos acostumados ao fato de que a Sagrada Escritura é lida tanto no santuário quanto perto dele. A leitura nos tempos antigos sempre ocorreu no centro da nave, em uma elevação especial chamada ambão. Atualmente, o ambão é a parte central da entrada do altar, mas era uma torre alta (às vezes chegando a quase 2 metros de altura), que um leitor ou diácono subia para proclamar a Palavra de Deus.

Ambão Central de Santa Sofia em Novgorod.

O bispo fazia a homilia imediatamente após a leitura do Evangelho. Originalmente, ele pregava do Lugar Alto, mas depois, desde o tempo de São João Crisóstomo, os bispos geralmente pregavam do ambão.

O sermão era seguido por uma oração para todos que precisavam. Um diácono fazia as preces e os fiéis respondiam com o Senhor, tende piedade de nós, às vezes mais de uma vez. Foi assim que nossas ectenias surgiram

Posteriormente, havia orações por aqueles que não podiam permanecer na nave por mais tempo, isto é, pelos catecúmenos, pecadores penitentes e possuídos. Eles eram autorizados a permanecer apenas durante a primeira parte da Liturgia e tinham que deixar a igreja depois de serem abençoados.

Assim que saíam da igreja, a Liturgia Eucarística começava.

As pessoas traziam suas ofertas à igreja antes do culto, incluindo pão e vinho. Eles colocavam essas ofertas em um prédio especial fora da igreja, que era chamado de sacristia. Diáconos e outros clérigos levavam o pão e vinho daquele prédio.

Anjos carregando os Dons em Procissão Litúrgica. Afresco do Mosteiro de Gračanica.

Quando todos os catecúmenos e penitentes deixavam a igreja, alguns dos clérigos deixavam a igreja por uma porta lateral e iam até a sacristia para trazer os Santos Dons, enquanto o clero restante, liderado pelo bispo, estava lendo orações antes do início da Eucaristia e lavando as mãos deles. Os clérigos levavam pão e vinho, juntamente com os vasos necessárias, e voltavam para a igreja pela porta lateral, onde eram recebidos por acólitos que levavam as velas. Os clérigos passavam pela igreja inteira, orando por aqueles que trouxeram suas ofertas, e então davam o pão e o vinho ao bispo.

Você pode imaginar que esta foi a origem da nossa Grande Entrada. Então, eles começavam a preparar o pão e o vinho no santuário, e assim o ritual de trazer os Santos Dons para a igreja se transformou em uma procissão simbólica com os Dons preparados da Proscomêdia para o Altar Sagrado.

Anáfora.

Em seguida, os bizantinos faziam o ritual do ósculo da paz, quando todos os presentes na igreja se cumprimentavam com um beijo. Mais tarde, esse ritual deu lugar à profissão conjunta de fé, ou seja, o canto do Símbolo da Fé.

Imediatamente depois, a anáfora era lida. A anáfora é a oração principal da Liturgia, na qual nós lembramos da Última Ceia e pedimos ao Senhor para enviar seu Espírito Santo para nós e para a nossa oferta de pão e vinho, e transformá-los no Verdadeiro Corpo e Sangue de Jesus Cristo.

É hora de falarmos sobre os nomes dos nossos ritos litúrgicos. Todos conhecem a Divina Liturgia de São João Crisóstomo e a Divina Liturgia de São Basílio Magno. A maioria das pessoas acredita que esses santos foram os autores do atual rito litúrgico e escreveram todas as orações e hinos desses serviços. Claro que não é esse o caso. A Liturgia foi desenvolvida por dois milênios. Havia partes da liturgia e orações que entraram na liturgia séculos depois de São João Crisóstomo e São Basílio e de modo algum poderiam pertencer a eles. Por que eles estão listados como autores de nossa liturgia? Isso porque (e a maioria dos estudiosos apóia esse ponto de vista) eles escreveram a oração central da Liturgia – a anáfora ou Oração Eucarística – e foi por isso que as respectivas liturgias receberam o nome deles.

De volta à liturgia. Assim que a anáfora acabou, as pessoas se preparavam para receber a Eucaristia e cantavam o Pai Nosso. Depois da Oração do Senhor, todos os que não participavam dos Santos Mistérios naquele dia deixavam a igreja após uma oração especial e uma bênção. É exatamente por isso que um diácono diz: Inclinai as vossas frontes diante do Senhor depois da Oração do Senhor.

Nós apenas arranhamos a superfície da história da nossa Liturgia. Naturalmente, não nos aprofundamos nos detalhes desse serviço. Há dezenas de trabalhos de pesquisa e monografias dedicadas a cada parte e até mesmo a cada hino da Liturgia. Eles investigam as origens desta ou daquela parte do serviço com um mínimo de detalhe. No entanto, até mesmo nosso breve relato pode lhe dar uma visão das origens de algumas partes da Liturgia e como elas foram incorporadas ao nosso serviço contemporâneo. Espero que este artigo nos ajude a rezar durante este serviço mais importante da Igreja do Oriente de forma mais consciente e atenta.

Autor: Alexander Adomenas.
Tradução: Ir. Marco Antônio Pensak, OSBM.
Fonte: clique aqui.

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