Desafios da Democracia num País em Busca de sua Identidade

Vivemos em um clima de pessimismo e de falta de esperança no Brasil, mas ainda existem razões para se ter otimismo e esperança em relação ao nosso país. O que significa não ser leniente com que está acontecendo: a corrupção e o cinismo no discurso das nossas autoridades.

Nós, como brasileiros, somos interessados por nossa história, mesmo que o nosso índice de leitura ainda seja baixo. Ao nos depararmos com um mundo homogeneizado, nós começamos a ir em busca de âncoras profundas de identidade porque não somos um produto pasteurizado, mas seres com característica e convicções individuais. Com isto, ganharam destaque dois fenômenos, por assim dizer: o da espiritualidade para responder o que faz sentido nesta vida; e o da história que nos confere identidade – é apenas olhando o passado que nós entendemos o presente não só como indivíduos, mas também como sociedade. Esta formação de identidade não se dá somente na dimensão passado-presente, ela se projeta no futuro porque tem elementos reais de acontecimentos, fenômenos e personagens do passado que realmente existiram, e que sustentam um arcabouço mitológico que nos forma pela maneira com que olhamos para nossa história. Quando tentamos construir o Brasil do futuro, nós usamos dos mitos do passado que nos sustentam no presente. Por isso, uma sociedade que não faz uso de sua história, não consegue se entender.

O Brasil passa por um período inédito: são mais de 30 anos de exercício da democracia representativa – o maior intervalo realmente democrático da história brasileira. Isto nunca aconteceu no passado. Nós somos chamados a participar da construção do futuro e podemos nos perguntar: quais são as nossas âncoras de identidade? A história tem um movimento no presente de acordo com as circunstâncias. Dom Pedro I, por exemplo, durante o recente Regime Militar era considerado como um herói marcial. Já na série O Quinto dos Infernos, é representado como um herói desqualificado. Os mitos, portanto, são checados o tempo todo porque, no fundo, nós estamos confrontando a nossa própria identidade. O exercício da democracia nos confronta e isso, aparentemente, é algo saudável. Primeiramente pode haver um susto, mas depois nos perguntamos: será que realmente somos assim? É aí que começamos a fazer perguntas como: será que somos democráticos ou a nossa índole é, na essência, autoritária? Há uma exaustão da democracia brasileira que passa a impressão de que nos iludimos com o movimento Diretas Já acreditando que, após uma ou duas eleições o Brasil seria uma Suíça. Nós estamos assustados com o fato de que construir um Brasil pela via democrática é algo muito difícil porque é necessário confrontar interesses antagônicos naturais dentro da nossa sociedade.

Neste sentido, parece ser necessária uma solução freudiana, isto é, precisamos de um pai que nos cuide e que coloque ordem na casa sem a necessidade da nossa participação. Esta exaustão nos confronta. Queremos soluções rápidas que não nos deem o trabalho de construir consenso, de construir soluções duradouras. Nós temos um Brasil em busca de uma identidade perdida – uma identidade que foi construída ao longo de muito tempo, mas que se perdeu pelo confronto da realidade. Nós estamos órfãos de identidade. Afinal, quem nós somos? O Brasil precisa encontrar um eixo comum que suavize os conflitos e, neste momento de confronto, é necessário voltar ao passado para nos perguntarmos: dá para construir o Brasil com a matéria-prima que temos à disposição?

Nós temos vários elementos construtivos da nossa identidade brasileira. Alguns positivos, como o fato, apesar da improbabilidade, de termos demonstrado no passado uma capacidade de ocupar e manter o território unido. Fato que a América Espanhola não conseguiu na época da independência, ocasionando a sua fragmentação. Nós mantivemos uma sociedade nacional unida num ambiente de muita diversidade geográfica, de clima, de cultura racial, de renda e de cidadania. Mas também tivemos elementos negativos que são passivos históricos e que não foram resolvidos de forma adequada e que nos assombram hoje e vão nos assombrar por muito tempo ainda, um deles é a desigualdade social que é uma herança direta da escravidão. No Brasil colonial e imperial, quem trabalhava era o escravo e uma consequência disso é termos, hoje, uma aversão ao trabalho manual como sendo algo totalmente indigno. Outro passivo é o analfabetismo. Quando a corte chegou no Brasil, estima-se que 99% da população fosse analfabeta. A educação nunca foi uma prioridade no Brasil. A primeira universidade foi criada em 1912 – a nossa imponente Universidade Federal do Paraná (UFPR). Além disso, há também o passivo da concentração de riquezas que é uma herança de latifúndios e que, hoje, não faz o menor sentido realizar uma reforma agrária que deveria ter acontecido há 150 anos.

Nós ainda estamos buscando a nossa identidade. Com tanto passivo social que não conseguimos resolver no passado, como poderemos exercer a democracia se a maioria do eleitorado quer troca de favores que tenham efeitos rápidos? Existe, de fato, uma tentação autoritária porque a população brasileira é muito desnivelada. Quando, no fundo, questionamos a democracia, nós estamos nos perguntando: como incorporar a massa de não cidadãos no processo decisório? Trata-se de um desafio enorme que nós temos pela frente.

Uma identidade, para ser realmente sólida, precisa ser produto de um pacto, isto é, a sociedade tem que se reconhecer coletivamente nessa identidade. E é isso que nos polariza tanto e que reflete uma intolerância: nós não queremos ouvir o outro. Nós estamos assustados com o que somos e fugimos do debate saudável para defender um posicionamento pessoal de maneira radical, rápida e assertiva.

Nós passamos por uma ruptura cultural muito drástica nas décadas de 1960 e 1970. Era um Brasil que tentava resolver o passivo da industrialização. O fato de, no passado, o Brasil ter preferido ficar com a exportação de matéria-prima sem agregar valor, criou uma ruptura de valores de crenças, de redes de apoio social que funcionavam muito bem no Brasil rural até 1950 e que não existem mais porque a solução deste passivo ocorreu de forma atabalhoada.

Diante disto, alguns desafios nos pairam no horizonte: a saída autoritária – que está muito forte e que nos provoca o tempo todo; a necessidade de fazer escolhas na democracia – é difícil, mas é necessária; a democracia se consolidará na medida em que ela devolver as esperanças do povo – educação e saúde de qualidade; a demonização do outro sem assumir a responsabilidade – por a culpa nos portugueses, no imperialismo americano, nas elites, no governo ou na mídia, tida como o grande demônio da atualidade; e o enorme desafio de qualificar a sociedade brasileira ao construir cidadania pela educação – não delegar este trabalho às escolas, isto deve ser construído nas famílias, nas empresas, na Igreja e não somente pelo Estado, pois somente uma massa crítica construirá um Estado melhor e mais qualificado num ambiente democrático.

É necessário calibrar as expectativas referentes ao Brasil. Sem termos uma atitude leniente, é preciso termos paciência. Os passivos são muito grandes e muito antigos. Nós não vamos conseguir resolvê-los de uma hora para outra. Isto é trabalho de gerações.

Os frutos virão mais lentamente do que imaginamos, mas eles serão resultados da história que construímos hoje. Nós somos desafiados a tomar providências e estamos adiando por medo de confrontar. Precisamos acreditar nas escolhas do passado e não as abandonar, pois estas sementes serão para que as gerações futuras colham os sonhos de hoje. O Brasil de hoje pode não ser o melhor, pode não ser o mais justo, mas o Brasil que nós sonhamos hoje pode, sim, ser melhor e mais justo se nós assumirmos o desafio de construí-lo hoje.

Autores: Alexandre Garcia Taques da Fonseca, Marco Antônio Pensak e Mateus Kozechen, estudantes do 2º ano do Curso de Filosofia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *