Papa Francisco, Maria e a Igreja

Por: Prof. Dr. Dom Rafael Maria, OSB

Na nossa obra, Guadalupe, Aparecida, Lourdes. Três mariofanias uma mesma mensagem… abordamos um tema inédito a respeito da interpretação do encontro da Imagem quebrada de Nossa Senhora da Conceição, em 1717. Este trabalho de mariologia eclesiológica visa inteiramente a uma investigação a partir das simbologias em que todas as «aparições» marianas estão inseridas e que a teologia deve por sua vez decodificar os símbolos. Todas as mensagens de uma aparição, quer seja falada ou silenciosa, como foi o caso de  Aparecida, Knock (Irlanda), Zeitun (Egito) e outras há uma sintonia com a história da humanidade e da Igreja que faz parte dela. A mariofania de Nossa Senhora da Conceição Aparecida está envolta pelo clamor de Deus através de Maria, membro vivo e mãe da Igreja.

A veneração a Nossa Senhora da Conceição Aparecida em terras brasileiras, é um culto à Virgem Maria que a trezentos anos ficou nas ovações meramente devocionais e com interpretações imediatistas no campo de um antropologismo e sociologismo pouco científico. Imitiou-se a interpretação da inculturação de Nossa Senhora de Guadalupe, em que ainda é carente de profundas investigações mariológicas também. Aplicou-se a Aparecida o que haviam aplicado os teólogos da libertação a Guadalupe, isto é a questão do índio, marginalizado, dizimado e do pobre. Assim o fizeram com relação a mariofania aparecidense, aplicando a esta, a causa dos escravos e dos pobres. Ora, este modo de mariologismos fere totalmente a uma autêntica ciência teológica em que a exegese e a hermenêutica que envolve os fenômenos divinos devem se lidos, estudados e contextualizados na perspectiva de Deus que age na vida do seu povo, tal qual a Sagrada Escritura, a Tradição, o Magistério e a Liturgia nos ensinam.

A nossa análise mariológica sobre Aparecida parte do princípio de uma mariofania que convida a Igreja a ler os acontecimentos em que a Sacra Imagem foi encontrada e seus aspectos proféticos inerentes naquele período e que fazem eco ainda hoje. Pois bem, o encontro da veneranda Imagem em 1717 ao nosso ver é um «apelo» de Deus através de Maria, imagem e modelo da Igreja a reflexão e convite à conversão. A Igreja no séc. XVIII, assim como a vida social do povo estava passando por incríveis mudanças e turbulências, fruto das ideologias filosóficas disseminadas pelo Iluminismo e que vem culminar com a Revolução Francesa de 1789. A barca de Pedro sofreu grandes abalos seja no seu interno, como no seu externo, onde o povo de Deus se viu a mercê de grandes influências nocivas à Revelação divina e às característica da essência da Igreja, mãe  e mestra da fé.

A Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, encontrada quebrada/dividida em duas partes, corpo e cabeça separados, no nosso ver é um recado de Deus mostrando a situação em que a Igreja se encontrava e por que não dizer se encontra com os ataques à pessoa do sucessor de Pedro, o papa Francisco nos dias de hoje. As forças da Igreja no séc. XVIII estavam enfraquecidas internas pelas constantes intrigas clericais e as ingerencias do Estado. Hoje, não é diferente a situação! A Igreja do séc. XX e XXI está em contínuo atentado interna e externamente, a «unidade» por um fio de navalha, a Cabeça separada do Corpo ou vice-versa.

Mas o que fazer então? Eis que a iniciativa partiu dos pescadores de 1717: envolveu a imagem em panos, levou-a para sua casa (Igreja doméstica) e começaram do zero com a oração e no testemunho da força da intercessão de Maria na vida da Igreja. Fruto desta iniciativa, inspirada por Deus é o que nós temos hoje, o esplendoroso santuário de Aparecida, testemunho do quanto a Virgem Maria, como nova Ester pode fazer em socorro de seu povo, a Igreja.

Rezemos incessantemente pelo papa Francisco, pela unidade e conversão dos católicos dentro e fora da Igreja.

Sobre o autor: Dom Rafael Maria (Altamir Francisco) da Silva é monge beneditino desde 1981. Possui Doutorado em Teologia com especialização em Mariologia pela Pontificia Facoltà Teologica Marianum de Roma (2008); Diplomado em «Counseling» (Acompanhador Espiritual e Counseling), pela Pontificia Facoltà Teologica Teresianum de Roma (2004-2007); Possui diploma para «Postulação para Causa dos Santos», pela Congregação para Causa dos Santos, Cidade do Vaticano (2002-2003); Diploma em «Teologia com especialização em Monástica», pelo Pontifico Ateneo Sant’Anselmo de Roma (1996-1998). Tem experiência de ensino em Filosofia Medieval e Teoria da Justiça. Tem experiência na área de ensino, pesquisa e extensão na área de Mariologia e de Teoria da Justiça na Patrologia.

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