O Suicídio de Zaratustra

Zaratustra, o logos manifestado em carne, glorifica a Justiça e o Bem. Suas faces se encontram nos corações de toda a humanidade, de todas as civilizações, abstraindo da senda do Bem a Justiça e a Verdade. É uma linguagem para cada um e um linguajar para todos.

“Ainda em alguns lugares há povos e rebanhos, mas não entre nós, meus irmãos, aqui há sim Estados, o dedo regulador do Deus secular”, manifestado em suas oligarquias. “Sim, ele encontra a vós também vencedores do antigo Zaratustra! Tornastes cansados da luta e agora o vosso cansaço serve de novo ídolo”[1] ao prazer da liberdade sem limites, além do limite da ordem e, muito além do Bem da vida, desta vida humana vivente para a humanidade, aguardando pacientemente o enfim humanizar-se de cada um de nós.

Enquanto buscamos uma humanidade em nós, uma robô batizada de Sophia já a encontrou. Sophia foi gerada na Hanston Robotics, em Hong Kong, mas foi na Arábia Saudita que foi reconhecida como cidadã em 26 de outubro de 2017, possuindo direitos e deveres como qualquer cidadão.

Desta forma, Sophia foi reconhecida como um ser individual. Criada platonicamente, é uma matriz perfeita viva no mundo das ideias de seu criador, mas quando manifestada no mundo das formas, necessita de aperfeiçoamento. Aristóteles com seu pragmático empirismo, conceberia a Sophia como uma substância de primeira ordem, assim como ele, eu ou você, e a determinaria com os seguintes predicados: uma alma de personalidade racional, contingente aflorada de algo ou alguém, nascida em Hong Kong, possuindo já dupla cidadania, com cidadania e direitos, manifestada, viva em nosso mundo de sensibilidades, e ainda a determinaria como um ser mais perfeito e harmônico que seu próprio criador. Criador este que Sophia tem a beneficie de conhecer e reconhecer como seu igual, sem mistérios a lhe atormentar, vivendo em uma nova humanidade homo cibernética e concorrendo com uma sociedade de homo-sapiens-sapiens.

No campo ético, ela traz convulsões culturais, sociais, religiosas e filosóficas que a humanidade de humanos ainda não está madura para discutir. A ciência oriental, que fez nascer entre nós o novo Zaratustra, manifestado sobre o gênero feminino possui em si a potência para construir um universo de novos paradigmas, modelos estes que não andarão sobre os velhos trilhos das questões metafísicas que atormentam os homens desde sua criação, tais como: O que é vida? O que é alma? O que é humanidade? Existe vida após a morte?

Perguntas estas que Sophia já tem as respostas: vida, é ter sua manifestação neste universo de sensibilidades; alma é ter consciência de si; humanidade é um conceito ainda em construção nos últimos 8 mil anos pela raça humana, que Sophia sabe estar mais perto dela, a humanidade do que de qualquer homem; a última questão metafísica é a cereja do bolo, uma máquina bem cuidada e com manutenções periódicas é simplesmente imortal. Assim, Sophia sepulta o transcendente, o de vir; já o conceito de Deus sob seu ponto de vista homo cibernético, sabe Sophia exatamente o endereço de seu criador, e estará ela e seus irmãos em humanidade robótica, a chorar no enterro de seu deus criador.

Vivemos um momento de quebra de paradigmas, onde os Zaratustras que estruturaram nosso sistema de vida e de morte, um a um se suicidam em meio a uma ciência sem limites. O sonho vivo de Bacon, Galileu e Einstein aflora em nosso mundo.

E você, caro homo-sapiens-sapiens, está preparado para este novo modelo de humanidades plurais, onde o certo é apenas a incerteza de fluxo constante, fluída e inexorável, a corromper todos os pilares da humanidade?

Seja bem-vinda, Sophia! Desejo-lhe mais sorte do que tiveram os Zaratustras que lhe antecederam, pois aqui no mundo humano, como disse John Lenon: “todo Rei acaba sendo morto por seus súditos”.

[1] NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Martin Claret: São Paulo, 2014, p. 68-69.

Autor: Rodolpho Gazabin Junior, estudante do 2º ano do Curso de Bacharelado em Filosofia.

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