O Pensamento Político de Santo Agostinho

Prof. Dr. Rogério Miranda de Almeida

Quando se pensa no pensamento político de Agostinho de Hipona (354–430), pensa-se, quase que irrefreavelmente, na obra: A Cidade de Deus. Deve-se, no entanto, ter em mente que, nesta obra, o teólogo não desenvolve a concepção de um Estado ideal ultraterreno, nem tampouco aspira ele a uma teocracia nos moldes daquela instaurada por João Calvino no século XVI, em Genebra. Não se trata, ainda menos, do reino de Deus profetizado pela escatologia cristã – a “Jerusalém celeste” do Apocalipse – que caracterizou os movimentos milenaristas, ou quiliásticos, da Idade Média. Enfim, A Cidade de Deus não reivindica uma constituição ideal, divinamente inspirada, que deveria orientar e dirigir os Estados nas suas realizações políticas, econômicas, sociais e jurídicas. Trata-se, antes de tudo, de uma imagem escatológica do Reino de Deus, ou dos Céus, que, segundo o autor, se manifestará como o cumprimento das promessas feitas por Deus a Abraão (cf. Livro XVII, 1). Nesta perspectiva, a Igreja se apresenta, já aqui na Terra, como uma antecipação do Reino dos Céus, ou da Cidade Celeste.

Mas – fato importante – a Igreja se revela como um corpo misto (corpus mixtum), porquanto existem aqueles que a ela pertencem essencial e espiritualmente, e outros não. Dito de outro modo, há uma mediação entre estas duas características da Igreja: uma pela qual ela representa o Reino de Deus e outra pela qual ela é um corpo misto e, portanto, ambíguo, contingente, finito. Ela preludia o que se concretizará na parousia e na escatologia, mas, justamente por isso, ela ainda caminha na história, ou nos limites da história e da existência humana. Assim, elucida Agostinho: “Também no tempo reinam com Cristo os seus santos, mas de modo diverso de como reinarão no final dos tempos; com ele não reina o joio, embora, na Igreja, cresça ele juntamente com o trigo” (Livro XX, 9,1).

É, pois, A Cidade de Deus uma obra política? Não no sentido de um tratado ou de um ensaio especificamente político. Ela se desenvolve antes como uma filosofia da história ou, mais propriamente, uma teologia da história. Na verdade, a primeira grande teologia da história, haja vista a enorme influência que ela exerceu – com toda uma gama de interpretações e ambiguidades de interpretações – ao longo da Idade Média, e mesmo nos tempos modernos.

Gostou deste artigo e quer saber mais? Confira abaixo a conferência do Prof. Dr. Rogério Miranda de Almeida sobre O Pensamento Político de Santo Agostinho na X Semana de Filosofia.

PROF. DR. ROGÉRIO MIRANDA DE ALMEIDA
DOUTOR EM FILOSOFIA E TEOLOGIA

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