Um caminho com esperança no Senhor | Série: Espiritualidade Basiliana

Este é o terceiro texto da série preparada pelo Pe. Cristiano Silva, OSBM, sobre a vida cristã e a busca das virtudes teologais da fé, da esperança e do amor.

Um caminho com esperança no Senhor

Se dizemos que o abalo da fé e a perda de sentido nas coisas de Deus faz arruinar o comprometimento do nosso Batismo, de igual modo ocorre com a perda ou enfraquecimento da esperança. A esperança em Deus é uma grande força motriz, pois ela é uma fortaleza que impede de cairmos no desanimo, no pecado e até no comodismo. A esperança, mesmo no sentido profano é um agente que nos faz sair de qualquer instabilidade ou crise. A virtude da esperança da todo um sentido para o que quer que façamos ou creiamos, ela perpassa evoluindo de perspectiva em certeza absoluta. Poderíamos dizer que ela completa a caridade que brota da fé no Evangelho.  A virtude da esperança é a certeza e a confirmação de tudo o que se fundamenta na fé e se exerce no amor [1].

Pela revelação dos evangelhos temos a certeza do Reino de Deus já dado aos homens, mas pela fé, esperamos a sua plenitude e a salvação após esta vida. Todas as consequências humanas como a doença, a dor e a morte, orientadas pela perspectiva cristã, ultrapassam os limites do desespero. Já no Velho Testamento a esperança se fundava na promessa divina. A palavra de Deus é vocação, que coloca o homem em marcha, tirando-o do agora e suscitando um futuro. Assim foi com Abraão, por exemplo, que iniciou a história da esperança bíblica. O futuro garantido da promessa em uma terra e uma nação prospera e numerosa. Quando o povo esquecia que o futuro feliz é dom de Deus e da aliança, os profetas intervinham, denunciando uma esperança ilusória (Jr 8,15;13,16). Quando o povo eleito parecia não ter mais expectativas, os profetas convidavam a continuarem na esperança e ter confiança no Senhor, que “ esconde a sua face da casa de Jacó, nele ponho a minha esperança”. (Is 8, 17). Porém, chegará o dia em que Israel será pleno da presença de Deus, porque Deus renovará os corações de todo o povo (Jr 31,33).

A esperança é o abandono filial ao Pai, “ que sabe o que é necessário, antes de pedir” (Mt 6,8), e que concede generosamente o que é pedido “ (Tg1,5). Como o Salvador que redime a sua vida entregando-se nas mãos do Pai (Lc 23, 46), do mesmo modo o cristão está ancorado no eterno, sendo a esperança como uma ancora espiritual, segura e firme, que está penetrada com segurança numa base segura. (Hb 6,19-20).

A Esperança cristã, que é dom de Deus, suscita em cada um vários comportamento, sobretudo a fé e a audácia. É a espera confiante da salvação da futura, quando Cristo vier e realizar as promessas em Deus. É uma coragem paciente e perseverante, que não dá lugar ao desencorajamento nas provações ou tribulações. É a audácia do Espirito, que se gloria unicamente no amor e na potência salvífica de Deus, renunciando a toda forma de autossuficiência e segurança.

É através da oração que se compreende o que seja a esperança cristã, e o significado da oração se torna mais claro quando compreendemos a realidade da Esperança. Na oração do Pai Nosso, por exemplo, vem definitivamente representada a relação existente entre a oração e a Esperança cristã. Na segunda parte da oração ensinada pelo Senhor, se responde as angustias cotidianas do homem, encorajando-o a transformá-las em esperança mediante a suplica: de fato a misericórdia de Deus sempre perdoa o pecador arrependido e com a sua graça todas as coisas são possíveis. Nas variadas formas de esperanças, permanecem a esperança fundamental, ao nosso desejo do reino de Deus, com o qual se inicia a oração do Pai Nosso.

A vida de oração ou vida interior é uma das obrigações e pilares da vida de um cristão. Mas ela não deve ser uma exigência, um peso, ou dever. Rezar é nada mais que uma inclinação natural de quem tem esperança em Deus. A vida de oração é também um gesto de puro amor do religioso para com o objeto do seu amor que é Deus. Quem tem tanta dificuldade de rezar deveria repensar a medida com que está correspondendo ao amor divino.

No Antigo Testamento, especificamente no livro do profeta Daniel lemos que o jovem Daniel, desde criança era piedoso e tinha um grande amor pela oração. Daniel, junto com seu povo viveu sob o jugo babilônico. Mesmo na escravidão, ele jamais se descuidou dos mandamentos de Deus e de suas orações. Por isso, Deus concedeu a ele muita sabedoria e dom de compreender os mistérios das coisas.  A oração é luz para o nosso pensamento. Nossa inteligência é criada por Deus para o conhecimento das coisas. A mente sempre procura a compreensão e a verdade de tudo, mesmo que não as encontre. Por quê? Porque na busca pela compreensão das coisas a inteligência encontra vários percalços que obstruem o entendimento. Para chegar ao conhecimento e a verdade das coisas, nossa inteligência necessita de uma iluminação apropriada. O intelecto, por si só é limitado. Portanto, na oração ele encontra a inspiração da luz divina que permite enxergar e compreender tantas realidades desta vida e da Eternidade.

Com o esclarecimento da inteligência através da oração nós atingimos um certo grau de entendimento. É através desta potencialidade que se torna possível atingir conhecimentos intangíveis de modo normal. Através da oração dos salmos por exemplo, nas horas litúrgicas, devemos concentrar a presença total do nosso ser para absorvermos ao máximo aquilo que as palavras dos salmos dizem e concentrando-se em Deus, esquecer-se de maus pensamentos, mas penetrar firmemente nas coisas de Deus.  O entendimento é a potencialidade superior da alma, pela qual esta contempla o invisível…por meio da atividade do entendimento, isto é, pela atenção interior e pela compreensão, nós nos guardamos dos maus pensamentos e nós voltamos somente a Deus, tomando consciência da sua presença [2]. Inclusive São Basílio insiste para que estejamos sempre muito conscientes da presença de Deus; assim é possível evitar a divagação e fazer nossas obrigações com plena presença de corpo e de espirito[3].

Somente na oração se torna possível alcançar conhecimento de situações da vida, que provem da intervenção e da providência divina.  Por meio da prática da oração a inteligência humana se depara por exemplo com as verdades eternas e chega ao nível de compreende-las (morte, julgamento, vida eterna, sentido da existência). Poderíamos dizer, que nós, todos juntos num itinerário de esperança em Deus somos embalados pelas orações coletivas, buscando em Deus superar as más tendências e produzir frutos através do nosso Batismo. Na pratica da oração, somos fortalecidos no amor e pedimos a Deus a “imunidade” contra o mal e as tentações.

A esperança em Deus movimenta-se durante toda uma vida no mosteiro, que é acompanhada de oração e produz frutos em abundancia: O salmo é a quietude da alma, instrumento da paz, que acalma os pensamentos inquietos e tempestuosos. Ele vence também o ódio aninhado na alma e detém a licenciosidade. O salmo fortalece a amizade, pacifica os litigantes e reconcilia as inimizades…ele é proteção contra os temores noturnos e repouso após o trabalho do dia inteiro...[4]. Inclusive a recitação dos salmos, ou salmodia é considerado o núcleo primordial da liturgia basiliana.[5]

Rezando o homem coloca diante de si as realidades e valores da vida humana е posiciona a sua existência no mundo. É como uma vara magica que abre a mente para um olhar mais profundo à realidade da vida e da morte. De maneira esperançosa, professando a esperança em que cremos, com nossos lábios e nossa mente, através da oração, nos caminhamos mais de acordo com a nossa fé. “Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo” (Rm 15,13).  

Quando esperamos em Deus, a pratica da oração se torna uma inclinação natural, e é mais fácil permanecermos no caminho reto dos mandamentos de Deus. São Basílio orienta para que nosso comportamento seja digno da vocação a que fomos chamados, e que seja compatível com a esperança nos bens eternos: …pensai sobre coisas que são dignas da vocação celeste e comportai-vos de forma digna do Evangelho de Jesus Cristo, na esperança da vida eterna[6].  Dizem alguns peritos, que o último passo ou estagio da oração é encerrar a oração com o “Amém”, concordar com Deus, estar disposto a vontade de Deus. É estar bem consciente de que a vontade do Senhor é de acordo com a sua sabedoria, que conhece o que é o melhor para cada um de nós.

Nossa natureza não tem capacidade de contemplar as coisas celestiais por sua própria força. Precisamos aprender com Deus o que devemos pensar acerca Dele. Não temos outra fonte de conhecimento senão o próprio Deus. Você pode ser tão bem instruído quanto possível na filosofia secular e ter vivido uma vida de retidão. Contudo, apesar de tudo isso acrescentar à tua satisfação mental, não ajudará você a conhece a Deus”. (Hilário de Portiers).

Sugestões de temas bíblicos: Ex 5, 22- 6-1 / Jó 42, 1-16 / Mt 6, 5-8 / I Tm 2, 1-7.

[1] Máximo Confessor, Cartas, III.

[2] Cristo nossa Páscoa, n. 803.

[3] Regas breves, n. 21.

[4] Homilia sobre o Sl 1, 2.

[5] Pe. Soter, São Basílio, p. 26.

[6] Sobre a Fé, 5.

PE. CRISTIANO SILVA, OSBM
ESPECIALISTA EM ESPIRITUALIDADE

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