Viver o amor na esperança e na fé | Série: Espiritualidade Basiliana

Este é o segundo texto da série preparada pelo Pe. Cristiano Silva, OSBM, sobre a vida cristã e a busca das virtudes teologais da fé, da esperança e do amor.

Viver o amor na esperança e na fé

A vida cristã, permeada por virtudes de diversas naturezas, vem a ser um caminho teologal. É uma busca de participação na própria vida de Deus: o ser humano, pelo dom do Espirito, se torna Filho do Filho. É uma iniciativa de unificação do ser humano com o Ser Deus, que se fez humano. Contemplando a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade o cristão orienta sua vida em fazer dela um bem maior, que supera suas próprias vontades ou projetos. Assim, é possível que cada um se abra a um projeto de superação e amadurecimento do Eu (Ego), dando lugar a um “Nós”, que é fundado na , vivido com Esperança e partilhado no Amor (caridade). A partir do exemplo de Cristo, casto, pobre e obediente ao projeto do Pai, os cristãos são chamados à santidade e iniciam um caminho de virtudes, baseadas no estilo de vida ensinado por Cristo. Partir de Cristo significa proclamar que a vida cristã é especial seguimento de Cristo e memória viva da forma de existir e atuar de Jesus, como Verbo encarnado face ao Pai e aos irmãos [1].

Esta união do ser humano com Deus, reflete o projeto originário do Criador e se revela plenamente na “vida nova” (Rm 6,4) dada em Cristo: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas e se faz uma realidade nova”. (2 Cor 5, 17). Existir e viver no Senhor se traduz no seguir radicalmente Ele, acolhendo todos os ensinamentos, imitando o seu comportamento, deixando-se identificar com a sua Pessoa. A identificação com Deus e superação de si não é um tipo de desprezo pelo “eu” ou anulação da individualidade, pelo contrário, é uma elevação da dignidade humana e um encorajamento ao seu aperfeiçoamento.

A opção fundamental no seguimento radical de Cristo, acontece na caminhada da prática das virtudes teologais. Elas habilitam, podemos dizer assim, o cristão a vivenciar uma experiência na participação da vida trinitária, recebida por dom do Espirito. O cristão, nesta dimensão teologal, segue o Senhor, participando efetivamente da sua experiência vital. Na fé ele participa do conhecimento que Jesus há do mistério de amor do Pai. Na Esperança acolhe com confiança a salvação operada de Deus através de Cristo. No amor, partilha este amor de Deus com o próximo. Entre esses discípulos, os reunidos nas comunidades religiosas, mulheres e «homens de todas as nações, tribos, povos e línguas» (Cf. Ap 7, 9), foram e são ainda hoje uma expressão particularmente eloquente desse sublime e ilimitado Amor [2].

Esta caminhada de Fé, Esperança e Amor se relacionam reciprocamente, elevando a uma dimensão sobrenatural das capacidades do homem. O conhecer, o querer e o amar, se transformam numa abertura ao projeto divino que tende a Verdade, à felicidade e ao amor. No fundo, tudo o que buscamos nesta vida tende basicamente a estes três valores.

O itinerário teologal na vida cristã é facilitado pela vida fraterna (Nós). Nos reunimos em assembleia não por alguma ligação cultural, afinidades pessoais, partilha de ideias ou ideais políticos, como acontece com os outros agrupamentos de pessoas. Nos encontramos porque temos todos uma mesma caminhada.

Fé, Esperança e Caridade se tornam forças operantes e convergem no primado do Amor, que é o coração da moral cristã e da vida cristã. A experiência nas virtudes teologais, traçada num itinerário de busca de perfeição, tem seu ponto de partida em Cristo, que confere a integridade na prática concreta da Fé. Acolhendo a Fé, Esperança e Amor como um dom, o cristão faz uma escolha fundamental que vai orientar todo seu modo de agir e viver durante toda uma vida. Todas as suas escolhas e ações são feitas sob um horizonte teologal, isto é, à Luz da Santíssima Trindade. Fé, Esperança e Caridade são fundamentalmente uma unidade intrínseca: A Fé que espera e que ama.

A partir do Vaticano II se fala da santidade como vocação universal. Agora, esta vocação universal a santidade, significa chegar a perfeição da caridade, ou Amor. A santidade é a vivencia de Amor, fé e Esperança. A Tradição da Igreja nos mostra que o amor verdadeiro tem que ser caridoso, motivado pelo mandamento do Senhor e não somente pelos nossos impulsos naturais.   A vivência diária do Batismo, deve ser uma vivência diária de amor que leva a pessoa até a perfeição da caridade, ou santidade de vida.

A caminhada de experiência religiosa demonstra uma perspectiva não só de um certo tipo de espiritualidade, mas uma pratica concreta, ou uma ética cristã que surge a partir desta mesma experiência. Assim sendo, as virtudes teologais fundam, animam e caracterizam o agir moral do cristão perfeito, como nos diz São Basílio. Todas as outras virtudes e práticas ascéticas são fundamentadas nestas três primeiras.

A fé não é só uma capacidade da inteligência humana, mas é dispor toda uma vida sob o desejo e ação de Deus. O apóstolo Paulo afirma que o Evangelho é a força de Deus que é dada ao homem pela fé; é a força pela qual vive o justo (Rm 1,16-17). Esta força de Deus é chamada pelo apóstolo de ‘virtude’, designando as potencialidades interiores da pessoa que é renovada em Cristo, sua capacidade para o bem (Fl 4, 8-9). Pela virtude, o homem torna-se capa de viver e agir em Cristo [3].

A Fé não é uma aceitação abstrata de dogmas e verdades que são incompreensíveis para a razão, mas um conhecimento profundo, ou um despertar da consciência para uma existência de um Ser supremo e uma vida além desta realidade que nos cerca. Disponibilidade que brota do coração humano, decisão do espirito no qual a profundidade da pessoa em sã consciência de si e plena liberdade de amar, se une em uma integração do intelecto, da vontade e da memória, da afetividade. 

A fé é a primeira virtude cristã, parâmetro de todas as outras, mesmo sendo o amor, a maior de todas (1Cor 13,13), ela é importante porque se refere a Deus de maneira mais perfeita, pois sem ela, nenhuma outra virtude pode ser perfeita. Obviamente a fé em Deus é a força motriz para impulsionar todas as outras conquistas espirituais no caminho ascético. Ela é o princípio da salvação do homem, fundamento e raiz de cada justificativa; conformada com a caridade infunde um temor filial a Deus que motiva o distanciamento do pecado, e purifica o coração das paixões e das coisas terrenas. O amor e o temor filial de Deus parecem estar intimamente ligados, sem dúvida motivados pela fé, em Deus, que é Misericórdia, mas também Poder e Soberania. O temor de Deus é dom do Espirito Santo, não deveria ser negligenciado ou até mesmo negado, como vemos alguns exemplos por aí. A reverência e o temor ao Criador vêm como fruto da proporia fé; é o que  confirma a própria Liturgia[4].

Antes de mais, a fé, além de ser um ato do homem que crê, ela é uma ação de Jesus Cristo Salvador, que no Espirito transforma interiormente o homem em nova criatura (2 Cor 5,17). E mesmo nas duras prova de fraqueza, escuridão e enfraquecimento da fé, é sempre presente a graça de Deus por meio do dom da fé. Por isto a fé é chamada “virtude teologal”, porque vem de Deus, e tem Deus como objeto e fim.

A fé envolve e abrange o cristão em toda a sua humanidade: a fé esta para o cristão, como o cristão está para a fé. Portanto aquele que é batizado, é aquele que diz, “permanecer em Cristo”, deve “se comportar com Ele se comportou” (1 Jo 2,6) transformando toda a sua vida numa existência de amor profético que seja capaz de comunicar ao mundo e a sociedade que “Deus é amor”. Toda esta oferta da própria vida deve se tornar para o mundo testemunho vivo do amor divino, caso contrário, terá sido totalmente em vão uma vida inteira de renuncias e abdicações. (1 Jo 4, 8).

O chamado de Deus cumprido através deste caminho profético de imitação radical de Cristo, faz com que a pessoa viva uma vida profética e missionária. A partir da experiência de vida, o cristão, animado pelo Espírito, deve ser colaborador da missão universal da Igreja de proclamar o Reino de Deus.

“Quem exercita sua fé por meio do amor precisa ter esperança no que Deus promete. A esperança é, portanto, parceira da fé, visto que a esperança é necessária enquanto não vemos aquilo em que cremos; caso contrário, por vermos, falharíamos. Não ver nos deixa tristes, mas a esperança de ver nos conforta…o amor também é parceiro da fé. Nós ansiamos ardemos de desejo por ele e temos fome e sede dele. Então, juntos, há fé, esperança e amor”. Se você crer sem amor, não realizará diligentemente boas obras. A fé purifica o coração e é exercitada pelo amor” (Santo Agostinho).

Sugestões de temas bíblicos: Ex 3, 1-12/ Ex 14, 15-30/ Mt 5, 1-12/ Rm 15, 1-13.

[1] Partir de Cristo, n. 22.

[2] Vida fraterna em comunidade, introdução.

[3] Cristo nossa Páscoa, n. 831.

[4] “Aproximai-vos com Fé e temor de Deus” (Divina Liturgia).

 

Pe. Cristiano Silva, OSBM
Especialista em espiritualidade

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