Tudo o que você sempre quis saber sobre a iconóstase

Na tradição da Igreja Oriental, a veneração dos ícones está organicamente vinculada às celebrações litúrgicas nos templos. O templo é o lugar de encontro entre o celeste e o terreno, entre o invisível e o visível, entre Deus e os homens. Esse encontro acontece na Divina Liturgia e os ícones representam visivelmente este mundo celeste, invisível e divino. Os ícones estão dispostos na iconóstase, a “parede” que separa e ao mesmo tempo une a abside e a nave dos fiéis. A abside representa a presença invisível de Deus, o céu para o qual caminhamos; e a nave dos fiéis representa o mundo visível da vida terrena, onde transcorre a nossa peregrinação da vida.

 

O servo de Deus, metropolita Andrey, diz: “Aquela parte que está atrás da iconóstase, onde está o altar e onde é celebrada a Divina Liturgia, é a imagem do céu. A parte onde está o povo é a imagem da Igreja na terra. A iconóstase é como se fosse a porta que conduz à eternidade do Reino de Deus. Na iconóstase está reunido tudo aquilo que Jesus Cristo dá aos cristãos na santa Igreja, tudo aquilo que ele fez por nós. Tudo está representado nos ícones, o que a Igreja ensina aos homens e todo o caminho que conduz ao céu”[1].

 

Na iconóstase há três portas: uma central, chamada “régia”, também denominada “porta do paraíso” ou “porta santa”, e duas portas laterais, chamadas “diaconais”. Elas simbolizam o vínculo entre o céu e a terra; elas são abertas em sinal de que Deus e seus anjos se fazem presentes durante as celebrações. Isso é simbolizado pelo fato de que o bispo (ou o presbítero) e os diáconos entram e saem pelas portas da iconóstase durante a Liturgia. Na porta “régia” está o ícone da Anunciação e dos quatro evangelistas, nas portas laterais estão os ícones de arcanjos ou diáconos. Esses ícones representam o fato de que a Boa Nova sobre a vinda do Messias foi dirigida em primeiro lugar a Maria de Nazaré, e que o seu consenso em aceitar a maternidade divina abriu as “portas do paraíso”, antes fechadas por causa do pecado. A Boa Nova sobre o Messias-Cristo foi anunciada ao mundo pelos quatro evangelistas. Os ícones dos evangelistas na porta “régia” e o ícone da Última Ceia acima deles indicam que entramos no Reino de Deus pelo acolhimento da mensagem evangélica e participando da Santa Eucaristia.

 

Atrás da porta “régia” há uma cortina (em grego katapetasma). Normalmente ela permanece fechada, e sua abertura durante a Liturgia simboliza que o Deus invisível e insondável se manifesta a nós, torna-se acessível para nós.

 

Do lado direito da porta “régia” está o ícone de Cristo. Normalmente, Cristo é representado como “todo-poderoso”, Pantocrátor vestido de túnica e manto (em grego himatia Com a sua mão esquerda ele segura um livro, e com a direita abençoa. À esquerda da porta “régia” está o ícone da Mãe de Deus, representada segundo o modelo iconográfico da “Odiguítria” (a “Guia”): com uma das mãos ela segura o Menino Jesus, apontando-o com a outra mão. No lugar do ícone “Odiguítria”, em outras iconóstases vem o ícone da Mãe de Deus “Eleusa” (“Ternura”), no qual o Menino Jesus tem o rosto ternamente encostado na Mãe de Deus. Também são usados na iconóstase outros ícones da Mãe de Deus, como, por exemplo, a Mãe de Deus sentada no trono, tendo nos seus braços o Menino Jesus. Em conjunto, os ícones de Nosso Salvador e da Mãe de Deus, de ambos os lados da porta “régia”, expressam todo o plano de salvação: o Filho de Deus tornou-se homem, o Cristo vestido na túnica purpúrea, coberta do manto-“himatia” azul, para tornar a nós, homens, representados pela Mãe de Deus, partícipes de sua Divindade; a Mãe de Deus está vestida de túnica azul, coberta com capa de cor púrpura.

 

Dos dois lados das portas diaconais estão mais dois ícones. Do lado sul (direito) encontra-se o ícone do padroeiro da igreja, e do lado norte (esquerdo), segundo o costume, vem o ícone de São Nicolau Taumaturgo. A primeira fila de ícones na iconóstase, incrustados na porta régia, nas portas diaconais e os quatro ícones frontais, chama-se “vicária”. A segunda fileira, chamada “festiva”, é composta de ícones das doze festas do Senhor e da Mãe de Deus. Às vezes, nesse conjunto podem ser colocados outros ícones. A ordem de sua disposição nessa fileira pode ser diversa: às vezes eles obedecem à sequência do calendário litúrgico; por vezes do lado norte são colocados ícones das festas da Mãe de Deus, e do lado sul, os ícones das festas do Senhor. Esses ícones não representam simplesmente eventos do passado, mas as principais etapas da história da salvação: na representação das festas do ano litúrgico, a comunidade revive esses eventos, acolhendo a especial graça do Natal, da Teofania e de outras festas.

 

Acima da porta “régia” encontra-se o ícone da Última Ceia: diante dele os fiéis aproximam-se para receber a Comunhão, participar da Ceia do Senhor. “Quando vês o sacerdote te oferecendo os Santos Dons, pense que não é o sacerdote que o faz, e sim o próprio Cristo que te estende a mão […]. Crede que hoje foi preparada aquela mesma Ceia, da qual ele mesmo participou. Não há diferença alguma entre uma e outra”[2].

 

Na terceira fileira de ícones da iconóstase encontra-se normalmente o ícone “Deisis” (em grego, súplica), que representa Cristo e, em cada um dos lados, a Mãe de Deus e João Batista, os arcanjos Miguel e Gabriel. Nesta fileira, do lado direito e esquerdo do ícone “Deisis”, estão representados os apóstolos. A “Deisis” representa a súplica da Igreja perante Cristo: a Igreja celeste e a Igreja terrestre congregam-se numa única presença diante do trono do Senhor. Essa presença tem especial significado: a Igreja é chamada a uma perpétua vigília e a oferecer orações pelo mundo inteiro.

 

Na quarta fileira da iconóstase estão dispostos os ícones dos profetas veterotestamentários, que com os seus escritos anunciaram a vinda do Messias. Esse conjunto indica a unidade dos dois Testamentos quanto à revelação do Verbo de Deus. A imagem dos profetas pode ser vista tanto nas fileiras superiores da nave dos fiéis, como na abside (“santo dos santos”). No meio da fileira dos profetas encontra-se o ícone da Mãe de Deus “Sinal” (em ucraniano, znamenia): no seu peito, sobre um círculo de luz, está representado o Menino Jesus – Emanuel (cf. Is 7, 14). A imagem da Mãe de Deus “Sinal” simboliza o final da espera, no Antigo Testamento, do Cristo Salvador: “Eis que a virgem concebeu” (Is 7, 14). No alto, a iconóstase é coroada com uma cruz – símbolo do poder divino e da sabedoria de Deus (v. 1Cor 1, 24).

 

A iconóstase nos representa todas as etapas da história da salvação: o passado, eventos do Antigo e do Novo Testamentos; o presente, a presença de Cristo e dos santos entre nós; e o futuro, o Cristo glorificado. A iconóstase simboliza a comunidade da Igreja que permanece na presença de Cristo e, ao mesmo tempo, caminha pelo poder do Espírito Santo, para o lugar onde nos foi preparado “o que os olhos não viram e os ouvidos não ouviram” (1Cor 2, 9).

 

[1] Metropolita Andrey: Carta aos fiéis das eparquias de Lviv e Kamianetz, Na Igreja (14/27 de janeiro de 1901). 

 

[2] João Crisóstomo: Comentário sobre o santo evangelista Mateus, Homilia 50, 3.

 

Fonte: Cristo nossa Páscoa: Catecismo da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Tradução: Pe. Soter Schiller, OSBM. Curitiba: Serzegraf, 2014, n. 600-609.

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