A alegoria da caverna da República de Platão

A obra A República, de autoria do filósofo grego Platão (429-348/47), conforme sua singular destreza, o Livro VII da referida obra inicia-se com a chamada alegoria da caverna, onde o autor vale do valor metafórico para ilustrar a importância do processo educacional na formação do cidadão grego. O objetivo de Platão, a partir desta alegoria é apresentar o problema da educação, mostrando claramente o resultado da vida do homem sob a influência de sua presença ou falta. Estabelece a representação da forma da natureza do homem relativo a sua instrução ou ignorância. Por meio da educação, o homem pode transformar e purificar a sua alma, em vista da contemplação do Bem Supremo.[1]

A alegoria da caverna é descrita por Platão[2] como uma morada subterrânea, em forma de caverna, onde havia uma entrada de luz, em que homens habitavam desde a infância, com as pernas e o pescoço acorrentados, ao qual não podiam se mexer, tampouco ver alhures, pois as correntes lhe impediam de virar a cabeça. A luz lhes vem de uma fogueira, acesa sobre uma eminência, logo atrás deles, havendo entre o fogo e os prisioneiros um trecho elevado, tendo como que um pequeno muro erguido, ao longo do qual, já do lado de fora, passam homens transportando toda espécie de objetos. Os prisioneiros, postos nesta posição, não podem ver os homens e os objetos, senão apenas a sombra desses projetada ao fundo da caverna. Ocorre que, em dado momento, um dos prisioneiros se desvencilha das correntes, levanta-se, volve o pescoço, caminha, ergue os olhos em direção à luz, o que lhe causa imenso desconforto, visto que todos esses movimentos e o ofuscamento o impedirá a distinguir os objetos cuja sombra enxergava há pouco. Arrancado a força de sua caverna, escalando o rude muro, vem a sofrer com a claridade solar, que pelo seu fulgor, o faz distinguir as coisas que percebia somente pelo espectro da sombra, vendo-as agora como sendo verdadeiras. Acostumado e plenificado com a vida fora da caverna, decide retornar para convencer os que continuavam presos, bem como auxilia-los a se esvaírem da ignorância da qual viviam.

A partir da perspectiva da alegoria da caverna, transpondo ao ideal da educação do indivíduo, infere-se num primeiro momento que a atitude dos prisioneiros é de total despreocupação, mergulhados na concentração da sombra que os permeava, sem perspectiva de evolução, vivendo na mais emblemática ignorância. Para Platão, o homem sem educação é comparável ao homem primitivo[3], figurado nos personagens viventes na caverna, devendo o filósofo educador mostrar o caminho para a superação da ignorância aos quais nasceram.

Portanto, como bem exemplificado na alegoria da caverna, Platão, por meio dessa metáfora, busca retratar o homem pela perspectiva da representação da sua natureza quanto a instrução e a ignorância. Quando o indivíduo não tem abertas as portas da razão, este vive como que acorrentado nos grilhões da ignorância, que os mantém imóveis e acomodados ante a possibilidade de descobrir um mundo repleto de vida sobrepujante. Nesta senda, é dever do filósofo libertar o homem do mundo das aparências e das representações e conduzi-lo a visão do verdadeiro ser, a vislumbrar o mundo real, as ideias.

 

Autor: Fr. Bruno Coelho Gonçalves, SAC, estudante da turma do segundo ano do Curso de Filosofia da FASBAM.

 

Referências:

PLATÃO. A República. Tradução de J. Guinsburg. 2. Vol. Difusão Européia do Livro: São Paulo, 1965.

TEIXEIRA, Evilázio Francisco Borges. A educação do homem segundo Platão. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2003.

[1] TEIXEIRA, Evilázio Francisco Borges. A educação do homem segundo Platão. 3ª ed. – São Paulo: Paulus, 2003, p. 62.

[2] PLATÃO. A República. Tradução de J. Guinsburg. 2º Vol. Difusão Européia do Livro: São Paulo, 1965, p.105-109.

[3] Cf. A República, op. cit., p.106.

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