As Divinas Liturgias

Na Igreja Greco-Católica Ucraniana há três ritos de Divina Liturgia: Liturgia de São João Crisóstomo, de São Basílio Magno e a dos Dons Pressantificados. Normalmente é celebrada a Divina Liturgia de São João Crisóstomo. A Divina Liturgia de São Basílio Magno é celebrada dez vezes ao ano: todos os domingos da Grande Quaresma, na Quinta-Feira e no Sábado da Paixão, na véspera do Natal e da Epifania e no dia de São Basílio Magno. No tempo da Grande Quaresma, de segunda a sexta-feira, em sinal de espera da Páscoa de Cristo e da sua gloriosa Parusia, a Igreja não oficia o sacrifício eucarístico, isto é, não é celebrada nem a Divina Liturgia de São João Crisóstomo nem a de São Basílio Magno.

Para o sustento espiritual dos fiéis durante o tempo da Grande Quaresma e para lhes oferecer a Comunhão nesses dias, a Igreja celebra a Liturgia dos Dons Pressantificados, durante a qual os fiéis recebem a Comunhão dos Santos Dons, que são consagrados no domingo anterior. A Igreja não celebra nenhuma das Divinas Liturgias na quarta e na sexta-feira da semana que antecede a Grande Quaresma, na segunda e terça-feira da primeira semana da Grande Quaresma[1] e na Sexta-Feira da Paixão. Por isso, chamamos esses dias, de acordo com a tradição, de dias “alitúrgicos”. Segundo a tradição, convencionou-se celebrar a Liturgia dos Dons Pressantificados somente nas quartas e sextas-feiras da Grande Quaresma; por isso são considerados como dias “alitúrgicos” também todas as segundas, terças e quintas-feiras da Grande Quaresma. A Igreja introduziu a prática dos dias “alitúrgicos” para nos recordar que nós estamos apenas aproximando-nos da plenitude do Reino de Deus e para que a Eucaristia não se torne para nós um mero hábito, mas seja sempre um acontecimento de vida[2].

1. Os ritos das Liturgias de São João Crisóstomo e de São Basílio Magno

 As Liturgias de São João Crisóstomo e de São Basílio Magno, que levam o nome desses dois grandes hierarcas da Igreja, são idênticas quanto ao seu conteúdo e sua estrutura fundamental, mas se diferenciam pela Anáfora e algumas outras orações.

A Anáfora da Liturgia de São João Crisóstomo é uma pérola da história da salvação, expressa na linguagem de imagens bíblicas. Uma peculiaridade dessa Anáfora é a oração de graças, que se inicia com a glorificação do Deus “inefável, insondável, invisível, que está acima de toda a compreensão, e que existe desde sempre”, o Deus que se revelou como Pai e Filho e Espírito Santo. O sacerdote rende graças a Deus por todos os seus benefícios: deu a existência aos homens, reergueu-os após a queda, conduziu-os ao céu e deu-lhes o Reino de Deus, e também rende graças por essa Liturgia, que Deus se dignou acolher.

Na Anáfora da Liturgia de São João Crisóstomo, a comunidade dos fiéis glorifica o Pai pelo dom do Filho que foi enviado “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3, 16). O Filho de Deus entregou a si mesmo pela vida do mundo, oferecendo na Última Ceia o seu Corpo e Sangue para o perdão dos pecados. No memorial eucarístico tornamo-nos partícipes de “tudo o que por nós foi feito”: a Paixão, a morte na cruz, o sepultamento, a ressurreição, a ascensão, o sentar-se à direita do Pai, a segunda e gloriosa vinda. Em sinal dessa participação, a comunidade oferece a si mesma e os dons a Deus: “Do que é vosso, a vós oferecemos”. Em seguida, o sacerdote pede ao Pai que envie o Espírito Santo “sobre nós e sobre esses dons aqui presentes”, “para que sejamos por eles santificados, para que Deus que os santificou, santifique também a nós por meio deles”[3]. O Espírito Santo, descendo sobre nós e sobre os Dons, santifica todos os que deles participam e faz deles um só Corpo, a Igreja, que inclui os fiéis de todas as gerações, mortos e vivos.

Na Anáfora da Liturgia de São Basílio Magno a Igreja contempla a glória da Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo: “Quem é capaz de expressar o vosso poder, proclamar os vossos louvores ou narrar em todo o tempo os vossos prodígios?” Todas as criaturas – os nove coros angélicos e, com eles, toda a comunidade litúrgica – servem ao Senhor e o glorificam pelos seus dons: a criação do homem, o paraíso, a promessa da imortalidade.

Continuando, a Anáfora de São Basílio Magno recorda que o homem, ao ser iludido pela serpente, cometeu o pecado da desobediência; por isso foi destituído do paraíso e tornou-se mortal. Porém, Deus na sua bondade não abandonou o homem, mas anunciou a salvação futura, deu-lhe a lei como auxílio, enviou os profetas, instituiu-lhe anjos da guarda. Por último, Deus falou por meio de seu Filho. Este humilhou a si mesmo, encarnando-se da Virgem Maria. Pela sua encarnação, ele condenou o pecado e deu-nos nova vida. Em vez de sermos nós levados à morte, ele mesmo entregou-se à morte e pela sua ressurreição aplainou para todo o homem o caminho para a vida eterna. Primícia entre os humanos, ele ressuscitou, subiu aos céus e sentou-se à direita do Pai. Para nós, em memória de sua Paixão, ele nos deixou esta oferenda dos Dons. Antes ele primeiro tomou o pão e o vinho, dizendo que são seu Corpo e Sangue e ordenou que isso fosse continuamente feito em sua memória. Esse mandato a comunidade litúrgica continua a cumprir, e o Espírito Santo santifica os Dons, fazendo deles o Corpo e Sangue de Jesus Cristo.

O Espírito Santo congrega os mortos e os vivos numa só Igreja. Na oração litúrgica pedimos ao Senhor lembrar-se dos benfeitores, dos ascetas, do povo, do governo e do exército, dos matrimônios e famílias, dos pobres, dos que se afastaram da Igreja, dos possessos, forasteiros, viúvas e órfãos, cativos e doentes, dos condenados e oprimidos, amigos e inimigos. A Anáfora de São Basílio Magno é coroada pela jubilosa certeza de que o Senhor, concedendo-nos todos os bens e benefícios – boas condições climáticas, chuvas e colheitas, refreando as divisões internas na Igreja, a soberba das nações, o surgimento das heresias – faz de nós filhos da luz e do dia.

2. Liturgia dos Dons Pressantificados

Na Liturgia dos Dons Pressantificados são enfatizados dois momentos: a preparação dos catecúmenos ao Batismo e a penitência dos fiéis. Durante essa Liturgia a comunidade reza pelos catecúmenos e, a partir da segunda metade da Grande Quaresma, também por aqueles que se encaminham à “iluminação”, isto é, que serão batizados na Páscoa. A primeira parte da Liturgia, que são Vésperas com leituras do Antigo Testamento, comporta um particular caráter parenético. As leituras dos livros do Gênesis e do Êxodo apresentam aos catecúmenos e também aos batizados o plano de Deus e sua proteção sobre o povo eleito; o livro dos Provérbios oferece ensinamentos da Sabedoria Divina para a vida cotidiana. Por meio da leitura do Antigo Testamento e das orações da Liturgia dos Dons Pressantificados, os catecúmenos preparam-se para a sua iluminação no Batismo. Símbolo de sua preparação e de sua iluminação pela Palavra de Deus é a bênção com a vela e incenso pronunciando as palavras “A Luz de Cristo ilumina a todos”. É o sinal de Cristo que vence as trevas, símbolo da Páscoa de Luz que se aproxima e do Batismo dos catecúmenos na morte e ressurreição de Cristo.

O caráter penitencial da Liturgia dos Dons Pressantificados se patenteia no canto da estrofe “Que a minha oração chegue até vós como um incenso”, que se integra com prostrações completas, e também com a genuflexão durante o translado dos Dons Pressantificados da mesa da Proscomida até ao altar. O caráter penitencial e quaresmal dessa Liturgia consiste na espera da plenitude pascal e na preparação dos fiéis à Páscoa; a comunhão dos Santos Dons revigora espiritualmente os fiéis no caminho do jejum e da penitência.

[1] Cf. rubricas: Triódio da Grande Quaresma, semana pré-quaresmal, quarta-feira, vésperas; primeira semana da Grande Quaresma; segunda-feira, vésperas, Sexta-Feira da Paixão, Hora Nona.

[2] V. Congregação para as Igrejas Orientais: Instrução sobre a adoção das prescrições litúrgicas do Código dos Cânones das Igrejas Orientais (6 de janeiro de 1996), 63.

[3] Nicolas Cabasilas: Explicação da Divina Liturgia, XXX, 16.

Fonte: Cristo nossa Páscoa: Catecismo da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Tradução: Pe. Soter Schiller, OSBM. Curitiba: Serzegraf, 2014, n. 393-402.

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