A Espiritualidade de São Basílio Magno

Extraído da carta nº 22: Sobre a perfeição da vida dos monges

“Embora nas Escrituras inspiradas haja muitas coisas que convém serem observadas por aqueles que desejam agradar a Deus, neste breve lembrete procurei tratar somente daquelas coisas que me foram por vós perguntadas. Vou falar sobre o que aprendi das Escrituras inspiradas. […]

Por conseguinte: é necessário que o cristão tenha pensamentos que sejam dignos de sua vocação celeste e que ele conduza uma vida de acordo com o Evangelho de Cristo.

Nenhuma coisa deve afastar o cristão da lembrança de Deus, da sua vontade e seus juízos.

O cristão que se tornou mais perfeito que a justificação pela Lei não deve jurar nem falar mentiras.

Ele não deve blasfemar, nem praguejar, nem discutir, nem buscar vingança, nem pagar o mal pelo mal, nem guardar ódio.

Ele deve ser paciente, suportar todas as afrontas e advertir no tempo oportuno aquele que comete injustiças. Mas é preciso fazer isso não por desejo de vingança, mas somente com o intuito de corrigir o irmão, como nos ordenou o Senhor.

Não se deve falar contra um irmão ausente, com o intuito de rebaixá-lo, pois isso é injúria, mesmo que seja verdade. Por isso, devemos nos afastar daquele que injuria seu irmão.

Não se deve conversar sobre futilidades. Não se deve entrar em conversas que não trazem nenhum proveito aos ouvintes, nem são úteis para os relacionamentos permitidos pelo Senhor. Por isso, aqueles que trabalham, procurem trabalhar em silêncio. E que conversem somente aqueles a quem foi confiado o uso da palavra para a edificação na fé, a fim de não entristecer o Espírito Santo.

Não devemos nos tornar escravos do vinho, nem comer carne em demasia e, em geral, nunca se deve procurar prazer na comida e bebida. Pois quem é lutador deve ser comedido em tudo. Das coisas que nos foram dadas para o uso, nada deve ser considerado como propriedade nossa, nem se pode ocultá-las. Mas devemos cuidar de cada coisa, como se ela pertencesse a Deus, e não se deve negligenciar quando acontece que alguém jogou fora alguma coisa ou descuidou dela.

Ninguém deve se considerar como senhor, e sim como servo, para servir aos irmãos. […]

Não se deve queixar-se da falta de coisas mesmo necessárias para o trabalho, pois somente os superiores têm o direito de decidir sobre cada coisa.

Não é necessário gritar ou fazer gestos ou sinais que demonstrem ira ou esquecimento de Deus.

Deve-se usar da voz somente de acordo com a necessidade.

Não se deve responder ao irmão de forma arrogante e prepotente, ou com essa atitude prestar-lhe algum serviço, mas em todas as coisas e para com todas as pessoas devemos nos comportar de modo modesto e com respeito.

Não convém piscar os olhos sorrateiramente ou fazer sinais ou gestos inconvenientes, que causem aborrecimento ao irmão, ou que deem a entender que nós o desprezamos.

Quanto ao vestuário e calçado não se deve buscar o luxo, pois isso é sinal de vaidade. Por isso, no tocante às necessidades do corpo deve-se usar coisas baratas.

Não gastar nada além da necessidade ou para ostentação, pois isso é desperdício.

Também não convém buscar glória ou lutar por primazias.

Cada um deve considerar os outros como superiores a ele e ser sempre obediente.

Quem pode trabalhar que não coma gratuitamente. E aquele que está ocupado em algum ofício que se faz para a glória de Cristo, deve trabalhar com afinco, com todas as suas forças.

Todas as coisas devem ser feitas de acordo com a vontade dos superiores, até comer e beber deve ser feito para a glória de Deus.

Não convém passar de uma tarefa a outra sem o consentimento daqueles que foram designados para distribuir os ofícios, a não ser que uma necessidade urgente o obrigue a ajudar ao mais fraco.

Cada um permaneça naquilo que lhe foi confiado e não se imiscua em coisas que não lhe dizem respeito. […]

Não se deve ter inveja quando os outros são elogiados, nem se alegrar com os erros alheios.

No espírito do amor de Cristo é preciso compadecer-se do irmão que sofre, entristecer-se com as suas fraquezas e alegrar-se com os seus êxitos.

Não se pode ser indiferente perante aqueles que pecam ou pelo silêncio aprovar os seus atos.

Quem faz advertência que o faça com mansidão, no temor de Deus, a fim de corrigir aquele que cometeu uma falta.

E aquele que é repreendido ou recebe uma advertência, que receba a correção de boa vontade, vendo nisso bom proveito próprio. […]

Cada um deve, na medida do possível, ouvir com atenção aquele que tem alguma coisa contra ele.

Não se deve guardar na memória as ofensas daquele que pecou e se arrependeu, mas perdoar-lhe de coração.

Quando alguém diz que se arrepende de algum pecado, deve não somente ter um sentimento de pena, mas mostrar frutos dignos de arrependimento. […]

Que o sol não se ponha junto com a ira contra o irmão, para que a noite não separe os dois e não deixe uma ofensa não perdoada para o dia do Juízo.

Não se deve igualmente procrastinar a emenda de sua vida, pois o dia de amanhã é incerto. Pois muitos dos que acalentaram belos planos não chegaram ao dia seguinte.

Também não se deve buscar a saciedade do ventre, pois disso decorrem os pesadelos noturnos.

Não devemos também trabalhar em excesso e transgredir os limites da necessidade, como diz o Apóstolo: Se temos alimento e vestuário, contentemo-nos com isso (1Tm 6, 8). Pois o que vai além da necessidade é ganância, e a ganância é idolatria!

Por isso, não se deve amar o dinheiro nem acumular coisas inúteis.

É preciso que aquele que se aproxima de Deus torne-se pobre e seja tomado do temor de Deus, de acordo com as palavras: Minha carne se arrepia com temor de Ti, e eu temo por causa de Tuas normas (Sl 119, 120).

Queira Deus que possais acolher essas minhas palavras com alegria e produzir frutos para a glória de Deus, sejais dignos do Espírito Santo, segundo o beneplácito de Deus, e com o auxílio do Senhor”[1].

[1] Epístola 22: Sobre a perfeição da vida dos monges. Tradução: Pe. Soter Schiller, OSBM.

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