Tragédia e Comédia

A mitologia nos diz muito de nós mesmos. Contudo, sempre mostra um final feliz como em um conto de fadas. Contudo, na realidade não é bem assim. O ser humano busca um referencial em que possa se apoiar, um “deus” para manter a vida que se encerra com o mesmo fim para todos. Ou seja, o nada. A comédia dentro da tragédia, não tem como objetivo caçoar das desgraças. Mas transformar o fim de todos os seres humanos, em uma divina comédia. Também não consiste em banalizar a morte. Mas em tornar o lúgubre, em uma coisa cômica. Pois, afinal de contas, a vida é uma verdadeira comédia.

Uma frase de Liev Tolstói que nos leva a refletir sobre diversas coisas é a seguinte: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira” (CAMPBELL, 1997, p. 32). Um padrão que é criado tanto pelas religiões, como pela própria sociedade sobre o que pode ou não ser cômico, é baseado no medo de atingir o “sagrado”, pois afinal de contas, a vida se encerra, tudo acaba dentro do próprio ser. Então porque não transformar uma tragédia, em comédia?

Se procurarmos entender de fato o que o mito tem a nos mostrar, veremos que não se trata de simples contos. Mas contém embutido no âmago da questão, resoluções de problemas temporais, que se transformam em apoio para que a coletividade não entre em colapso. O mito que ainda está presente dentro da sociedade contemporânea, sendo ele no Hinduísmo, Islamismo, Cristianismo e diversas outras grandes religiões ou crenças populares, tem como foco amenizar a dor temporal, prometendo uma eternidade feliz, uma vida após a morte que não haverá mais sofrimento ou preocupações.

A tragédia dentro da comédia, converte a dor de um futuro eminentemente desastroso para a massa, em um cômico acontecimento inescapável, e que a solução não está no fato de nos apoiarmos em promessas de eternas alegrias. Mas viver a única certeza que temos – existir temporariamente – e isso é hilário. Certamente não compreenderemos bem essa linha de raciocínio, se nos mantermos atados a correntes religiosas, morais ou até mesmo filosóficas que tiram a liberdade que todo ser humano tem por direito; o direito de pensar.

Na passagem da literatura brasileira do romantismo para o realismo, Machado de Assis em seu livro Memórias póstumas de Brás Cubas, inicia da seguinte forma: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas”. (ASSIS, 2014, p. 27). Seus leitores ficaram perplexos com tal livro. Mas porquê? Simplesmente por estarem presas a pensamentos e ideias, que sustentam suas ilusões ocultas, e por temerem a realidade de que é iminente para todos os seres humanos, ou seja, a morte.

A partir dessa breve leitura, reflexionemos a respeito do que o mito tenta nos dizer, seja ele o mito dos gregos com seus deuses, ou as mitologias contemporâneas que nos rodeiam e que estão presentes em nossas cidades em templos, ou até mesmo em livros “sagrados” que buscam de alguma maneira, amenizar a dor de um fim do homo sapiens, ou do homo sapiens sapiens (o homem que sabe que sabe) como diz a Viviane Moser. Mas que tudo poderia simplesmente ser convertido no título da obra de Dante Alighieri, ou seja, em uma DIVINA COMÉDIA.

REFERÊNCIAS:

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 6. ed. São Paulo: Editora Schwarcz S.A, 2018.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Pensamento, 2007.
MOSÉ, Viviane. Nietzsche Hoje. Petrópolis: Vozes, 2018.

Autor: Jefferson Ubirany Rodrigues de Morais, seminarista da Ordem de Santo Agostinho e estudando do 1º ano do Curso de Filosofia da FASBAM.

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