A mimese e a sua confluência com a escultura egípcia

Assim como em outras religiões politeístas, a arte egípcia e o seu desenvolvimento se instruíram por intermédio da religião. Em primeira análise, as várias crenças e diversos Deuses corroboraram para a sua percepção de realidade, principalmente com ideias como a vida eterna. A partir disso, é fácil perceber o porquê da presença de gravuras fincadas em suas pirâmides e também em seus sarcófagos. Outrossim, a imagem de um rei escolhido por intervenções divinas também é outro fator que contribuiu para diversas gravuras e obras, fazendo uma confluência entre o divino e o humano.

Para essa sociedade, era por intermédio da religião que existência iria e consolidar, e a morte seria somente o começo da interação entre o mundo terreno e o mundo divino. Com isso, essa sociedade tinha como a religião e seus Deuses uma maneira de manter a sua sociedade em equilíbrio, tanto na esfera política, quanto em âmbito social. Nesse contexto, toda a criação artística do antigo Egito está em consonância as suas crenças e deuses, direcionando toda a sua produção artística.

Por exemplo, a execução da mumificação não era vista por essa sociedade tão somente como uma forma de manter intacto o corpo de seus governantes, fazendo com que os mesmos consigam ter um corpo em seu renascimento, esse processo também é visto como uma forma de expressar a sua arte e unificar as linhagens familiares de acordo com as suas crenças, a múmia de Tutancâmon é um dos ápices desse fato. A partir disso, a arte egípcia se expressa desde o material no qual o sarcófago era feito, podendo ser de pedra, madeira ou até mesmo metais preciosos – isso torna imperativo sobre o quão sofisticada era a forma desse corpo social de expressar seus sentimentos e crenças, utilizando de materiais muitas vezes de alto valor comercial para a criação de suas obras – Além disso, o contorno e modelagem desse caixão é completamente organizado e simétrico, demonstrando o quanto eram importantes as questões religiosas para o Egito, e em como esses traços estão em concomitância com o seu meio artístico. Esses elementos demonstram como era tratado a questão da escultura egípcia.

Dentre as principais características da escultura para a arte egípcia, é como essas obras de arte buscavam demonstrar as principais características de seu povo, principalmente em relação a sua classe social, isso demonstra o contraste muito grande, pois quase tudo o que era retratado, estava relacionado a sua elite. Assim, é possível observar características como a sua fisionomia, fenótipo racial, e principalmente a sua ocupação na pirâmide social, algo que ficava bem incorporado nessas esculturas, como é o caso da obra com a objetificação o príncipe Ragotep e a sua esposa Nofret. Com isso, o conceito de mimese proposto por Gombrich (1995), pode ser entrelaçado aos conceitos da escultura egípcia:

“O que faz tal demonstração cultural das antigas sociedades clássicas e também de civilizações como o Egito peculiares é, em última análise, o anseio e esforço dirigido, a fazer uma metamorfose constante e sistemática da Schemata da arte conceitual, até que o fazer foi substituído pela imitação da realidade, através da nova habilidade da mimese. A natureza não pode ser imitada ou “transcrita” sem ser primeiro organizada e compreendida por quem pretende a tornar arte. Esse é um trabalho não só de observação, mas também de experimentação incessante.” (GOMBRICH, 1995, p.125).

Em seu Magnum Opus “A arte da ilusão”, um dos livros mais relevantes que abordam sobre a mimese, o autor permeia como algumas artes clássicas se encontram em um processo de modificações dissonantes do que era compreendido anteriormente como arte. Pois com o desenvolvimento dessa técnica, é possível que o empirismo e a observação de realidade se expresse de uma maneira muito realista (mimese), a escultura egípcia foi escolhida para ser associada a esse processo, justamente pela sua análise histórica demonstrar como a realidade era entendida por essa sociedade, e também sobre como as desigualdades sociais e laborais poderiam ser observadas no meio artístico, assim como a relação de subserviência que as classes mais pobres tinham e relação a figura humana de seus deuses, ou seja, os seus reis.

Contudo, a incorporação da arte egípcia era retratada pela presença a rigidez, em que seu papel era meramente simbólico, logo, ainda não estava tão próxima do conceito de mimese proposto por Ernst, contudo, nessa sociedade já era imperativa a presença do empirismo e da observação do contexto social do período em sua escultura. Logo, a sociedade egípcia pode ser compreendida como o início do processo de mimese, pois  a sua expressão artística ainda estava em consonância aos tipos mais gerais de demonstração da realidade (Schematas), esse ideal só começou a ser distanciado de forma mais acentuada, por intermédio a observação das atividades diárias e cotidianas da sociedade Grega, que demonstrou uma análise mais realista em sua representação artística, embora esse conceito ainda estivesse expresso e presente.

Logo, é perceptível fazer uma dissonância entre a escultura egípcia e o processo de consolidação de mimese, uma vez que essa vertente da arte estava cada vez mais se distanciando da simples reprodução simbólica geral, relacionadas ao sólido ritualismo egípcio. Isto posto, a escultura egípcia pode  ser associada a essa formatação Universal de arte, permeando conceitos como a representação divina, e traços humanos que apesar de simétricos e repleto de cores e riqueza de detalhes, ainda não estavam em paralelo a mimese, pois estes ainda não possuíam a sistemática particular cotidiana, que pode ser observada na escultura Grega.

Além disso, a religião era algo mais abstrato para o mundo egípcio, de forma que os seus Deuses, muitas vezes eram desenhados em uma união entre elementos animais e humanos. Esse fator destoa essa sociedade as premissas relacionadas ao tempo e espaço proposto pela mimese. Contudo, apesar desse distanciamento, é muito interessante relacionar como o contexto social do antigo Egito estava próximo da sua arte e escultura, isso não deixa de ser uma confluência com os conceitos da mimese, pois, mesmo de forma abstrata, e muitas vezes não intencional, é possível observar um retrato do que era a sociedade do Egito nessa época, e como as desigualdades sociais podem ser observadas por intermédio de sua arte, apesar do processo de humanização limitado dos seus Deuses.

Logo, é sistemático perceber, que o conceito de mimese não foi algo que apareceu na arte como uma linhagem sólida de um  período para o outro, mas foi um processo gradativo, no qual o homem começava a demonstrar a sua realidade de forma escorreita, e não somente compreender a sua vivência de maneira superficial e abstrata. Assim, a partir da análise a mimese, é possível delinear uma série de aspectos de organização e crenças de um povo em determinado período.

Uma associação válida, é a associação que Protágoras fomentava, do homem como a mensuração de todas as coisas que são e que não são. Logo, a teoria da proporção é um aspecto muito relevante para a compreensão das primeiras demonstrações dos conceitos de mimese, a priori, o conceito de proporção era um anseio somente construtivo, principalmente na quadrícula do egito, de forma que o punho humano servia como ferramenta para mensurar a altura e a largura. De forma lógica, as grandezas e medidas estão intrinsecamente associadas a mimese, pois é por intermédio delas, que a realidade pode ser demonstrada e projetada em sua forma mais natural. Logo, a técnica da quadrícula era um sistema de construção do corpo humano por intermédio de uma escala maior ou reduzida, dependendo da idade do indivíduo que estava sendo representado.

É a partir dessa técnica que alguns traços da mimese pode ser observada nessa sociedade, por exemplo, na execução de esculturas de relevo completo, nas quais era possível observar a construção de uma perspectiva tridimensional, organizada por intermédio de três blocos, organizando cada lado do indivíduo, sintetizando esculturas que possuíam traços da realidade, agora em três dimensões, e não somente de forma linear.

Outro ponto interessante a ser abordado é que os moldes de arte primitivos do egito, conseguiram criar cânones físicos tanto de pintura, quanto de escultura, embasando as imagens observadas por seus artistas, buscando as formatar de forma a moldes ideais, a partir daí é possível observar a influência pitagórica nesse período, com medidas construídas por intermédio de números e equações matemáticas, que permeiam essa sociedade de forma estrutural, por intermédio de sua arquitetura, e também de maneira interior, com a presença desses traços em sua escultura.

Logo, o conceito de mimese propostos por filósofos clássicos, que delimitam esse conceito como uma materialização do visível, e fundamentam a realidade sensível como uma forma de imitar a realidade. Assim, essa técnica pode ser compreendida em concomitância a teoria socrática, que faz a análise que o visível também pode ser permeado de maneira a delimitar premissas do caráter moral delimitado por uma sociedade, fomentando assim, uma série de características que podem ser facilmente analisadas, além disso, é possível observar uma série de mudanças corporais e comportamentais por intermédio da mimese, algo que também está presente na escultura egípcia.

Logo, em consonância ao que defendem os autores clássicos, a incorporação da mimese está associada a capacidade de incorporação do trabalho que detém o tempo e não somente do corpo que está sendo copiado de maneira artística, logo, no caso da escultura, é possível fazer uma associação entre a forma temporal de uma sociedade por intermédio da representação material de sua realidade, e também o que foi incorporado em realidades anteriores a essa sociedade. (GOMBRICH, 1999).

No caso do antigo egito, apesar dos seus aspectos artísticos não consolidarem a mimese de forma abrangente como foi a sociedade Grega no que tange a incorporação entre o real e o divino. É inexorável que os traços dessa demonstração artísticas podem ser analisadas nesse período, principalmente através da translocação e distanciamento artístico que a sociedade de menor classe social era retratada por essa população em relação aos seus grandes reis. Dessa forma, apesar da alta presença de elementos não tão parecidos com o realismo propostos pela população grega, é imperativo que uma série e aspectos e contextos sociais, além da forma como a figura do homem era observado em comparação as suas crenças, que a mimese também esteve presente na sociedade egípcia.

Logo conclui-se que a presença da mimese no antigo egito estava mais relacionada ao lado interpretativo da realidade em relação a sua arte. Contudo, alguns aspectos presentes no mimetismo como o nu e o belo ideal ainda não estavam presentes nessa sociedade de maneira sólida, pois o egito ainda relacionava a figura humana em forte confluência com o mundo sagrado exterior, e esse é o principal aspecto para o mimetismo não ter sido observado de maneira tão sólida em sociedades como a Grega, tanto a clássica como a helênica.

Pois segundo o egito, a concepção humana ainda era vista demasiadamente como um modelo exterior, isso pode ser facilmente observado devida a sua ocultação da nudez e da premência em conseguir consolidar a imagem de seus líderes, com esculturas, sarcófagos e pirâmides. Assim, apesar do mimetismo egípcio aparecer em vertentes como o seu sistema métrico e apanhado social, a realidade ainda se afastava de aparecer de forma sólida para esse povo, principalmente pelo seu forte sistema de crenças e organização sólida da figura de um rei como o principal pilar de organização social.

Referências
GOMBRICH, Ernst. A arte e Ilusão. São Paulo: Martins Fonte, 1995.
GOMBRICH, Ernst. A história da arte. Rio de janeiro: LTC, 1999.

Autor: Ermes Rodrigues de Almeida Neto é estudante do 3º ano do Curso de Filosofia da FASBAM e seminarista da Ordem de Santo Agostinho.

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