Sagrada Tradição versus Sagrada Escritura

Alguém pode se perguntar: “Por que as visões de alguns santos são suficientes para justificar a prática de rezar pelos mortos, se ela não é mencionada nas Escrituras e não é recomendada por nenhum dos Apóstolos como uma prática desejável e piedosa?”. Essa questão parece resultar do problema mais geral do relacionamento entre a autoridade das Escrituras e a sagrada Tradição da Igreja. Vamos tentar descobrir isso.

A Autoridade das Escrituras. Deve-se notar desde o início que o equilíbrio entre as Escrituras e a Tradição não é direto e não pode ser tratado de maneira inequívoca. Por um lado, sabemos que a Bíblia sempre foi a mais alta autoridade para a fé cristã. Somente a Bíblia é chamada Palavra de Deus, e somente os livros do Antigo e do Novo Testamento são considerados divinamente inspirados, nos quais homens santos de Deus falaram quando foram movidos pelo Espírito Santo (2 Pedro 1,21). Somente o Santo Evangelho pode ficar no Santo Altar na tradição oriental, em vez de qualquer outro livro. Segundo São Gregório, o Teólogo, “Aplicamos a Escritura como critério e padrão de toda posição. Nós apenas aprovamos aquelas posições e ideias que podem ser alinhadas com seu significado”. Outra questão importante é como interpretar as Escrituras corretamente, porque enquanto algumas pessoas pensam que a Bíblia proíbe algo e fornece citações para apoiá-las, outras pessoas citam citações igualmente legítimas em apoio de opiniões opostas.

A autoridade da Tradição. Também não devemos esquecer o fato de que as próprias Escrituras não caíram do céu; foram escritas por uma comunidade viva de pessoas que acreditavam em Deus. Além disso, foi a Igreja de Cristo que, guiada pelo Espírito Santo, prometida a ela pelo próprio Cristo, decidiu quais livros eram inspirados por Deus e quais não eram e quais deveriam ser incluídos no cânon. Assim, a Tradição (grego παραδοσις) da Igreja é a chave da Bíblia. Abre o caminho correto para sua interpretação e entendimento adequado. A Tradição é anterior às Escrituras, pois houve um tempo em que a Igreja vivia apenas de acordo com a Boa Nova, transmitida de boca em boca, e a Eucaristia. Quando Jesus estava ascendendo a Seu Pai, não foi na Bíblia que Ele prometeu que Seus discípulos deveriam deixar como autoridade final, mas o Espírito Santo, que “ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (João 14,26). A Tradição Apostólica é o tesouro sagrado do Espírito Santo, mantido pela Igreja que guardo o correto entendimento e transmissão (latim Traditio) da Revelação Divina aos novos membros da Igreja. São Basílio Magno afirma que, sem abraçar completamente a Tradição Apostólica, corre-se o risco de danificar a essência do próprio Evangelho. “Quem colocou as palavras da invocação na oferta do Pão da Eucaristia e do Cálice da Bênção por escrito? Pois não aceitamos as palavras mencionadas pelo apóstolo ou pelo evangelho; pelo contrário, dizemos outras palavras antes e depois delas como se tivessem grande poder no Sacramento, deixando-as passar da tradição não escrita”. Portanto, tanto as Escrituras quanto a Tradição como fonte dos textos bíblicos e da experiência do Espírito Santo são dois aspectos da vida que Cristo nos deu.

Conclusão. Em resposta à pergunta, vale ressaltar que, em primeiro lugar, nenhuma das “visões” de qualquer dos Paders está a par da autoridade da Sagrada Escritura. Os Santos Padres estavam respirando as Escrituras, lendo-as o tempo todo e refletindo sobre elas em oração. É por isso que eles não podiam justificar nenhuma prática que contradisse o espírito da Bíblia como a viam, nem as congregações cristãs. Se um santo teve alguma experiência mística, ele a testou para descobrir se era consistente com o Evangelho de Cristo, como o Apóstolo coloca: “não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus” (1 João 4,1). Os homens e mulheres santos, que tinham a mente de Cristo (cf. 1 Coríntios 2,16), eram competentes o suficiente para discernir espíritos. Sim, há muitas coisas que a Bíblia não diz ou ordena explicitamente; mas a Escritura, juntamente com a Tradição Apostólica oral, pode conter muitas verdades reveladas que a mente universal da Igreja traz à luz quando necessário e à medida que se aprofunda no Ensino de Cristo. De fato, onde a Bíblia diz que Cristo é um com o Pai? As palavras de Cristo: “Eu e o Pai somos um” (João 10,30) podem ser entendidas de várias maneiras, especialmente considerando as palavras: “[Meu] Pai é maior do que eu” (João 14,28). Onde exatamente as Escrituras dizem que em Cristo existem duas naturezas e duas vontades em uma hipóstase? E, no entanto, cremos e confessamos que esse é precisamente o caso, pois, caso contrário, o Evangelho será corrompido em sua própria essência. Resumindo nossa resposta, podemos dizer que o ensino cristão não se baseia nas visões de santos individuais ou em novas revelações, que são impossíveis de todo, porque a plenitude da revelação divina já nos é dada em Cristo. Os apóstolos, como os profetas da antiguidade, tiveram suas próprias experiências e visões (por exemplo, a visão do arquidiácono Estevão antes de seu apedrejamento), mas suas experiências fluíram diretamente da revelação do Deus vivo. As experiências espirituais dos santos, por outro lado, confirmam a experiência da Igreja, este pilar e fundamento da verdade (cf. 1 Timóteo 3,15), que é o guardador imaculado e fiel do Evangelho de Jesus Cristo. A visão dos degraus de Santa Teodora confirma alegoricamente o ensino de Cristo sobre o julgamento que toda pessoa deve passar: “a obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo” (1 Coríntios 3,13-15).

 

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