Reitor do Saint Vincent Seminary dos EUA realiza conferência sobre Fé e Razão na FASBAM

Na última quinta-feira (16), a FASBAM recebeu o reitor do Saint Vincent Seminary de Latrobe, Pensilvânia (Estados Unidos), Prof. Dr. Pe. Edward Mazich, OSB, que realizou uma conferência sobre o tema: Fé e Razão. Ele discorreu também sobre o fato de o ensino e o aprendizado abrangerem toda a nossa vida e não simplesmente o momento em que vivemos na universidade.

Ao partilhar sua experiência no ensino e no aprendizado e ao falar sobre o papel que estes fatores têm na própria cultura e na Igreja, o Prof. Edward destacou que era ainda mais apropriado abordá-los naquele momento em que ele estava presente numa faculdade de Filosofia. Ele ressaltou que os seus estudos universitários foram na área das Ciências Exatas, como a Matemática e a Física. Todavia, quando ingressou na comunidade beneditina, teve que integrar esta sua formação numa perspectiva religiosa. A pergunta chave proposta pelo Prof. Edward foi a seguinte: E como fazer isso? Segundo ele, a Filosofia é o meio e o espaço pelo qual estas experiências devem ser colocadas, refletidas e confrontadas para que elas possam desenvolver-se. Trata-se, pois, de um ponto de convergência.

Tendo cursado também o Bacharelado em Filosofia, o Prof. Edward viu a necessidade de integrá-lo às Ciências Exatas e à Teologia, pois, quando a Filosofia emerge, ela não vem dizer a mesma coisa que diz a Fé; antes, ela a reforça de modo a complementá-la, pois Fé e Razão convergem na nossa Tradição Católica. Segundo ele, este ponto não foi facilmente entendido pelos estudantes. Com efeito, nos Estados Unidos, um país considerado religioso, católicos e cristãos não se interrogam sobre essa possibilidade de uma convergência entre Fé e Razão. Por outro lado, justamente os cristãos americanos veem a Fé e Razão como duas esferas opostas. Por isso, parte de seu trabalho na Universidade é o desafio de demonstrar aos estudantes que Fé e Razão caminham juntas, de sorte que se pode facilitar e melhorar a questão do ministério e do próprio ensino. Evidentemente, pressupondo-se que esta compreensão seja alcançada.

Uma vez que se chega a este esclarecimento da complementariedade entre Fé e Razão, é possível cada vez mais desenvolver o sentido prático da Proclamação do Evangelho e do ensino. Este é um trabalho que tem se tornado difícil nos últimos tempos, pois, no mundo cristão anglo-saxônico, há a publicação de diversos livros que atacam a relação entre Fé e Razão. Todavia, o Prof. Edward acredita que estes ataques contra a credibilidade da relação entre Fé e Razão não estão fundamentados filosoficamente e nem teologicamente. A maioria destes autores já partem do pressuposto de que só se pode conhecer aquilo que se pode verificar empiricamente ou cientificamente. Eles não se dão conta de que esta mesma pressuposição não pode, ela também, ser verificada empiricamente ou cientificamente, justamente por se tratar de uma pressuposição. E o que ele tem visto no que diz respeito às ciências positivas é que estes autores, embora não sejam todos, podem permanecer muito focalizados no ponto pressuposto, o que redunda num limite. Se eles próprios tivessem a possibilidade ou a iniciativa de estudarem também Filosofia, ou tentassem aplicar o estudo da Filosofia no exame da pressuposição de que uma coisa é incompatível com a outra, talvez eles tivessem uma opinião totalmente diferente. É bem provável que eles começassem a entender que estas duas áreas do saber não são tão opostas como elas parecem.

Ao deixarem de aproveitar a oportunidade de comparar ou aplicar a Filosofia a esta relação entre Fé e Razão podem justamente gerar uma fonte de mal-entendidos e incompreensões. Uma dose de humildade intelectual mostraria que, não apenas na relação entre Filosofia e Teologia ou Fé e Razão, mas também em todas as outras áreas do conhecimento daria a entender que, na verdade, elas dependem uma da outra.

Prof. Edward vê o seu trabalho intelectual na Universidade como um desafio de integrar a Fé e a Razão, e isto tanto intelectualmente quanto na prática. Segundo ele, muitos dos estudantes chegam com entusiasmo, mas falta um pouco de humildade e de largueza de espírito para entenderem esta integração das várias áreas do saber. Se conseguissem entender isso com humildade poderiam constatar que a Fé vem em auxílio da razão e vice-versa. Neste caso, estas questões poderiam ser exploradas e aprofundadas. Evitar-se-ia também uma queda no fundamentalismo.

Segundo o Prof. Edward, nos Estados Unidos existe a seguinte mentalidade: é isso ou aquilo, o que significa dizer que é típico da mentalidade americana não perceber as gradações que existem entre as diferentes coisas. Isto é muito fácil na medida em que dispensa o sujeito de indagar onde se encontram as verdadeiras relações entre as diferentes coisas. E isto se dá justamente pelo fato de ser uma situação muito mais cômoda. Em outros termos, não é tanto o amor pelo fundamentalismo enquanto tal, mas o fundamentalismo como um expediente para facilitar a vida.

Nós descobrimos no começo da vida ou mesmo no meio da vida que ela não é tão simples e que é ela mais complexa do que se costuma imaginar. Nós podemos ter esta percepção nas próprias relações humanas. Quando estas relações são quebradas, elas suscitam uma perspectiva de fé, ou uma clareza, ou mesmo um realismo não somente nas relações humanas, mas também na relação com Deus. Por isso, no Saint Vincent Seminary se tenta demonstrar aos estudantes esta relação tanto no sentido prático, como no sentido intelectual, tanto no plano espiritual quanto no plano intelectual e pastoral. Segundo o Prof. Edward, é também esta motivação que ele espera dos estudantes da FASBAM durante os estudos da Filosofia. Que eles possam aprender cada vez mais, não apenas o que está nos livros, mas também o que diz respeito a si próprios e às relações que se estabelecem com Deus. Este é o grande desafio, porque ele requer conhecer e aceitar quem nós somos para a partir daí, procurarmos crescer.

A Filosofia pode ajudar nisso porque já no seu início, quando Platão fala do famoso dito da coluna do santuário de Delfo, “Conhece-te a ti mesmo”, ele desencadeia o próprio pensamento sobre si mesmo. Conhecendo-se a si próprio e as pessoas com quem se convive – pessoas que Deus criou – podemos ter canais que podem facilitar a própria circulação da Palavra de Deus, a palavra dos cristãos e das relações humanas.

Por fim, o Prof. Edward disse que este trabalho ele o faz sem saber até que ponto ele poderá ser bem-sucedido. No entanto, ele tenta fazê-lo e é justamente esta tentativa que proporciona uma fonte de alegria, de entusiasmo e recompensa.

Sobre o Prof. Edward Mazich: Mestre em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Mestre em Teologia Fundamental pela Universidade Gregoriana de Roma e Doutor em Teologia pela Universidade de Oxford.

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