A dignidade do homem segundo Giovanni Pico della Mirandola

Giovanni Pico della Mirandola (1463-1496) foi um pensador italiano visto como um dos mais notáveis representantes do humanismo renascentista: o filósofo é uma figura exemplar do humanismo e o seu discurso que mais tarde passou a ser conhecido como De Hominis Dignitate, é um dos textos essenciais para que possamos compreender melhor seu pensamento e a época em que viveu o filósofo. A obra nos deixa notar a substituição da consciência que trazia os medievais do teocentrismo para a retomada do antropocentrismo. A sua reflexão nos apresenta como um mediato exemplar do humanismo renascentista, sendo um humanismo que envolve também o conceito de valorização e ascensão dos valores do homem.

A temática da dignidade do homem em Mirandola está justamente na capacidade que o homem tem de raciocinar, que irá permiti-lo tomar consciência da sua liberdade. No pensamento do filósofo, o que distingue o homem do mundo natural como do mundo angélico, no qual o homem é o mediador, é justamente a capacidade de ser o artífice de si mesmo, enquanto o animal, devido à natureza que lhe é dada, só pode ser animal e o anjo só pode ser anjo, enquanto o homem tem quase o poder divino de se constituir segundo aquilo que quiser ser. O homem, então, é o ser mais digno da criação de Deus, segundo Mirandola, é o único que não tem o seu destino traçado, diferente das demais criaturas. Assim, a possibilidade de viver como animais ou de se reconstruir seguindo a imagem divina, depende dele mesmo.

Uma outra forma do homem expressar a sua superioridade a todos os outros seres criados, segundo o nosso autor, é um compromisso ético. O homem não deve se contentar com as coisas medíocres, mas aspirar as mais altas. Este “poder ser” que é permitido somente ao homem, orientado pela razão, deve agir em vista de conseguir os mais altos valores espirituais. Assim, a capacidade de raciocinar que leva o homem a ter consciência da sua liberdade e sabendo que sua vontade é livre, tem de estar voltada para o bem.

A preocupação pela valorização do homem, não é novidade para a época em que viveu o filósofo, pois, outros autores humanistas, de alguma forma já se expressaram sobre tal temática.  A obra de Giovanni Pico Della Mirandola Um Discurso Sobre a Dignidade do Homem, nos leva a olhar o homem como privilegiado e não só isso, mas o homem como livre para mapear seu caminho, sendo o fautor do seu próprio destino.

Autor: Bruno Dirceu dos Santos é estudante do 3º ano do Curso de Filosofia da FASBAM e seminarista da Congregação dos Filhos da Sagrada Família.

3 thoughts on “A dignidade do homem segundo Giovanni Pico della Mirandola

  1. Daniel S. Rachadel says:

    Acho que o nosso livre arbitreo nos faz senhor de nossas vontade, mas convém raciocinar que isto não nos torna um deus, pois sempre devemos levar em conta que vivemos em uma sociedade simbiótica e nossa vontade termina onde começa o direito de nossos semelhante!
    Então se como homem ser vivente diferimos de outros seres vivos pelo uso da razão, é preciso levar em conta que devemos ter mais responsabilidade por isto!
    Seu trabalho é ótimo, meus parabéns por seu trabalho!

    • F. Farias says:

      Dado o princípio de Causalidade, o “livre-arbítrio” não passa duma ilusão que temos por não estarmos conscientes das causas reais de nossas ações. Quanto ao conceito de divindade, não o vejo enquanto “natureza”, mas sim enquanto título ou função. Deus seria qualquer ser em função do qual existem outros seres, impessoais e pessoais. Nesse sentido, nem mesmo um rei absolutista seria um deus, visto que é somente um líder autocrático, conduzindo o povo para um objetivo comum, não que o povo viva em função dele. Finalmente, sobre os anjos, embora esses também não possam dispor de “livre-arbítrio” – pois sequer Deus o pode -, conforme a Escritura Sagrada nos informa, os mesmos também são passíveis de pecar, a exemplo de Satanás, que, embora um querubim – e não um anjo -, sendo igualmente uma criatura celestial, pecou.

    • F. Farias says:

      Dado o intransigente princípio lógico de Causalidade, sequer Deus pode possuir “livre-arbítrio”. Quando o conceito de “divindade”, não o entendo enquanto “natureza”, mas sim enquanto função ou título. Deus seria o ente em função do qual existem outros entes (pessoais e impessoais). Destarte, sequer o rei absolutista seria um deus, visto que ele é somente um líder autocrático, conduzindo o povo para um bem comum, não vivendo o povo “em função dele”. Quanto aos anjos, segundo as Escrituras Sagradas, os mesmos são passíveis de pecar, a exemplo de Satanás, que, embora não fosse um anjo, mas um querubim, contudo pecara, levando igualmente um terço dos anjos de Deus a também pecarem.

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