Conheça um pouco mais sobre o ícone de Cristo partindo o pão em Emaús

O aparecimento de Cristo em Emaús – uma aldeia a cerca de vinte e dois quilómetros de Jerusalém – é comemorado de doze em doze semanas durante o serviço das Matinas Dominicais. O sacerdote proclama a passagem do Santo Evangelho segundo Lucas que descreve o acontecimento, e o coro canta o Luminário Ressurrecional, que diz:

Cristo, nosso caminho e nossa Vida, tendo ressuscitado dos mortos, acompanhou Lucas e Cléofas, pelos quais foi reconhecido em Emaús quando partiu o pão. Seus corações e almas estavam ardendo quando Ele falou a eles no caminho e, referindo-se às Escrituras, explicou Seus sofrimentos; vamos clamar juntamente com eles: Ele ressuscitou e também apareceu a Pedro.

Mais formalmente, este evento é comemorado no dia alegre da “Terça-Feira Luminosa” – a terça-feira depois do domingo de Páscoa.

A manifestação de Jesus em Emaús é um evento importante. Seu significado é o mesmo que o do ícone das Mulheres portadoras de mirra, as mirróforas, e dos apóstolos Pedro e João no túmulo, todos vendo-o vazio e os panos de linho em que o corpo de Cristo tinha sido enrolado por eles mesmos e da sua aparição a onze discípulos em Jerusalém. (Os dois primeiros eventos precederam a aparição de Cristo em Emaús, enquanto o último o seguiu, como Lucas declara no capítulo 24 de seu Evangelho, versículos 1-36.) O significado desses eventos é que eles constituem tantas confirmações empíricas da ressurreição de Cristo. Lucas enfatiza devidamente a aparição de Cristo em Emaús, dedicando vinte versos a ela.

O evento é representado pela iconografia tradicional da seguinte forma:

Uma casa e uma pequena mesa com comida. Sentado à mesa está Cristo flanqueado à sua direita pelo evangelista e apóstolo Lucas e à esquerda, pelo apóstolo Cléofas. Lucas é mostrado no lado direito de Cristo porque a Igreja o considera em maior honra do que Cléofas. Somente Cristo é mostrado com um halo. Normalmente, ele é representado partindo um pedaço de pão.

Às vezes, se o espaço permitir, uma cena secundária, em dimensões menores, é incluída. Nela há uma montanha distante, e vindo dela estão Cristo, Lucas e Cléofas conversando.

Este ícone tem a inscrição: Ο ΧΡΙΣΤΟΣ ΚΛΩΝ ΤΟΝ ΑΡΤΟΝ ΕΙΣ ΕΜΜΑΟΥΣ  (“Cristo partindo o Pão em Emaús”).

Lucas descreve o evento assim:

Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com o outro de tudo o que se tinha passado. Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o mesmo Jesus aproximou-se deles e caminhava com eles. Mas os olhos estavam-lhes como que vendados e não o reconheceram. Perguntou-lhes, então: De que estais falando pelo caminho, e por que estais tristes? Um deles, chamado Cléofas, respondeu-lhe: És tu acaso o único forasteiro em Jerusalém que não sabe o que nela aconteceu estes dias? Perguntou-lhes ele: Que foi? Disseram: A respeito de Jesus de Nazaré… Era um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo. Os nossos sumos sacerdotes e os nossos magistrados o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Nós esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia que essas coisas sucederam. É verdade que algumas mulheres dentre nós nos alarmaram. Elas foram ao sepulcro, antes do nascer do sol; e não tendo achado o seu corpo, voltaram, dizendo que tiveram uma visão de anjos, os quais asseguravam que está vivo. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e acharam assim como as mulheres tinham dito, mas a ele mesmo não viram. Jesus lhes disse: Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória? E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras. Aproximaram-se da aldeia para onde iam e ele fez como se quisesse passar adiante. Mas eles forçaram-no a parar: Fica conosco, já é tarde e já declina o dia. Entrou então com eles. Aconteceu que, estando sentado conjuntamente à mesa, ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e serviu-lho (Lucas 24, 13-30).

O evangelista Marcos alude à aparição de Jesus em Emaús brevemente, mas usa uma frase que nos ajuda a entender por que Lucas e Cléofas, a princípio, não reconheceram a Cristo. Ele diz: ” Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana apareceu primeiramente a Maria de Magdala… Mais tarde, ele apareceu sob outra forma a dois entre eles que iam para o campo.” (16, 9,12). A afirmação de Marcos, “Ele apareceu em outra forma” (én hetéra morphe), explica por que às vezes no ícone: “Cristo partindo o pão em Emaús”, Cristo é descrito “de outra forma”.

Essa maneira de descrever Cristo, por exemplo, com cabelo curto, é injustificável. A passagem em Marcos não deve ser tomada como significando que Cristo realmente mudou Sua forma, e foi por essa razão que Ele não foi reconhecido por Lucas e Cléofas. A pista para a interpretação correta da passagem é dada por Lucas, que viu e conversou com Jesus no caminho para Emaús e em Emaús. Lucas diz que ele e Cléofas não reconheceram Jesus enquanto caminhavam e em Emaús antes de partir o pão, porque ” os olhos estavam-lhes como que vendados” (24,16), e quando Ele partiu o pão ” se lhes abriram os olhos” (24, 30-31). A forma de Cristo parecia-lhes diferente porque algo havia acontecido aos seus olhos que eles foram impedidos de funcionar normalmente, como resultado da excitação mental resultante do que ouviram sobre a ressurreição de Cristo, ou da ação sobrenatural de Cristo sobre eles.

Um detalhe mais notável a respeito do ícone de Cristo em Emaús é o que Ele é representado fazendo. Lucas diz que Cristo “tomou pão, abençoou-o e partiu-o e deu-o a eles”. O ícone não pode mostrar todos esses atos: abençoar, partir e dar. Jesus pode ser mostrado fazendo apenas um desses atos. O ato mais apropriado para representar é partir o pão. Pois é esse ato – não abençoar ou dar – que está listado na inscrição do ícone. Os atos de bênção e de dar, que são mencionados no relato do Evangelho, estão implícitos no ato de partir o pão. Cristo não teria partido o pão sem primeiro abençoá-lo; e Ele partiu isto obviamente para dar disto aos Apóstolos.

Nas igrejas que têm uma grande iconóstase que pode acomodar mais ícones do que os do Dodekaorton (As 12 Solenidades Principais do Ano Litúrgico Oriental), o ícone representando Cristo Partindo o Pão em Emaús pode ser colocado no lado direito (sul) da iconóstase, perto de outros ícones que pertencem à ressurreição de Cristo. Quanto ao seu uso na decoração das igrejas, deve-se notar que nem Dionysius de Fourna (séc. XVIII) nem Photios Kontoglou (séc. XX), considerados uns dos maiores iconógrafos, dizem nada sobre o lugar onde a cena deveria ser retratada; e é um evento raramente observado em igrejas tradicionalmente decoradas, aparentemente porque sua significância – que é uma verificação empírica da ressurreição de Cristo – tende a ser perdida.

Também na arte religiosa ocidental, a cena de Cristo em Emaús Partindo o Pão é raramente vista. O trabalho mais conhecido é o do famoso pintor holandês Rembrandt (1606-1669). Cristo é representado aqui com cabelos compridos e barbudos, mas sem o halo tradicional, e um de seus discípulos, de forma inadequada, de costas para o observador da pintura. Uma quarta figura, um servo, é representada entre Jesus e o outro discípulo, segurando um prato com comida.

Fonte: Cavarnos, Constantine. Guide to Byzantine Iconography. v. 2. Boston: Holy Transfiguration Monastery, 2001, p. 32-38.

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